barco que arriba
barco que partirá
saco seco
saco na zorra
ao barco as redes
tornarão
aparelhado o barco
pronto ficará
o quando
será obra do arrais
autorização do mar
haver peixe
todo o tempo
é tempo de
(companha do marco, torreira, 2009)
a 3 de agosto de 2012, procedeu a polícia marítima de aveiro ao abate do barco de mar olá sam paio, propriedade dos herdeiros do falecido arrais zé murta.
pensa-se que o barco será colocado na rotunda das escolas da torreira que, finalmente, terá um barco numa das muitas possíveis localizações. já não era sem tempo.
o barco foi substituído por outro com o mesmo nome, embora mais comprido, conforme desejava o falecido arrais, e cujo bota abaixo foi no dia 4 de agosto – aniversário de maria murta, viúva do arrais zé murta
tal como o seu antecessor o novo barco foi feito em pardilhó nos estaleiros do mestre felisberto.
o vídeo do abate
acabou-se o mar
o meu tempo de ser
naufragado que fui
repouso na areia
para onde antes sorria
lá de bem longe
no regresso de mais um lanço
não parto mais
arribei para sempre
não mais o “bota!”
a ressoar por sobre as ondas
não mais o voar
e cair no fundo na vaga
não mais o deslizar
sem saber de terra
sou agora
o ter sido
acabou-se o mar
que eu sou eu agora?
nasceram virados
ao mar
dele receberam
o primeiro embalo
a primeira prenda:
um peixe
todos os caminhos
são o mesmo caminho
é cega a arte que lhes dá
o pão
vai e não sabe se
cheia vazia grande miúdo
já poucos restam
já poucos sabem
já poucos resistem
partem para o alto
bacalhau palmeta pescada
chile terra nova áfrica
longes de onde se volta
para continuar
é esta a gente
que querem matar
um barco
o silêncio da praia
deitado na areia
escuta o suave
navegar das nuvens
um homem só
espera
não se sabe se amanhã
hoje
será o dia
o ultimo
o primeiro
um homem só
abandonado no seu país
pelos que nele mandam
e mandaram
dizendo representá-lo
e mandam
ainda mais
não é
um homem só
ou será?
todos somos
o homem só
ou negar-nos-emos
como povo
(torreira, 2008; à memória do arrais zé murta)