ombros de arrais


(torreira; 2007) – zé pato+arrais zé murta

verga-se o bordão
ao peso do rolo
não se vergam os homens
que mais são

de areia se faz
o caminho do mar
a companha é isto
o sermos todos o mesmo
e sabermos
quando um mesmo é mais
é esse o arrais

não é mais só por ser
é mais porque em tudo é
da voz às mãos
dos olhos ao corpo
ele é a companha
 
madrugada cedo
a quotidiana leitura do mar
o saber se
há ou não mar de largar
tarefa sua e sofrida
 
ombros mais largos
não
apenas ombros
de arrais


peso-me de mar


ti miguel bitaolra

pesadas passadas

enterram na areia

mais que os pés

enterram-me aqui

que este é o caminho

o meu caminho

 

o bordão

a que tantos se agarram

para andar

prende-me os passos

amarra-me ao chão

arranca-me os braços

 

sou

esta força escondida

no mais dentro de mim

este destino de ter aqui

um caminho

 

peso-me de mar

 

 

(torreira, 2007)

a faina é dura


ana amaral

 

 

escuto o mar

e oiço-me menina

não esta mulher cansada

de tantos anos

sofridos

 

revejo tudo de novo

o alfredo, canalha ainda

aos meus pés

enquanto alava as cordas

o peixe

no saco a caminho da barraca

onde umas brasas

e broa

 

estou cansada

de tanta areia percorrida

tanta carga sobre os meus ombros

de mulher/homem aqui

 

o alfredo

já é homem

ajuda na companha e sorri

faz-me feliz vê-lo

é quando o perco de vista

e só vejo areia e mar

que tudo me pesa

 

a faina é dura

mais dura porém a fome

que ela mata

 

(torreira, 2009)

 

 

gente nobre esta


dizer o teu nome
mulher
erguê-lo por entre
os homens
saber-te aqui rainha
onde o mar

tarefas as mais diversas
te esperam
das mais simples e humildes
à voz de mando
de ordem
por sobre

é esta a praia
onde os pescadores
recusam
que deles  se diga
serem
os mais pobres
dos pobres

erguem-se orgulhosos
e solidários
aos seus irmãos mais pobres
ofertam o peixe
que sobra da faina
e são ainda maiores
 
gente nobre esta
a que do mar faz casa
marlene murta

(torreira; 2007)


			

mãos de peixe, mãos de pouco pão


mãos de peixe, mãos de pouco pão


peixe para o gato

diziam

e lambiam os beiços

os bichanos

 

petisco

para a cerveja

e deslizavam

no prazer das bocas

de o saber fresco

sem espinhas

 

jaquinzinhos

servidos de aperitivo

em restaurante

com arroz de tomate

refeição

 

pequenos, dirás

junto à costa porém

parecendo muitos

são apenas os visíveis

minoria parca

face ao desbaste do arrasto

ao largo/perto

assim se confunde a árvore

com a floresta

e se abate aquela

enquanto os olhos se fecham

às grandes pescarias

 

os jaquinzinhos não matam

a fome dos pescadores da xávega

são o anúncio de que peixe maior virá

petisco de veraneantes

isso sim

de saco de plástico

como única ferramenta de trabalho

para além do

muitas vezes

ácido e crispado discurso moral

 

jaquinzinhos….

quem não gosta?

(torreira; 2009)

a limpidez do pescador


ti antónio neto (falecido)

 

o tempo passa

não a imagem onde já

nada mais que um nome

reconheço-o

basta-me olhar

 

virado ao mar

sempre

espera

esperou sempre

e sorriu

sorriu muito

 

na espuma das ondas

há um sorriso seu

ainda a boiar

lava-me as mãos sujas

da cidade

com a limpidez

do pescador

que já foi

 

é assim

o tempo de ter sido

no ser hoje ainda

 

(torreira, 2009)

o mar ignora-nos


 

quão pequenos somos

para menos ainda

nos fazermos

 

desconheço

outros caminhos

que não os por mim

abertos

 

aprendi

a dizer não

se para mim sim

 

sendo sempre

eu

nada mais que isso

eu

e tantos em mim

 

pescadores

digo

dos meus

orgulho de ser

deles

um

 

quão pequenos somos …

imenso o mar

ignora-nos

 

(torreira; companha do marco, 2010)