assim se vêem os heróis do mar


o barco de mar óscar miguel – torreira anos 90

 

é este o momento

do início

(e quantos tempos nele cabem …)

o arrais lê o mar

estuda a matemática das ondas

calcula-lhes o ritmo

as correntes e os seus caminhos

tensos

homens e animais

aguardam a ordem

o grito claro forte

sem dúvidas de espuma nos lábios

VAI ! VAI ! VAI !

e o barco pula salta

galga mais uma onda

avança

e pára de novo

a cena repete-se

tantas vezes quantas o arrais

achar

é dele o mando

até que

num arranco último

o barco

vence a rebentação

e parte

por sobre o mar

é este o momento

do início

em que tudo pode acabar

homens do mar da torreira


augusto vieira água a a lua; anos 90

o desafio

mora nos teus braços

que ninguém vê

(quem imagina que o mar os tem)

 

mas eu vejo-os verdes

brilhando revoltos

cobertos de espuma

 

encontro-te

ali onde ninguém

o olhar a perder-se

no infinitamente azul

 

aqui nasci e me fiz homem

não é agora que me assustarás

 

o barco

aguarda a voz do arrais

eu

não sou dos que esperam na areia

linda tareca


                                                          linda tareca; 2005

linda tareca

uma das características dos homens e mulheres da xávega, apesar da dureza da vida, é a sua permanente alegria e propensão para a brincaderia.

a linda é casada com o alberto trabalhito (trovão), e os dois são um dos casais de pescadores mais castiços da torreira.

da brincadeira ao braço de trabalho, da zanga ao apaziguamento, tudo com ela termina em bem.

mais do que uma vez pedi ao casal que se beijassem para a fotografia, a lina não se fez rogada mas o trovão é mais envergonhado.

ambos trabalham na companha do marco

(torreira)

falecido ti alfedo neto


ti alfredo neto; anos 90

 

adormeço
no embalo do tinto
aquecido ao rubro do mar

feito desta massa de mar e areia
onde as ondas quebram o sonho
de partir
para voltar
e não precisar de ir

por mais que olhe o horizonte
nada mais vejo que o meu rosto

preso nas redes
agarrado aos remos
a largar a corda

o meu presente
será o meu futuro
o passado neles reflectido

ti alfredo neto; anos 90

a cacilda


                                                             cacilda brandão; 2010

a cacilda

da família dos brandões, filha do ti chico brandão e irmã de homens de mar e da ria, conheço-a há muitos anos.

sempre bem disposta, sempre pronta para os trabalhos mais duros, faz de todo e qualquer trabalho que um homem de terra faça, com uma vantagem: tem sempre um sorriso no rosto.

se o sorriso e a boa disposição fossem peixe, em qualquer companha que a cacilda trabalhasse o saco vinha sempre cheio

(torreira- companha do marco_2010)

o alfredo


                                                         alfredo amaral; 2010

conheci o alfredo ainda miúdo aos pés da mãe, na areia, a ver “trabalhar o mar”.

o tempo passou e hoje é um homem de força, dedicado ao trabalho e sempre com uma piada fina na ponta da língua.

quem nasce ao pé do mar e aprende a caminhar na areia, acaba sempre a trabalhar na xávega, alguns partem para o arrasto, de inverno, outros andam na ria e no mar.

o alfredo é vê-lo feliz a arrumar as cordas em cima da zorra e, enquanto o barco está no mar, a conviver com todos os camaradas de igual para igual.

quem quer vence o que tem. quem não quer morre do teve.

( torreira- companha do marco- 2010)