agostinho trabalhito, 2010
mais um registo daquele que é para mim, actualmente, o rosto de pescador mais expressivo da torreira.
(torreira_companha do marco)
as juntas
nome:
boi
assim sem apelido
nem bilhete de identidade
força bruta
em bruto manso sou
reconheço as palavras suficientes
para obedecer
nada mais me ensinaram
os meus olhos grandes
fazem o mar ainda maior
o homem agiganta-se ante mim
e assim nada mais sou
que
boi para toda a obra
e a obra não fim
o barco de mar óscar miguel – torreira anos 90
é este o momento
do início
(e quantos tempos nele cabem …)
o arrais lê o mar
estuda a matemática das ondas
calcula-lhes o ritmo
as correntes e os seus caminhos
tensos
homens e animais
aguardam a ordem
o grito claro forte
sem dúvidas de espuma nos lábios
VAI ! VAI ! VAI !
e o barco pula salta
galga mais uma onda
avança
e pára de novo
a cena repete-se
tantas vezes quantas o arrais
achar
é dele o mando
até que
num arranco último
o barco
vence a rebentação
e parte
por sobre o mar
é este o momento
do início
em que tudo pode acabar
augusto vieira água a a lua; anos 90
o desafio
mora nos teus braços
que ninguém vê
(quem imagina que o mar os tem)
mas eu vejo-os verdes
brilhando revoltos
cobertos de espuma
encontro-te
ali onde ninguém
o olhar a perder-se
no infinitamente azul
aqui nasci e me fiz homem
não é agora que me assustarás
o barco
aguarda a voz do arrais
eu
não sou dos que esperam na areia
linda tareca
uma das características dos homens e mulheres da xávega, apesar da dureza da vida, é a sua permanente alegria e propensão para a brincaderia.
a linda é casada com o alberto trabalhito (trovão), e os dois são um dos casais de pescadores mais castiços da torreira.
da brincadeira ao braço de trabalho, da zanga ao apaziguamento, tudo com ela termina em bem.
mais do que uma vez pedi ao casal que se beijassem para a fotografia, a lina não se fez rogada mas o trovão é mais envergonhado.
ambos trabalham na companha do marco
(torreira)
ti alfredo neto; anos 90
adormeço
no embalo do tinto
aquecido ao rubro do mar
feito desta massa de mar e areia
onde as ondas quebram o sonho
de partir
para voltar
e não precisar de ir
por mais que olhe o horizonte
nada mais vejo que o meu rosto
preso nas redes
agarrado aos remos
a largar a corda
o meu presente
será o meu futuro
o passado neles reflectido
ti alfredo neto; anos 90
a cacilda
da família dos brandões, filha do ti chico brandão e irmã de homens de mar e da ria, conheço-a há muitos anos.
sempre bem disposta, sempre pronta para os trabalhos mais duros, faz de todo e qualquer trabalho que um homem de terra faça, com uma vantagem: tem sempre um sorriso no rosto.
se o sorriso e a boa disposição fossem peixe, em qualquer companha que a cacilda trabalhasse o saco vinha sempre cheio
(torreira- companha do marco_2010)
conheci o alfredo ainda miúdo aos pés da mãe, na areia, a ver “trabalhar o mar”.
o tempo passou e hoje é um homem de força, dedicado ao trabalho e sempre com uma piada fina na ponta da língua.
quem nasce ao pé do mar e aprende a caminhar na areia, acaba sempre a trabalhar na xávega, alguns partem para o arrasto, de inverno, outros andam na ria e no mar.
o alfredo é vê-lo feliz a arrumar as cordas em cima da zorra e, enquanto o barco está no mar, a conviver com todos os camaradas de igual para igual.
quem quer vence o que tem. quem não quer morre do teve.
( torreira- companha do marco- 2010)