memórias do além tejo (do baú)


                                                        parede de portalegre, 2007

 

não vos dou palavras

dou-vos pernas, braços e um coração naufragado

 

não vos dou palavras

dou-me a mim todo transubstanciado em poema

aceitem, se quiserem, as palavras que não vos dou

mas não aplaudam

o vosso espectáculo

são as minhas lágrimas, angústias e desesperos

 

não vos dou palavras

dou-vos  bofetadas que, por vezes, aceitais com um sorriso

porque o sorriso é a vossa reacção típica

 

e se eu não escrevesse ?

e se eu não vivesse de olhos abertos sobre cada dia

em cada dia suportando estar vivo

inventando searas e papoilas no deserto dos vossos olhos ?

 

e se eu pudesse dormir como vós descansadamente

com um policial ou um romance à cabeceira

e se eu me sentisse satisfeito com a telenovela

e me bastasse o mau gosto de um jantar num restaurante de três estrelas

“em boa companhia”

para ser feliz ?

 

e se eu fosse como vós

que tudo tendes

e mesmo quando não tendes fechais os olhos e tendes tudo ?

 

e se eu não pensasse ?

se eu fosse como vós

não haveria mais palavras

porque não haveria mais chaparros solitários

as estações estariam sempre certas e eu seria sempre feliz

à vossa maneira, é certo, mas feliz

 

mas não

continuo a dar-vos palavras que não o são

continuo à procura de não sei bem o quê

mas continuo sempre

 

dou-vos este corpo

que escorre sangue, sonho, amor e ódio

a quem por vezes apetece ser como o vosso

só para não ter nada que escrever