sufocar o terror


 

terra de gente até quando?

 

anos muitos serão noventa

inocência pureza

olham-me para além de

mãos céleres nas résteas

um povo uma história um desejo

 

o país que sonhei para ti

não é este

muito menos o que te querem

ofertar

insónia fome dor

 

beijar-te os olhos

pedir desculpa

se não for capaz de resistir

tu mereces tudo o que te

querem retirar

e é tão pouco o que te tens

 

os modelos não têm povo dentro

têm fórmulas concebidas por gente

que desconheces

criadoras de mundos outros

não aquele

que sonhei para ti

 

não é este o país

que te queria ofertar

nem é este o país

que tu gostarias de deixar

 

roubados somos

espoliados de nós

resta-nos ser a réstea

a sufocar o terror

 

 

 

 

 

 

 

manuel antónio pina na figueira da foz, 2012 (1)


manuel antónio pina (foto lusa)

Amor como em casa

 
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no
amor como em casa.

 

de Ainda Não É O Fim Nem O Princípio Do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde(1974)”