seremos povo?


cailda e zé pato

cacilda e luciano caravela

somaram-se

os dias

na safra do pão

foi-se

na conta o ano

amigos

chegaram e partiram

alegrias tristezas

perdas e ganhos

 

como se na china

de um animal

o ano

coelho

 

como se na china

o ano se fez

do salário

cada vez menos

gasparado que foi

no desgoverno

 

portugal

quem são?

este país

quem é?

 

passo a passo

passos

só tem um destino

saberemos dar-lho

ou não seremos

povo?

 

tempo de memória


ribeira de pardelhas

ribeira de pardelhas

 

aqui sentei outrora sonhos

rasguei outras folhas com outra raiva

 

a memória enche este espaço

 

na ria os olhos gastam-se

iniciando uma viagem impossível

onde a saudade não tem lugar

 

o que fui

o seu tempo teve

o que sou

o mistério de estar de novo aqui

entrego ao sol

para que arda e morra e arda sempre

a laura e ele


gansos mudos

gansos mudos

 

a laura e ele

 

 

os dois

são muitos

ainda

 

não digo

burros

dos que com

ele

sagradas vacas

estarão

comendo o pasto

por ele semeado

reis

que não os magos

enchem a barriga

 

não digo

inocentes

dos que com

ele

interrogo-me

porquê

mas sei

que sabem

o que querem

não sabendo o como

 

a laura e ele

isso sei

festejaram o natal

num manjar de laranjas

será que todos

os que com ele

também?

 

perdoai-lhes senhor

que o tempo não

da raiva


 

ahcravo_DSC_0957_janelas_arganil bw

talhar a pedra

erguer a casa

afeiçoar-se

das pequenas

coisas dentro

 

ser a casa

o mundo onde

acolher-se

dos agrestes dias

chuva, vento, frio

pedras outras

 

lugar onde

famílias, amigos

abraços

estar e ser

 

que fazer sem ela?

 

pedra a pedra

de novo

agora não a casa

o arremesso da raiva

aos senhores

da terra

onde erguida

e perdida

foi

 

assim

hoje, aqui

urge

 

gente da ria


 

ahcravo_DSC_8322_japónica

 

 

seguem o
relógio
das marés
assim
se erguem

curvam-se
no lavrar
da lama
onde antes
areal

colhem
doridos
os frutos
nas mãos
garfos

gingam
as ancas
na dança
sofrida
do ser
aqui sempre
o regresso
de tanto
mar
de tanta
espera

são
a gente
da ria

 

para ler com o vídeo de Jorge Bacelar