rostos da minha terra (4)


josé manuel vieira, presidente da Associação Portuguesa de Xávega (APX)

josé manuel vieira, presidente da Associação Portuguesa de Xávega (APX)

em novembro de 2012 foi criada a Associação Portuguesa de Xávega (APX) – se lerem a sigla à moda dos pescadores fica “há pêxe”, feliz a escolha.

está assim criada uma ferramenta  de união dos arrais da xávega pela luta da sobrevivência desta arte de pesca tradicional.

quando os homens querem

diz de ti


 

companha do falecido arrais zé murta; torreira, 2008)

companha do falecido arrais zé murta; torreira, 2008)

vão duros os tempos

 

da companha que hoje

urgente se torna

ou somos nós os camaradas

ou o peixe caído na rede

dos financeiros

armadores da trama

 

é tempo de decidir

quem quer ser o quê

é tempo de saber

se um homem vale mais

que um peixe

 

canta se tens voz

grita se revoltado

silencia-te se morto

diz de ti

 

apanha de bivalves na ria de aveiro


quando as caixas de fruta se transformam em cirandas

quando as caixas de fruta se transformam em cirandas

como já escrevi sobre este assunto um breve texto:  “sobrevivência dos pescadores na ria de aveiro”, retomo apenas o já dito sobre a apanha de bivalves e parto daí.
(……)
– bivalves (berbigão e amêijoa – de várias qualidades, sendo a predominante a “invasora”, denominada “japónica”. a apanha só é interrompida caso sejam detectadas nas águas microorganismos perigosos para a a saúde humana e é feita recorrendo às seguintes arte legais: cabrita alta, cabrita baixa, à mão e em apneia com tubo.
(…..)
a vida dos pescadores, quaisquer que sejam eles, é uma vida dura de grande desgaste físico e emocional, a que acresce no caso pescadores da ria no concelho da murtosa uma exploração inconcebível por parte de alguns intermediários.
a incapacidade, há muito evidenciada, e sem resolução à vista, dos pescadores da murtosa se organizarem por forma a controlarem todo o processo da pesca – da apanha à venda -, faz com que sejam esburgados pelos 2 intermediários, dos quais um é dominante, e que lhes compram linguados, chocos e bivalves, para revenda.
para além de serem miseravelmente pagos, não podem sequer pôr em causa o peso de pescado calculado na balança do intermediário, e, imagine-se, muitas vezes nem sequer sabem, no acto da entrega, a quanto lhes vai ser pago o quilo !!!!!
praticamente todos os pescadores têm um “contrato de fidelização” com um dos revendedores, sendo que a cláusula relevante do mesmo é a penalização do pescador em 500 euros, caso seja “apanhado” a vender o que pescou a outro comprador.
no que diz respeito aos bivalves, que são maioritariamente revendidos para espanha (galiza), para consumo imediato ou povoamento de viveiros, é o revendedor que determina as quantidades, o preço, os dias e as horas a que os quer receber.
pode-se dizer que a única fonte de rendimento, quase permanente, dos pescadores/mariscadores do concelho da murtosa, e são muitos, é a apanha de bivalves, a qual gera não pouca riqueza nos bolsos dos intermediários.