manuel antónio pina na figueira da foz (4)


foto de lucília monteiro

foto de lucília monteiro

 

de manuel antónio pina

 

A um jovem poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê.
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

 

manuel antónio pina, figueira da foz 2012 (3)


foto de helder sequeira no correio da guarda

foto de helder sequeira no correio da guarda

de manuel antónio pina:

Junto à água
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia

manuel antónio pina na figueira da foz, 2012 (2)


manuel antónio pina (foto de alfredo cunha)

foto de alfredo cunha

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

de Cuidados Intensivos(1994)

caldeirada de enguias à murtoseira


 

 

caldeirada enguias

 

 

receita do meu tio avô césar augusto cravo, escrita, guardada e utilizada pelo meu pai.

 

convém notar, porém, que a receita implicava também, para que a caldeirada ficasse bem feita, que as enguias fossem de determinadas zonas da ria, quando elas hoje já escasseiam em toda a ria.

 

aqui fica pois uma receita possível para a caldeirada e que, se bem aplicada, ainda pode produzir um resultado interessante ao paladar.

 

bom trabalho

 

1) num tacho pôr:

 

  • água ( a quantidade depende de se querer fazer sopa ou não)
  • enguias cortadas às postas (meio quilo por comensal)
  • tomate aos quartos
  • cebola às rodelas
  • folha de louro
  • um pedaço de unto de porco
  • alhos
  • salsa
  • um pouco de azeite
  • batatas cortadas às rodelas

 

  1. quando começar a ferver adicionar: 
  • pó de gengibre
  • um pouco de sal para a sopa

 

  1. deixar ferver durante 15 minutos

 

  1. retirar do lume 
  1. retirar caldo para a sopa 
  1. numa tijela fazer uma calda com

 

  • sal
  • azeite
  • alho picado
  • salsa picada
  • umas gotas de vinagre
  • um pouco de caldo da caldeirada 

    7) mexer tudo muito bem e verter a calda no tacho (dependendo a quantidade do paladar mais ou menos apetitoso que se pretenda obter)

     

    8) voltar a levar ao lume só para levantar fervura

     

    9) retirar o tacho do lume e ….. bom apetite

maria teresa horta nas quintas de leitura


mth2

no passado dia 31 de janeiro, na biblioteca da figueira da foz, tive o prazer de estar entre os que puderam ouvir e sentir o ser de uma grande escritora.

desses momentos memoráveis ficaram os registos que se seguem.

espero que sintam neles o pulsar da vida e o prazer de a compartilhar