A tragédia dos golfinhos na Torreira em 19/07/2013: interrogações e preocupações


 

foto jn 20-07-13

foto jn 20-07-13

 

 

A primeira pergunta que esta publicação pode suscitar é: porquê só agora? Porque o momento é este e não outro.

 

Que fique ainda claro que há duas coisas que me movem: a defesa da xávega e a defesa dos golfinhos. As dúvidas que procurarei expor ao longo do que a seguir escrevo, se esclarecidas, serão um contributo para o esclarecimento geral e final.

 

É verdade que não estive presente quando os factos se deram e que, como tal, não são minhas as fotos que foram divulgadas, só cheguei quando os golfinhos mortos aguardavam no atrelado e a polícia marítima ainda não tinha chegado.

 

Por tudo isso, não farei afirmações, limitar-me-ei a levantar questões suscitadas pelas entrevistas dadas ao Jornal de Notícias e à RTP, por aqueles que testemunharam todo o drama: os membros da companha.

 

Vejamos a reportagem do JN da autoria de João Paulo Costa:

 

Um cardume com cerca de 50 golfinhos, seguia de norte para sul. estava a um quilómetro da costa. passou por trás das redes, mas, de repente, inverteu a direcção e entrou nas redes, ficando preso”, conta ao JN, Bruno Murta, proprietário da companha envolvida no acidente. “ De imediato, entramos na água. Felizmente o mar estava calmo e deixou-nos com pé. Cortámos as redes e libertámos uns 40 golfinhos”

 

É óbvio que as duas citações têm um intervalo no tempo, que não foi respeitado na escrita, é impossível entrar na água, no nosso mar e com pé, até um quilómetro da costa. Resta portanto saber o que poderá ter acontecido no intervalo de tempo que medeia entre o entrar dos golfinhos nas redes, a cerca de um quilómetro da costa, e o “De imediato …..”.

 

A um quilómetro da costa as mangas da rede estão ainda completamente abertas, e as cordas que as puxam para terra (reçoeiro e mão de barca) distam cerca de 300 metros, é neste momento que as decisões têm de ser tomadas para tentar a libertação do grupo de golfinhos. as minhas dúvidas são as seguintes:

 

  • parou-se o puxar (alar) das redes para deixar os golfinhos passarem ou saírem?
  • se se parou e os animais não saíram largou-se uma das cordas, deixou-se ir à deriva e a rede abriu completamente, perdendo-se o lanço, mas deixando os animais fugir do cerco?
  • se os golfinhos estavam dentro do saco, foi-se lá de barco, ou chamaram-se os nadadores salva vidas, que já vi com um semí-rigido e com a ajuda deles rasgou-se o saco para os animais saírem?

 

Se tudo isto foi tentado e nada resultou então estamos perante, não um acidente, ou um erro, mas uma impossibilidade de salvamento em tempo.

 

  • continuou-se a puxar (alar) a rede?

     

Se a rede continuou a ser puxada (alada), então condenaram-se os golfinhos a virem dentro dela e chegarem à praia, onde aconteceu o relatado na frase que começa com “ De imediato….” e aconteceu o que só podia acontecer nessas circunstâncias.

 

Aliás, Marlene Murta, uma das donas da companha, na entrevista à RTP esclarece esta dúvida ao referir que o “imediatamente” é quando o saco chega à praia.

 

(ver : http://www.RTP.pt/noticias/index.php?article=668029&tm=8&layout=122&visual=61)

 

Ainda segundo a notícia do JN só houve 11 golfinhos mortos, ora no dia seguinte, veio outro morto no saco e não sabemos nada em relação aos que foram devolvidos ao mar e em que condições.

 

Ainda na notícia do JN é referido que, cito, “O comandante da capitania de Aveiro, Santos Oliveira, lamenta o acidente e diz que a capitania nada pode fazer, porque a xávega é uma arte autorizada”.

 

É aqui que a minha preocupação se centra: “ a culpa é da xávega”!!!!!!!!

 

No momento em que a União Europeia anda “em cima” das companhas por causa das capturas, não desejadas, dos “jaquinzinhos” e em que se conseguiu que todos os partidos, com assento parlamentar, aprovassem uma recomendação ao governo, que permite a venda do peixe miúdo do primeiro lanço e do que se fizer na maré seguinte, repondo a tradição, sem pôr em causa a sustentabilidade do carapau na nossa costa, e garantindo que as, pelo menos, 22 companhas existentes em Portugal continuem a trabalhar, um “caso” como este pode afectar muito negativamente a ideia que a Comissão Europeia tem da xávega e a imagem que dela têm as pessoas, cada vez mais sensíveis a situações como esta.

 

Ouvimos tantas vezes falar em “erro médico”, mas nunca se põe em causa a medicina, investiga-se o indiciado. Não é estranho que, neste caso, sem qualquer investigação, uma entidade responsável, ponha logo em causa a xávega?

 

Por isso, como estudioso e amante da xávega e defensor dos direitos dos animais, não podia deixar de me colocar estas interrogações e esperar que aqueles que tão bem sabem o que se passou, e como, me ajudem a entender tudo, respondendo às questões que levanto.

 

Questiono tudo e todos, por hábito intelectual, até não me restarem dúvidas. Seria até interessante que o “Jornal de Estarreja” promovesse um debate sobre este tema, onde todos pudessem serenamente analisar o que aconteceu e apontar caminhos para que tal não se repita.

 

Não sou, nunca fui, nem serei mentiroso, mas sou uma pessoa minimamente informada e que pensa. Por isso gostava de ver esclarecidas totalmente as minhas dúvidas. Todas as achegas, concretas e precisas, e que vão para além de meras considerações do tipo “se….”, ou insulto, serão bem vindas.

 

Até lá, se acontecer alguma coisa, a mim ou ao meu carro, será provavelmente a um quilómetro da costa.

 

 

Anexo:

 

Reportagem do JN 

 

jn 20-07-13

jn 20-07-13