“O Moliço” por Jaime da Catrina


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nota prévia:

o nº 7 da revista “terras de antuã”, editada pela câmara municipal de estarreja, tem um selecção maravilhosa de textos sobre a ria de aveiro. por 6 euros apenas, fica-se com um documento precioso.

um dos documentos publicados é “O Moliço”, de Jaime da Catrina, publicado no jornal “Concelho de Estarreja”, em 1991, e republicado por Paulo Silva. não resisti e digitei todo o texto/testemunho de Jaime da Catrina, que a seguir publico.

parece-me difícil reencontrar um documento de vida com esta qualidade e escrito por alguém que “andou ao moliço”.

ahcravo gorim

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foto retirada da revista “Terras de Antuã”, nº7

O Moliço

por Jaime da Catrina

in “Concelho de Estarreja, 1991” e “Terras de Antuã, nº7

Li no último número deste jornal (Fevereiro de 1991) que a Câmara Municipal de Estarreja, através da sua Divisão de Acção Social e Cultural, vai realizar de 8 a 16 de Junho do corrente ano a “ II Semana Cultural do Moliceiro”.

Muito se tem falado e escrito nos últimos tempos acerca do ex-líbris desta região, mas pouco se tem dito sobre a razão da sua existência. O moliço. Sim, porque se não houvesse moliço não haveria os moliceiros. Ora eu já algum tempo que trazia em mente fazer a descrição pormenorizada de como se faz uma “maré de moliço” e parece-me que esta será a altura mais apropriada para o fazer. Talvez poucas pessoas saibam que eu andei ao moliço. É verdade. Nos anos de 1941, 1942, 1943, frequentando eu o 3º, 4º, 5º ano dos liceus, passei as férias grandes ao moliço. A “safra” abria a 25 de Junho e encerrava a 25 de Outubro. Apanhava portanto quase todo o período das férias grandes escolares. Alguns, especialmente da zona das Gafanhas, tiravam licença até mais tarde e mantinham-se na apanha até ao fim do ano, mas para esses a tarefa era mais suave, porque só iam ao moliço com vento, mas para nós, os moliceiros cá do norte, era mais duro porque começávamos a tarefa de madrugada e apanhávamos todo aquele período da manhã em que o vento não soprava, isto é, fazia “calmaria” e portanto era preciso fazer andar o barco empurrando à vara “a dar de mamar ao pau” corno se dizia na gíria dos moliceiros e isto tornava o trabalho bastante pesado. Foi no ano de 1937 que tudo começou. O meu padrasto, homem analfabeto e boçal, que fora emigrante nos Estados Unidos da América onde arranjara alguns dólares, como não sabia fazer mais nada, mandou construir um barco moliceiro ao “Ti” Firmino Tavares, que lhe custou 4.500$00. Depois do barco pronto, falou ao “Ti” Joaquim Mau, um indivíduo que morava no Bunheiro, ali para os lados de S. Simão e que por sinal não tinha um único pelo na cabeça, sendo até conhecido pelo careca, para lhe fazer as velas.

Suponho que só esse artesão e um outro na Murtosa, sabiam fazer este trabalho. Encomendou-se a lona necessária às Ferreiras da Silva que a mandaram vir do Porto e o homem esteve em nossa casa durante duas semanas a fazer as duas velas. A vela grande e uma outra mais pequena para ser puxada à proa, quando o vento o permitisse. Se a memória não me falha o artista ganhava 5$00 por dia e comer. Aparecia de manhã cedo mal o sol acabava de nascer, “matava o bicho” com dois copitos de aguardente e estendia a lona na eira que era o seu “atelier”. Depois de cortar o pano em várias partes que ele sabia como ninguém, seguia-se a tarefa de coser essas partes urnas às outras. O homem calçava uma espécie de luva de lona, sem dedos e sem punhos e que lhe cobria a mão em toda a volta. Na altura da palma da mão, tinha pregado à lona uma roda de madeira com cerca de 2,5 cms de diâmetro, que lhe servia de dedal. Quer dizer… Era com essa roda de madeira, colocada no sítio da palma da mão, que ele empurrava a agulha. O fio utilizado era o fio do Norte.

Só nessa altura é que eu entendi, porque é que nesta região, esse fio era conhecido pelo nome de “fio de Vela”, exactamente por ser utilizado para cozer as velas. O “Ti” Joaquim trabalhava enquanto conseguisse ver e só regressava a casa já de noite, depois de cear.

Passadas duas semanas, o “careca” deu a tarefa por concluída, levando para casa 60$00 da quinzena e com a certeza as saudades duns bons “mata-bichos”, duns jantares e dumas merendas acompanhadas duns bons “meios-cortilhos” e dumas caldeiradas bem azeitadas, porque como a minha mãe tinha loja, era bastante generosa a “regar” estas refeições.

Para não me tornar fastidioso e “roubar” mais espaço útil ao nosso Jornal, no próximo número relatarei então, como se faz uma “maré de moliço”.

Aparelhado o barco com todos os apetrechos, vamos então iniciar-nos na apanha do moliço. Nos primeiros três anos, o meu padrasto trabalhou sozinho à proa, isto é, a empurra o barco à vara. À ré, aos ancinhos trabalhava um “camarada” de nome Domingos Carolo que morava no Bunheiro, ali para os lados do Covão. Neste período, eu não participei nesta tarefa, porque era ainda uma criança, tinha apenas 10 anos. Por esse motivo, durante as férias grandes ia trabalhar para a redacção deste Jornal, ajudar na sua composição e feitura.

Quando fiz o exame do 3º ano do Liceu de Aveiro, já então com 13 anos, o prémio que recebi, foi ir para o moliço. Confesso que na altura não gostei nada, mas mais tarde reconheci que foi uma experiência muito enriquecedora na minha vida. Para aqueles que não sabem nada destas andanças, começo por esclarecer que não se podia trabalhar na ria como quem vai ajudar o pai nos trabalhos agrícolas. Era necessário estar documentado. Para tanto, ia à Capitania do Porto de Aveiro requerer um “passe” que me era concedido apenas por uma “safra” que, como já disse começava em 25 de Junho e terminava em 25 de Outubro. Este “passe” era renovado todos os anos. A minha mãe, que na sua mocidade havia sido costureira, preparou-me um colete com uma almofada em cada um dos peitilhos, para ali encostar o topo da vara e não ferir tanto os ombros. Mesmo assim cheguei a fazer chaga no ombro esquerdo, que era o lado que eu mais utilizava.

Então, alta madrugada, muitas vezes às duas e três horas, conforme as exigências da maré, lá íamos nós para o moliço. Algumas vezes, depois da ceia, íamos dormir para o barco. Também para me proporcionar uma maior comodidade, minha mão fez um colchão de sacos de serapilheira que encheu com palha de centeio e devo confessar que era muito agradável dormir naquele “berço” embalado pelas mansas ondas do cais e ouvindo o marulhar das ondas a bater na proa. Quando a maré era propícia, toca a levantar e vá de levar o barco à vara para o rio largo até encontrar sítio onde houvesse moliço. Normalmente esta tarefa era feita pelos dois camaradas e deixavam-me ficar mais um bocadito no “berço”. Chegados ao local onde o moliço abundava, era ai que entrava em acção. O camarada dos ancinhos deixava a vara e vinha para a ré. Aí, colocava as forcadas e as tamancas no vão dos bordos do barco, uma de cada lado. Eram nestas forcadas e tamancas que se fixavam as hastes dos ancinhos para apanhar o moliço. A forcada, como o próprio nome indica, era constituída por um ramo de pinheiro com dois galhos em forma de garfo e aparelhada de tal modo que, quando introduzida no vão dos bordos ficava com os dois galhos um pouco fora de borda e voltados para a ré. A tamanca era uma peça, também de madeira de pinheiro, em forma de L cuja parte mais comprida era introduzida no vão dos bordos, ao lado da forcada e a parte mais curta, que também saía um pouco fora dos bordos, tinha uma pequena reentrância em semi-círculo voltada para a forcada. Pousada num e noutro bordo do barco havia uma toste que era onde o camarada dos ancinhos se movimentava. O homem ia a um lado e entalava a haste do ancinho entre a forcada e a tal reentrância da tamanca, ao mesmo tempo que enterrava o ancinho no moliço. Desta forma a haste podia partir, mas nunca saía dali. Depois ia ao outro lado e procedia do mesmo modo, com outro ancinho, enquanto nós, eu e o meu padrasto, (os camaradas da proa) fazíamos andar o barco empurrando à vara e arrastando os dois ancinhos enterrados no moliço. Era exactamente nesse deslizar do barco arrastando os ancinhos, que estes iam arrancando o moliço. Confesso-vos que esta tarefa de fazer andar o barco com ancinhos enterrados, era realmente muito dura. Como eu tinha menos força do que o meu padrasto, espetava a vara mais ao largo, enquanto ele a colocava ao comprido com o bordo e desta forma conseguíamos um equilíbrio que mantinha o barco sempre na mesma direcção.

Enquanto nós, à proa, íamos “arrastando” o barco, à ré, o camarada dos ancinhos ia levantando ora um, ora outro, conforme iam ficando cheios e sacudia-os dentro do barco, movimentando-se, como disse, através da tal toste, que servia de ponte entre os dois bordos. A meio do trajecto, metia na boca uma “bocada” de broa e um pedaço de cebola crua. Às vezes, normalmente quando a mulher recebia a quinzena do leite, esta “ementa” era enriquecida com sardinhas fritas empurradas com uma “pinada” de vinho, a beber pela garrafa, quando nós lho dávamos.

No tempo dos figos, as sardinhas e a cebola eram substituídas por aqueles frutos e assim, o homem fazia muitas marés de moliço comendo apenas boroa com figos.

Nós à proa, era mais “à rica”. Assim ale do pedaço de boroa, não faltava a “talhada” de “brinça”, ou uma chouriça cozida, das de casa ou de conserva, peixe frito, etc…etc…, e muitas vezes para mim, a minha mãe lá mandava uma talhada de queijo, ou um punhado de azeitonas. Claro está que nunca faltava a garrafa do “tinto” de que o camarada da ré também compartilhava. Estas “iguarias” eram pousadas nos bordos do barco, junto à proa e quando nós ali passávamos com a vara embirrada no ombro, abaixados e com os pés “fincados” na proa do barco, metíamos na boca uma “bocada” de boroa e de conduto, repetindo esta operação na varada seguinte e tantas vezes até darmos cabo do “manjar”. De repente o homem da ré gritava: – Alto que caímos em “lampela”, isto é: caímos num sítio onde já não havia moliço e os ancinhos só traziam lama e lodo.

Então o homem pousava os ancinhos dentro do barco e agarrava-se à vara e lá iam à procura de outro sítio onde houvesse moliço. Durante este trajecto mais ou menos curto eu aproveitava para escoar a água que se havia juntado nas cavernas, escorrida do moliço. Se acontecia encontrarmos uma mouteira boa e vasta, então abalizava-se, isto é, espetava-se uma vara em cada extremidade da mouteira, não só para identificar e para que o barco não saísse daquela fartura, mas também para indicar aos outros moliceiros que aquele sítio, enquanto estivesse abalizado, tinha dono e portanto os outros não se podiam aproximar. Ali, os ancinhos vinham sempre cheios de moliço e era ver a maré num tal crescer. Em pouco tempo começavam os bordos do barco, especialmente ao meio, a ficar ao nível água. As “falcas” eram umas tábuas aí com 20 cm de altura, que tinham pregadas duas pernas de madeira que se introduziam no vão dos bordos fazendo assentar a “falca” naquela tira de lona e que tapava o barco da proa até meio e do meio até à ré, isto é, protegiam o barco naquela zona mais baixa do moliceiro, evitando que a água entrasse. Claro, com aquela abundância de moliço em breve tínhamos a maré feita. Nestas condições, isto é, com esta fartura fazia-se a maré aí em 3 horas, 3 horas e meia, porque normalmente, uma maré de moliço, demorava, a fazer 4 horas, 4 horas e meia e até 5 se as coisas corriam mal. Estas mouteiras só se conseguiam encontrar no princípio da safra e raras vezes porque em pouco tempo ficavam todas desvastadas.

Maré feita, ancinhos dentro e toca a levantar a vela porque aquela hora já soprava uma “ramalhosa” como eles diziam. Então o arrais sentava-se ao leme e lá vínhamos direitos à ribeira onde o lavrador que encomendou a maré do moliço, tivesse mandado descarregar.

Durante o trajecto lá ia comendo mais um naco de boroa, enquanto nós, à proa, íamos escoando alguma água que juntava nas cavernas e dando cabo do resto do farnel. Se o vento não era forte o arrais lá me deixava vir ao leme e isso dava-me um gozo dos diabos. Chegados à ribeira, toca a descarregar a maré numa das margens e para isso colocava-se uma toste pousada no bordo do barco e em terra. Um dos camaradas ia passando o moliço com um engaço, do barco para a toste, enquanto o outro, também com um engaço, o tirava da toste e o ia empilhado em terra, numa pilha com a base às vezes de forma de um quadrado de 2 metros de lado, outras vezes com a base em forma de rectângulo e com cerca de 60 cms de altura. Depois de descarregado o barco e feita a pilha do moliço, havia que a identificar.

Então, se o lavrador que encomendara a maré, sabia ler, espetava-se um pau com um papel onde se havia escrito o nome do comprador. Se o encomendador era analfabeto, então a baliza já podia ser um ramo de tramagueira ou de qualquer outro arbusto, uma pedra, um pau espetado ou ainda 3 ou 4 engaçadas de moliço, colocadas num dos topos da pilha, formando um alto. Estas balizas dependiam um pouco das que tinham as outras marés que estavam ali à volta, havendo sempre o cuidado de se arranjarem balizas diferentes conforme a imaginação sugerida naquele momento.

Por fim procedia-se à lavagem do barco, lançando-se “escodouros” de água para dentro dele e depois com um “lambaz” que era uma espécie de esfregona feita de tiras, limpava-se toda aquela lama até o barco ficar limpinho como um Salão. De regresso a casa passava-se por casa do comprador a identificar-lhe a maré e a dizer-lhe qual a baliza que lhe tínhamos colocado.

Dia após dia, de madrugada, lá voltávamos à mesma faina. Às vezes, quando havia necessidade de fazer duas marés no mesmo dia, íamos dormir para a proa do barco. Nesses dias, procurávamos fazer as marés o mais rápido possível e então tudo o viesse nos ancinhos era aproveitado, isto é, tanto fazia vir moliço como lama, ia tudo para dentro do barco. Por isso, nesses dias em que tínhamos de fazer duas marés, saiamos da ribeira muito cedo, e no percurso até ao rio largo, íamos metendo para a ré do barco alguns braçados de junco, cortado com uma gadanha que andava sempre dentro da proa para o efeito, aproveitando os sítios onde o junco tosse mais jeitoso e mais próximo da margem. Chegados ao rio largo, íamos ainda apanhar “arrolado” que era o moliço seco que andava ao de cima da água e que as marés iam depositando nas margens, mas em muito mais abundância na margem sul visto ser do norte a predominância dos ventos. Então, encostávamos o barco à margem e com um ancinho daqueles utilizados nas eiras, íamos juntando esse “arrolado” e amontoando-o à ré. Esta “palha”, juntamente com o junco eram utilizados para empalhar, isto é, para misturar na lama, permitindo que a maré se fizesse mais rapidamente. Como então disse atrás, nestes dias, aproveitava-se tudo e quando os ancinhos só traziam lama, ia-se juntando “arrolado” e junco e a maré era um tal crescer, e assim, por volta das 10 horas, já estávamos a descarregar na ribeira. Descarregado o barco, voltávamos para o rio a fazer a segunda maré, aproveitando o trajecto até ao rio largo para comermos o reforço do farnel.

Aí chegados, já o vento, norte soprava rijo, então enrolava-se a vela por baixo deixando apenas um pequeno triângulo no topo do mastro. Nessa altura montava-se mais dois ancinhos à proa e mesmo assim, apenas com esse triângulo de vela a arrastar os quatro ancinhos o barco atingia uma tal velocidade que em pouco tempo chegava ao “Arrebentão” que ficava ali onde actualmente se situa a Pousada.

Depois lá tínhamos de vir a “veliar” que era navegar contra o vento e portanto vínhamos aos zigue-zagues, de margem a margem.

Confesso que nessas alturas tinha um certo receio, pois o vento impelia muita água para dentro do barco e eu lá tinha de passar a viagem de escoadouro na mão, além de que, de vez em quando, lá se via um barco de mastro partido ou até virado de fundo para o ar, sendo necessário prestar-lhe auxílio.

Havia no entanto a situação contrária, que era bem mais agradável. Era quando durante a noite se levantava um vento mais moderado que soprava do sudoeste e a que os moliceiros chamavam de mareiro. Esse vento era muito jeitoso, pois nunca soprava com a intensidade do vento norte e permitia levantar mais um mastro pequeno à proa (o mastaréu) com uma vela também de menores dimensões. Assim, as duas velas, permitiam trabalhar com dois ancinhos à ré e outros dois à proa, embora, nestas alturas, eu tivesse um pouco mais de trabalho, pois apesar de se colocar uma toste no bordo contrário aquele donde o vento soprava, isto é, debaixo do vento, era necessário que eu, com uma vara reforçasse o trabalho da toste, não deixando que o barco descaísse, isto é, se mantivesse na rota certa e direita e esse trabalho era bastante penoso porque, em virtude da colocação da toste e dos ancinhos à proa, o espaço de manobra era mais curto. Os moliceiros gostavam muito deste vento e mareiro, porque lhes permitia fazer as marés mais rapidamente e com menos esforço. No regresso à ribeira, recolhia-se o mastaréu e a vela pequena e o barco deslizava a uma boa velocidade porque navegava a favor do vento, isto é, vinha à popa.

Era nestes dias de “mareiro” que, no regresso à ribeira, como vínhamos a navegar à popa, isto é, a favor do vento, o camarada da ré me permitia vir ao leme a conduzir o barco, enquanto ele aproveitava para substituir alguns dentes partidos nos ancinhos. Como disse no princípio desta crónica, esta tarefa dava-me um grande prazer, vir ali armado em arrais, a dominar o leme e a escota da vela.

Porque ainda não o fiz, aproveito agora para descrever o ancinho utilizado na apanha do moliço. Era um objecto constituído por um travessão de madeira, com cerca de metro e meio de comprimento e 5 a 6 cm de altura, encabado a meio numa haste semelhante à vara do barco e com cerca de 30 dentes também de madeira com 10 a 12 cm de altura. Ora estes dentes, de vez em quando partiam e quantos mais faltassem menos moliço os ancinhos traziam. Era então nestas alturas que eu vinha armado em arrais e que deixava ao camarada da ré um pouco de tempo livre, que ele aproveitava para substituir os dentes partidos, aguçando-os com uma “poda”, ao mesmo tempo que ia preparando outros, sobressalentes, que ficavam de reserva para a primeira necessidade. E assim chegávamos à ribeira onde procedíamos à descarga do moliço da forma como já descrevi anteriormente.

Quando principiei esta crónica disse-vos que não gostei nada de andar ao moliço, embora tivesse reconhecido que foi uma experiência muito rica na minha vida e onde vivi alguns episódios de inesquecíveis, dos quais, não resisto à tentação de relatar um deles que mais ficou gravado na minha memória.

No segundo dia que fui para o moliço, depois de comer o pequeno-almoço, senti vontade de aliviar a tripa. Olhei à volta do barco e não deparei com qualquer lugar que me parecesse apropriado para o fazer. Então dirigi-me ao meu padrasto e disse-lhe: – Eu queria fazer caca. O homem riu-se e sempre a rir dirigiu-se ao camarada da ré. – Ó Domingos, temos que voltar para trás que o rapaz quer ca… a bordo. O outro riu-se ainda mais e respondeu: – Ah, ele agora tem que aprender a ca… a bordo. Fiquei um pouco chocado com a linguagem e olhei para o meu padrasto com uma certa angústia. Ele então, vendo a minha atrapalhação, disse-me: – Arreia os calções e faz aí para o rio. Abaixei-me no bordo do barco, com os calções arreados e meio envergonhado e em pouco tempo fiquei aliviado.

O meu padrasto, que se encontrava no outro bordo do barco, atravessou a proa e veio pousar junto de mim um punhado de arrolado. Percebi-lhe a intenção e lá limpei o cu àquela “palha”, ante o riso dos dois camaradas, acabando eu também por rir de gosto. Nos dias que se seguiram, era raro aquele em que não via um cu a reluzir em cima dum bordo dum barco. E pronto, está a maré feita.

Quando me propus escrever esta crónica, foi minha intenção e só essa, dar a conhecer às gerações vindouras desta região ribeirinha e até a algumas pessoas da minha geração como se processava, em pormenor a apanha do moliço a bordo do barco moliceiro, uma actividade desaparecida e que jamais recomeçará nos moldes em que então se processava.

Se consegui aquilo a que me propus, fico deveras satisfeito e altamente recompensado.

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