postais da ria (389)

postais da ria (389)


caminho andado

torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013
caminho descalço
pelos dias de estar aqui
olhos abertos como mãos
em tempo de fruta madura

caminho descalço
dorido de tantos cacos
pedras vidros pregos

recuso o conforto da cegueira
auto imposta felicidade
falsa de luas inventadas

doem-me os olhos de ser 
torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013

para mim será sempre o fausto


fausto bordalo dias no programa “primeira pessoa” da rtp

https://www.rtp.pt/play/p7801/e543401/primeira-pessoa

(antes de ler o que segue, aconselho a assistir à entrevista clicando no link acima)

foram sem dúvida momentos que me emocionaram ao ver e ouvir o fausto e que me entristeceram ao ouvir fausto bordalo dias. vi o cantor que admiro há muitos anos a necessitar de se apoiar numa fátima campos ferreira para caminhar, vi e doeu.

depois ouvi fausto bordalo dias falar por entre o fausto, e essa é outra tristeza, um homem lúcido pois assume, quase no fim da entrevista, que o que vai dizer vai desagradar a muita gente. mas é, também, quase de início que o faz.

atento que sou às palavras, cujo valor e significado tanto diferem consoante o por quem, o onde e o como, aqui ficam algumas breves meditações suscitadas pelas palavras de fausto bordalo dias.

minuto 05:43 “no planalto do Huambo, numa cidade que se chama Nova Lisboa, ou que se devia chamar ainda Nova Lisboa … “

que fausto bordalo dias se manifeste em relação a alteração de denominações de terras e monumentos no pós 25 de abril em portugal, é algo que como português, concordando ou não, lhe reconheço o direito de o fazer. mas manifestar-se em relação à designação atribuída a uma localidade que não é do seu país …. ele que no minuto 37:54 afirma ” eu não sou nacionalista, sou um patriota “, não reconhece aos patriotas de outras pátrias o direito de o fazerem!

no minuto 26:32 “Cabo Verde não existiria como país independente se Portugal não tivesse levado para lá pessoas. Vou-me atrever a dizer que muitos países africanos foram mais felizes com Portugal – infelizmente felizes com Portugal -, do que agora. Ou seja, quando uma independência não concorre para a felicidade dos povos alguma coisa está errada. “.

mais afirma no minuto 27:14, referindo-se aos povos da ex-colónias, “Eles viveram mais felizes antes da independência do que vivem agora. Eu sei que isto desagrada a muita gente mas é verdade

não saindo do contexto do dito na entrevista, não deveria fausto bordalo dias, arrepender-se de, como disse no minuto 14:44 “fui considerado refractário” – ou seja, não foi à guerra, onde morreram 8.600 militares portugueses – e reconhecer que deveria ter participado no ‘esforço nacional de manutenção do império’?

para concluir uma nota breve sobre a sua demarcação em relação à “canção de intervenção”, afirma no minuto 16: 04 “era a canção de protesto, que a canção de intervenção é depois do 25 de Abril. porque a canção de protesto era essencialmente metafórica …”

curiosamente, do meu ponto de vista, a primeira música de intervenção de cariz ecológico é a “Rosalinda” do fausto, estávamos em 1976, havia uma central nuclear pensada para “ferrel, lá para peniche” e fausto escreve e canta:

Rosalinda se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira-mar

a branca areia de ontem
está cheinha de alcatrão
as dunas de vento batidas
são de plástico e carvão
e cheiram mal como avenidas
vieram para aqui fugidas
a lama a putrefacção
as aves já voam feridas
e outras caem ao chão

Mas na verdade Rosalinda
Nas fábricas que ali vês
O operário respira ainda
Envenenado a desmaiar
O que mais há desta aridez
Pois os que mandam no mundo
Só vivem querendo ganhar
Mesmo matando aquele
Que morrendo vive a trabalhar
Tem cuidado...

Rosalinda se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira-mar

Em Ferrel lá p´ra Peniche
vão fazer uma central
que para alguns é nuclear
mas para muitos é mortal

os peixes hão-de vir à mão
um doente outro sem vida
não tem vida o pescador
morre o sável e o salmão
isto é civilização
assim falou um senhor
tem cuidado..."

nota (1) – por poder ser considerado polémico o que escrevi, agradeço que quem não estiver de acordo o manifeste

nota (2) – fausto bordalo dias não está senil, nem foi corajoso, atingiu apenas a idade em que nós portugueses achamos que “podemos dizer tudo”

ir ao mar com o chico giesteira em 2006


em 2006 para além das companhas de pescadores da torreira – olá sam paio e maria de fátima – trabalhavam ao sul do molhe sul duas companhas de pescadores do furadouro : a companha do jacinto e a companha do pepolim. a primeira com o barco “srª da piedade” a segunda com “o jovem”.

a companha do jacinto só fez a safra de 2006, a do pepolim ainda por lá continua.

liderada pelo arrais chico giesteira, descendente de uma das famílias de arrais mais tradicionais do furadouro, o chico é um grande arrais, certamente o melhor arrais que até hoje conheci.

para acompanhar a faina tinha de esperar que viessem ao pão, à torreira, ao meio da manha e me dessem boleia de tractor até ao acampamento, onde almoçava com a companha.

um dia houve em que, de manhã, vendo o mar mais manso, disse ao chico: hoje vou ao mar.

quando o barco se preparava para partir desci até à borda de água e ao olhar para as ondas mudei de ideias e disse ao chico: afinal já não vou.

de sorriso nos lábios respondeu-me : eu já sabia, você só viu o mar lá de cima.

à tarde o mar acalmou um pouco e o chico deixou-me ir com eles.

é desse lanço que, sem a espectacularidade que de terra proporciona a largada e o arribar do barco, resultam os registos que seguem

(documento escrito em 2010)

como a corrente dominante na costa ocidental portuguesa é de norte, o barco de mar vai em direcção ao norte para que a rede venha trazida pela corrente até próximo do local de largada.

a distância a que é feito o lanço depende do comprimentos das “calas”, cordas que ligam a rede a terra.

as calas são duas:

o reçoeiro – cuja extremidade fica em terra

a mão de barca – que virá para terra com o barco de mar

neste registo é o reçoeiro que vai saindo do barco de mar à medida que nos vamos afastando da costa

por momentos estamos no meio do mar rodeados de silêncios e somos senhores do infinito.

existimos apenas, peixes outros que sobre as águas navegam.

única a sensação.

longe de tudo e tão perto de nada, o pescador é dono e senhor, por uma fracção de tempo, de um universo só seu: a liberdade.

é preciso ir ao mar para sentir que só a terra é falsa

lança-se o arinque do reçoeiro

as calas ligam à manga da rede no “calão”. aí se prendem os “arinques”, bóias que servem de referência quando se ala a rede para terra.

um alar bem feito traz em paralelo o arinque da mão de barca e o arinque do reçoeiro: ou seja a rede tem de vir paralela à costa, para que não o peixe não fuja.

nalgumas redes há ainda quem ponha uma bóia no meio do saco o “calime”.

o calão não é mais que um pau que se coloca no início da manga para a manter aberta, impedindo o peixe de fugir.

interessante é que calão era também o nome dado ao barco que, na xávega mediterrânica e algarvia, levava a rede.

mas falar de tudo isto era um romance

lento o movimento continua.

o saco desce ao mar onde, quem sabe, carapau.

a mão de barca começa a ser lançada ao mar

a manga da mão de barca é lançada ao mar.

a rede está toda na água

o arinque da manga da mão de barca é lançado ao mar.

segue-se agora a cala da mão de barca.

a rede está lançada. virá peixe?

ser pescador artesanal é “lavrar o mar”, como já foi escrito, e não saber da colheita feita a sementeira, acrescento eu.

agora sim, a rede está toda na água

dentro da barca
as mãos
sobrantes nunca
descansando
por vezes
atentas na corda

na outra mão
a de barca
que do barco mão é
quando no caminho
para terra
o segura
o ampara do embate
das ondas
do grito
do mar

as mãos
são
o homem
na raiz
das coisas
na fome
de vida
no amor
no sal
no sul
onde mãos
por mãos
esperam

outras mãos
calam a cala
e é de barca a mão
que as tange

assim na xávega
renascem
fortes e pujantes
ternas e amantes
as mãos
sobrantes nunca

há no pescador um misto de arte e esperança.

assim se faz a xávega

os movimentos repetem-se agora em sentido inverso.

de regresso é a mão de barca que zune

o motor no máximo. é preciso chegar rápido a terra, onde um tractor já começou a puxar o reçoeiro.

a ida ao mar está a chegar ao fim. a terra aproxima-se.

um homem cresceu entretanto

há quem olhe para os carros, outros para a marca da roupa, outros para os rostos …. outros devoram com os olhos o que não comem

todos buscam o mesmo: conhecer

eu olho para as mãos e sei que aqui, aqui, encontro tudo.

as mãos do pescadores são rudes, gretadas, feridas, mas extremamente limpas.

são mãos que o mar lava e areia esfrega.

são mãos de trabalho, mãos de homens e mulheres que trazem nelas a história de uma vida, de um amor, de uma guerra, de uma faina,….

de uma gana de ganhar a vida no mar