postais da ria (9)


 

a ria das flores

a ria das flores

 

realizou-se hoje, na torreira, a tradicional procissão das bateiras, até às quintas do norte, onde foi celebrada missa na igreja da srª da paz.

por tradição a procissão realizava-se no dia de corpo de deus, que este ano foi no passado dia 19, dia que era feriado nacional.

com a anulação do feriado, pelo actual governo, a procissão foi adiada para o domingo seguinte.

 

(ria de aveiro; torreira; jun, 2014)

 

obrigado à esmeralda e ao marido, joão, por nos terem levado na bateira

postais da ria (8)


 

porto de abrigo do chegado, murtosa, na maré vazia

porto de abrigo do chegado, murtosa, na maré vazia

 

 

este é um dos postais que eu gostava de não fazer.

o novo porto de abrigo da cova do chegado, na murtosa, tem tudo: atracações, armazéns de apoio… o que os pescadores necessitam de um porto de abrigo.

tem tudo…. só lhe falta água!!!!!!!!!

na maré vazia o porto de abrigo, fica assim.

agora que começaram as obras no porto de abrigo da torreira, aqui fica um postal que não gostaria que dele alguém viesse a fazer de aqui a uns anos.

 

 

(murtosa; chegado; jun, 2014)

postais da ria (6)


 

na maré cheia, a ilusão de que tudo bem....

porto de abrigo, na maré cheia, a ilusão de que tudo bem….

 

 

finalmente começaram as obras para a construção do novo porto de abrigo dos pescadores da torreira.

de todas as comunidades piscatórias do concelho da murtosa, a maior é a da torreira, entende-se por isso que tenha sido o último, desta primeira fase.

era preciso “treinar” no fazer dos portos de abrigo mais pequenos. creio nas boas intenções de quem manda.

espero que tenham aprendido com os erros cometidos nas interiores intervenções, nomeadamente, bico e chegado.

fotos como esta não poderão ser feitas em breve, porque estes são os últimos barcos que estão no velho porto de abrigo.

vou esperar pelo fim das obras e espero estar vivo um ano depois de terem terminado.

então, todos veremos o que foi feito e poderemos dizer da obra.

para já, é óbvio, que desejo que da obra resulte um porto de abrigo com as condições que os seus utilizadores merecem, e onde não tenham de esperar pela maré para sair de um atoleiro de lama.

as obras nos portos de abrigo têm sido uma aventura nem sempre bem sucedida.

 

 

(torreira; porto de abrigo; jun 2014)

tu


 

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

o moliceiro do mestre zé rito, espera, ao longe, no seco, a vida

 

não te agarres ao que foi
o ter sido lhe basta
o que há-de ser
sê-lo-á mesmo se sem ti
só agora
aqui
aquietado o tempo
és

não deixes que a ilusão
do amanhã
seja o teu tempo sonhado

repito
hoje agora já
és

tu

 

(torreira)

portugal


 

 

ahcravo_DSC_8127_bateira marina
porque hoje é o teu dia
este é o teu futuro

queira ou não queira
quem por ti fala
é este o teu povo
o que todos os dias
quer ser gente aqui

portugal
olha para este miúdo
e vê como é enorme

portugal
quem usa o teu nome
esquece muitos dos teus

portugal
se tu estás mal
ele também está

portugal
amo-te

(torreira, marina dos pescadores, jun.2014)

eu


 

 

mais um andar ou o resto do aparelho da solheira prestes a ser colhido

mais um andar, ou o resto do aparelho da solheira, prestes a ser colhido

entre os poetas
que se dão ao trabalho de ler
palavras minhas
penduradas em imagens
sou
um fotógrafo

ao contrário
entre os fotógrafos
que distraidamente
soletram os poemas
que às imagens junto
sou
um poeta

falar de mim é por isso
escrever em imagens
registar com palavras
sempre o outro
o que não é

passo por entre
e fico em mim
a ser eu

sorrindo
(lentamente a rede vai sendo colhida pelo joão costeira, e eu fico assim pendurado do que sou, a boiar nas águas da ria)

olho a ria e penso a urbe


a bateira do marco (fátima m.) abraçada por um velho moliceiro
gastam o tempo em estarem vivos
sem fazerem coisa outra
que isso mesmo

começam o dia quando

sentam-se nos cafés
lêm os jornais com a bica
as necrologias em destaque
depois da tensão
ou o inverso
que importa

falam do porquê de estar assim
aqui tudo onde eles também
e pelo falar se ficam que mais
já tempo foi de
agora outros que

perseguem a vida pelo puro prazer de
nada para além dela
que dela pensam saber o que fazer
nada

têm por projecto o estarem vivos
isso lhes basta
que coisa dura esta de estar por aqui

vivos ainda

 (torreira)

o voo da cabrita


na ria a ver o joão brandão e o joão dias a cabritar
tudo é muito célere
o fugaz instante em que
por aqui passo
já foi quando por ele

agarrar tudo
porque tudo é súbito
nada
entender é viver dentro
estar lá
ali onde

sei cada vez menos
o cansaço chega à raiz de mim

voo por sobre a ria
para morrer ao sol

(na ria com o joão brandão e o joão dias)

chama-se rosinha


a rosinha, bateira labrega murtoseira
conheci-a um dia na ria
é a última das primeiras
das labregas murtoseiras
das que foram mar abaixo
desaguar no tejo subindo-o

é a última na ria
na bestida
é a última do saltadoiro
pesca antiga
mais que ela
à tainha

fui nela um mais
com o mais velho
o ti manel
um dia na ria
fui história
fui

em casa miniatura
das mãos do ti henrique afonso
saída outra rosinha
a minha

a do cravo
                  (murtosa; bestida; bateira labrega murtoseira)

nota:

era certamente numa destas que o meu bisavô se estabelecia num esteiro da azambuja – o esteiro do gorim – durante a época do sável. nela fazia pão e vendia mercearias. do esteiro não consta a localização. desse tempo, recordava a minha avó: “com quatro anos corria pelos campos, com o pão para os pescadores, a fugir dos toiros”.

continuo eu


 

como escreveu o poeta "ei-los que partem"

como escreveu o poeta “ei-los que partem”

que mais me resta senão
inventar
dia a dia o dia em que
pinto tudo de novo
como se casa minha
habitada por

e vou por aí
com os sonhos no peito
emprestando a ilusão
de que tudo é belo
e a serenidade algo tão natural
como o seu inventar

aquietadas as angústias
abro os braços
e abraço o vazio

continuo eu

 

(ria de aveiro; torreira)