fé


 

a senhora

a senhora

 

os saberes são os de sempre

como os barcos e os aparelhos

receberam e dão

pais de filhos

memória são

 

homens e mulheres

jovens e menos jovens

todos

procuram no debaixo das águas

o pão que noutro sítio não sabem

 

porquê agora?

porquê aqui?

porquê?

 

chamam-lhe fé

 

(torreira; porto de abrigo)

porque ficaste na margem


joão manuel dias

joão manuel dias

o esgar vincado

na beleza deste rosto

fala de uma outra ria

da do sangue

que corre sobre as águas

e mergulha fundo

em busca do pão

 

o pão enterrado na lama

o pão que poucos amassam

que é dura

muita dura a faina

 

sempre que vires o nascer do sol

uma névoa a cobrir tudo

e tudo te surja carregado de beleza

postálica vendável em quiosques

popularizada em páginas de fotografia

lembra-te

 

lembra-te deste rosto

que não viste

porque ficaste na margem

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)

corrida de bateiras a remos


máquinas de músculos

máquinas de músculos

 

os registos mais difíceis de conseguir na ria de aveiro: corrida de bateiras de bicas, a remos, s.paio da torreira

as bateiras partem em paralelo do lado de nascente/serra/murtosa, para poente/mar/torreira. a duração da travessia não excede os 5 minutos, não é permitido ficar à frente, nem entre as bateiras. só há duas soluções: ficar em terra e fotografar o momento da chegada; acompanhar a corrida ao lado da última bateira ( mais ao norte, ou aos sul) e tentar a sorte.

a minha opção é sempre estar na ria, fazer parte da corrida mesmo se ao lado. o barco onde vou, balança, imagine-se a dificuldade de conseguir qq registo…. de muitos disparos poucos se aproveitam. fica a acção e a sensação.

o espectáculo não é só a fotografia é o vivê-la

(ria de aveiro; torreira; s. paio; 2012)