crónicas da xávega (72)


o meu amigo alfredo amaral

o meu amigo alfredo

o meu amigo alfredo

o tempo vai-se escrevendo
o nome dos amigos
os que partiram
os que ainda resistem
os que já não podem

escrevi o teu nome
alfredo quando menino ainda
vinhas para o mar
com a tua mãe e foi na areia
onde brincavas
que aprendeste a conhecer a arte

durante anos
mestre do reçoeiro
camarada de muitos
amigo de todos
mais um na companha
indo sempre para além
do que pensávamos
poderes dar
o ti américo que o diga
o marco que o negue

companheiro
ficas agora em terra
a olhar o mar

sei como te deve doer
mas doía-te mais o fazer

espero-te sempre a sorrir
a inventar um homem dentro
da criança grande

o mar ao pé de ti alfredo
é tão pequenino

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(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (119)


retrato de quem nele se revir

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serem os altares poucos
pequenos os palcos
para tantos artistas
com asas no peito
sem rosto visível
acrobatas do vazio

como pode ser grande um país
com tanta gente piquena
sabedora de tanto
conhecedora de muito mais
habitantes de janela

estrelas decadentes
em busca de um céu
quem sabe se debaixo
da terra que pisam

vou pela sombra
que estes sóis não são
de confiar

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

cada cavadela, cada minhoca


sérgio e ricardo silva

sérgio e ricardo silva

depois de ter feito, com grande prazer e alegria, este registo dos filhos do arrais marco silva a ajudarem o pai, pasmo perante as declarações do presidente da câmara da murtosa, à sic:

– …. este é um acto emocional, não é um acto racional, a um jovem tudo recomendaria que ele não gastasse provavelmente quase 15.000 euros na construção desta embarcação …..

querem mensagem mais encorajadora para o futuro do moliceiro? que o pensasse, estava no seu direito, mas que o viesse dizer para a televisão num momento de festa ……  eis o que pensa o presidente da pátria do moliceiro.

por favor, digam que ouvi mal, ou que quem está errado sou eu

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torreira, 20 de junho de 2015

o moliceiro “Marco Silva”


para o arrais marco silva

e partiu de vela erguida

e partiu de vela erguida

haver no homem o sonho
a força o querer o fazer

o sentir da casa cheia
os amigos os filhos

um barco onde todos
se abraçam se sabem são
voa na ria um barco novo
ao leme um homem que sonhou
soube dar ao sonho a forma de barco
um moliceiro a que emprestou o nome

vogam os dois na ria
e o presente sorri de ainda
haver homens assim por aqui

é possível construir o futuro

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ria de aveiro; torreira; 20 de junho de 2015

o vento era pouco onde a vontade foi muita, mas o “Marco Silva” velejou pela primeira vez

os moliceiros têm vela (118)


eu e o outro somos um

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cada vez sei menos
e o que sabia esqueci

sou a memória ao contrário
cheio de tudo vestido de nada
desaprendi de sorrir ao vento
de tanto o vento me cortar o sorriso

restam-me as mãos e os olhos
este bicho inquieto que sou
rasgar silêncios procurar ser voz
teimoso e incredulamente crédulo
fora do baralho e o jogo corria bem

cada vez sei menos
e o que sabia esqueci

não estranho por isso
que não me entendam
não me oiçam nem me falem
sou de menos para mim
e de mais para muitos
sou o que incomoda por ser

eu e o outro somos um

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(torreira; regata da ria; 2011)

palavras para uma foto de jorge bacelar


talvez uma lágrima, um cisco no sentir por dentro, um cansaço por tanto e depois … nada. talvez uma vida que só é bela na fotografia e, por isso, tão triste o saber da beleza que aos olhos dos outros é este ser aqui, assim. talvez os teus olhos nos meus me mostrem e me façam sentir mais do que o costume. talvez a dor, não sei, talvez o ainda estar por aqui. uma lágrima no canto do olho, a mão que a recolhe e tu….. tu levas contigo o meu olhar, e vão dizer-te: que bela fotografia…. interessante não é?