ruínas nunca
venho de onde
o vento vem
não fico
ruína entre ruínas
enquanto o dia cai
vou para onde
o vento vai
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
o meu amigo alfredo amaral
o tempo vai-se escrevendo
o nome dos amigos
os que partiram
os que ainda resistem
os que já não podem
escrevi o teu nome
alfredo quando menino ainda
vinhas para o mar
com a tua mãe e foi na areia
onde brincavas
que aprendeste a conhecer a arte
durante anos
mestre do reçoeiro
camarada de muitos
amigo de todos
mais um na companha
indo sempre para além
do que pensávamos
poderes dar
o ti américo que o diga
o marco que o negue
companheiro
ficas agora em terra
a olhar o mar
sei como te deve doer
mas doía-te mais o fazer
espero-te sempre a sorrir
a inventar um homem dentro
da criança grande
o mar ao pé de ti alfredo
é tão pequenino
(torreira; companha do marco; 2013)
retrato de quem nele se revir
serem os altares poucos
pequenos os palcos
para tantos artistas
com asas no peito
sem rosto visível
acrobatas do vazio
como pode ser grande um país
com tanta gente piquena
sabedora de tanto
conhecedora de muito mais
habitantes de janela
estrelas decadentes
em busca de um céu
quem sabe se debaixo
da terra que pisam
vou pela sombra
que estes sóis não são
de confiar
(torreira; regata do s. paio; 2012)
depois de ter feito, com grande prazer e alegria, este registo dos filhos do arrais marco silva a ajudarem o pai, pasmo perante as declarações do presidente da câmara da murtosa, à sic:
– …. este é um acto emocional, não é um acto racional, a um jovem tudo recomendaria que ele não gastasse provavelmente quase 15.000 euros na construção desta embarcação …..
querem mensagem mais encorajadora para o futuro do moliceiro? que o pensasse, estava no seu direito, mas que o viesse dizer para a televisão num momento de festa …… eis o que pensa o presidente da pátria do moliceiro.
por favor, digam que ouvi mal, ou que quem está errado sou eu
torreira, 20 de junho de 2015
para o arrais marco silva
haver no homem o sonho
a força o querer o fazer
o sentir da casa cheia
os amigos os filhos
um barco onde todos
se abraçam se sabem são
voa na ria um barco novo
ao leme um homem que sonhou
soube dar ao sonho a forma de barco
um moliceiro a que emprestou o nome
vogam os dois na ria
e o presente sorri de ainda
haver homens assim por aqui
é possível construir o futuro
ria de aveiro; torreira; 20 de junho de 2015
o vento era pouco onde a vontade foi muita, mas o “Marco Silva” velejou pela primeira vez
eu e o outro somos um
cada vez sei menos
e o que sabia esqueci
sou a memória ao contrário
cheio de tudo vestido de nada
desaprendi de sorrir ao vento
de tanto o vento me cortar o sorriso
restam-me as mãos e os olhos
este bicho inquieto que sou
rasgar silêncios procurar ser voz
teimoso e incredulamente crédulo
fora do baralho e o jogo corria bem
cada vez sei menos
e o que sabia esqueci
não estranho por isso
que não me entendam
não me oiçam nem me falem
sou de menos para mim
e de mais para muitos
sou o que incomoda por ser
eu e o outro somos um
(torreira; regata da ria; 2011)

foto de jorge bacelar
https://www.facebook.com/murtosatube/photos/a.273613466010583.64707.271757059529557/946625618709361/?type=1&theater
talvez uma lágrima, um cisco no sentir por dentro, um cansaço por tanto e depois … nada. talvez uma vida que só é bela na fotografia e, por isso, tão triste o saber da beleza que aos olhos dos outros é este ser aqui, assim. talvez os teus olhos nos meus me mostrem e me façam sentir mais do que o costume. talvez a dor, não sei, talvez o ainda estar por aqui. uma lágrima no canto do olho, a mão que a recolhe e tu….. tu levas contigo o meu olhar, e vão dizer-te: que bela fotografia…. interessante não é?
vai haver um moliceiro novo na ria, chama-se “Marco Silva”
no próximo sábado dia 20 de junho, pelas 9h, na marina de recreio da torreira, vai decorrer o bota abaixo do mais novo moliceiro da ria.