crónicas da xávega (14)


 

o ti augusto segura o nó da corda que prende a calima ao fundo do saco

o ti augusto segura o nó da corda que prende a calima ao fundo do saco

a agulha
desfazer nós
metáforas baratas de falsos consensos
acender uma vela
por pequena que seja
ver e mostrar
saber e dizer

sem pretensões de longe
sem ilusões de muito
falar e dizer
porque calar
é consentir
sabedoria de povo
quantas vezes calado

fina e diminuta a agulha
a picadela

isso tão só

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

postais da ria (17)


 

 

o velho moliceiro e a cidade nova

o velho moliceiro e a cidade nova

fricção e realidade
realizou-se ontem, dia 28 de junho, mais uma regata da ria. quem acompanhou dia a dia o caminho percorrido até à sua realização, só pode dizer uma coisa: grandes são os homens que ainda vão tendo moliceiros, que sem eles, nada se teria realizado.

a desorganização foi total, apesar de anunciada com pompa e circunstância na página do turismo do centro, como o grande evento do “aveiro weekend 2014” e ser a murtosa considerada a “pátria dos moliceiros”, só na segunda-feira dia 23, se realizou a primeira reunião com os proprietários de barcos, e só nessa altura alguns souberam da regata. convocatória? tá na net!

entre o que consta da brochura sobre o “aveiro weekend 2014” e as actividades que envolveram a regata, qualquer semelhança para além da data, é estranha.

na reunião foi proposta, por quem “de direito”, a participação de bateiras com mais de 7 metros, à vela. proposta que já comentei a seu tempo.

na torreira, de onde parte sempre a regata, só um cartaz anuncia há tempos a semana europeia do cicloturismo. sobre a regata, nada!

ao chegarem a aveiro, não havia qualquer representação das entidades oficiais a saudar os participantes.  depois de chegarem ao parque da fonte nova, ao lago em frente à antiga cerâmica campos – actual centro de emprego de aveiro – houve que esperar que o presidente da câmara de aveiro, chegasse para que se ouvisse o discurso da praxe e tivesse lugar a entrega de prémios.

um discurso com alma, como é de bom tom, afirmando a disposição de apoiar os moliceiros, como os italianos as gôndolas de veneza, tarefa para “os europeus de aveiro” – cito. elogio ao presidente da câmara da murtosa – onde estava? -, à associação náutica da torreira e a todos os moliceiros.

enquanto proferia o seu discurso, mesmo atrás do palco montado para o efeito, jazia, no lago artificial, um moliceiro em estado lastimável, a apodrecer, na tal praça mais nobre de nobre de aveiro, com um hotel de luxo numa das margens.

volto a citar almada negreiros: “  a pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões”. troque-se pátria por aveiro e camões por moliceiros, e temos um retrato actual do que se passa na ria de aveiro.

a fricção da realidade, é gritante para quem não se  limita a fazer “bonitos”, seja em fotografia, seja no que for, mas que queira saber onde vive e esteja atento.

apetece convidar o sr. presidente a participar na próxima regata, no moliceiro que está no largo da fonte nova, jazendo num lago artificial.

 

(aveiro; regata da ria 2014)

regata da ria de aveiro 2014


 

o "a. rendeiro", vencedor da regata a chegar ao destino

o “a. rendeiro”, vencedor da regata, a chegar ao destino

 

depois de muitas e variadas peripécias: quem vai, quem não vai, as bateiras vão ou não vão, chove ou não chove … que foram tantas e tão conformes à desorganização total do evento, só mesmo na hora da partida se soube tudo.

barcos moliceiros que participaram:

 

classe A (barcos com mais de 13 metros)

– murtosa : “a. rendeiro”, “dos netos” e o “moliceiro da câmara”

– torreira: “zé rito”, “manuel vieira” e “manuel silva”

– pardilhó: “o amador”

– gafanha: ” o marnoto”

 

classe B (barcos com menos de 13 metros)

– ovar: “pequenito”

– torreira: “cristina e sara”

em resumo: participaram 8 moliceiros grandes, 2 pequenos e nenhuma bateira, com mais de 7 metros, à vela.

foi uma regata de luxo, com bom vento, bom tempo, boas nuvens e muita competição.

 

a tripulação vencedora:

 

marco silva. zé rebeço e manuel antão

marco silva. zé rebeço e manuel antão

 

todos de parabéns por terem ganho uma regata para a qual arrancaram em último lugar.

 

(ria de aveiro; 28, jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (13)


 

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

 

queria pensar menos
o tempo das máquinas
não é fim do tempo dos homens
é um outro tempo
onde o mesmo homem é outro

queria pensar menos
viver mais à tona dos dias
boiar por aí
sem âncora
nem raízes

que tempo é este
onde o pão para uns
é uma mesa onde milhões se perdem
em condicional
ou domiciliariamente acomodados
enquanto para outros
é arrancado com raiva aos dias
que começam com o sol?

queria pensar menos
– o ti américo, acelera no alar da manga do reçoeiro e todo ele é o instante –

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

postais da ria (16)


 

josé miguel e doroteia verónica

josé miguel e doroteia verónica

 

 

em 2012 a regata da ria foi cancelada por “alegada” falta de verbas. a organização era de uma associação sediada na ribeira de pardelhas e que dá pelo nome de “amiria” – associação dos amigos da ria.

nesse ano alguns moliceiros organizaram uma simbólica regata de protesto, com bandeira negra e uma tarja onde se podia ler “NÃO MATEM OS MOLICEIROS”.

em 2013, a organização da regata mudou de mãos e …. realizou-se. os pagamentos dos prémios devidos pela regata efectuada em junho de 2012, prolongaram-se até março de 2013, isto para não falar nas peripécias já contadas em tempo.

o facto é que houve regata e este ano ainda volta a a haver.

no registo de hoje vêem-se os moliceiros ” josé miguel” e “doroteia verónica”, num momento de competição renhida, na regata de 2009.

cinco anos passados e nenhum deles estará na regata de amanhã, já que ambos foram vendidos, por os seus proprietários não terem condições, nem apoios, para os manter.

assim se vai escrevendo a história da ria, a de uma morte lenta a que ano, após ano, alguns vão resistindo e outros sorrindo.

amanhã é mais um dia
(ria de aveiro)

crónicas da xávega, torreira (12)


 

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

dos homens

 

não basta crescer no tempo

ser maior no tamanho

contar mais dias

 

o homem

ou cresce por dentro

ou é a desilusão de o não ser

 

“que coisa é o homem?”

perguntava drummond

apetece dizer de alguns

nada mais que coisa

nada mais e muito já é

 

estendo os olhos pela areia

sigo rastos efémeros

e pergunto

 

porquê?

 

(deitado na areia, o maria de fátima ouve-me cúmplice e leva-me para longe de tudo isto. estou no meio de um mar, onde só ele sabe levar-me. sonho sem vontade de acordar)

postais da ria (15)


 

a invenção da memória no cais do bico

a invenção da memória no cais do bico

 

ti zé rebeço

 

chama-se josé rendeiro, mas todos o conhecem por “zé rebeço”. nunca anda descalço, mas com os sapatos que a mãe lhe deu quando nasceu.

ontem, enchi-me de coragem e perguntei-lhe:

-ti zé, quantos anos tem?
-oh cravo, quase três quarteirões

filho de moliceiro e pequenos agricultures, foi criado no meio do moliço e nos moliceiros.

dunate 20 anos ganhou a vida no canadá, onde regressa todos os anos para consoar com filhos e netos.

mais que homem da ria, é um homem com uma dimensão humana rara de encontrar: um homem bom.

decano dos moliceiros da ria de aveiro, não perde uma única oportunidade para viver a ria; em 2009 encontrei-o no cais do bico a fazer uma descarga à moda antiga, de uma barcada de “cabelo de cão” – alga que tinha então aparecido na ria. quis reviver o tempo do moliço como adubo natural e fê-lo com o que a ria dava.

não falta a uma regata de moliceiros e de bateiras à vela.

– três quarteirões se chegar ao fim do ano, cravo!

o ti zé rebeço é um tesouro da ria, nasceu rente a tudo, cresceu à custa de muito trabalho e sacrifício, é um dos homens, poucos, com quem merece a pena usar um dia.

 

(ria de aveiro; murtosa; cais do bico)

 

crónicas da xávega, torreira (11)


 

 

a escolha e eu ... ando por aí

a escolha e eu … ando por aí

 

meditação à beira mar

 

olho agora tudo com o desprendimento
de quem nada mais tem a perder
que a si mesmo
e é tão pouco

se da vida esperei muito
dos homens nunca esperei tanto
mas é tão pouco o que deles vejo hoje
que ser mais um
é pedir de menos a mim próprio

não trago a verdade no bolso
nem a história é coisa que dono tenha
olho sinto e não entendo

continuo a gritar
dentro de um pesadelo

quem me roubou o sonho?
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

postais da ria (14)


 

na regata de 2010, o "Ricardo e Sérgio" ainda vogava de velas panadas na ria

na regata de 2010, o “Ricardo e Sérgio” ainda vogava de velas panadas na ria

 

segundo as estimativas dos moliceiros com quem falei hoje, não participarão mais de 7 barcos grandes na regata de sábado e 4 pequenos.

se considerarmos a forma desorganizada como a regata foi tratada, até que nem é mau de todo.

fica uma nota: apenas 2 moliceiros têm os painéis pintados de novo, isto quando a intenção da criação das regatas era precisamente a renovação anual das pinturas.

no que diz respeito às bateiras, ninguém sabe quantas são, mas parece que não há muitas inscritas. de qualquer modo, quem teve a “brilhante” ideia da sua inclusão na regata não pensou que elas são incapazes de acompanhar os moliceiros e que, se as houver, irão estar num pelotão atrás….

ou seja. é como se houvesse duas regatas…… mas, quem pode manda.

de qualquer modo, se me é permitido dizer algo sobre o interesse fotográfico da regata, a resposta é:

ESTEJAM PRESENTES, VALE SEMPRE A PENA

mas, não se esqueçam, também, de que se a regata acontece é porque ainda há homens que suportam os custos das festas dos outros: os donos dos moliceiros

 

(o registo é da regata de 2010, e o moliceiro que vai na frente, o “Ricardo e Sérgio”, do arrais marco silva, faz parte daqueles que tiveram de ser vendidos por falta de apoios à sua manutenção.

esta é um pouco a história da ria: cuidar dos mortos e enterrar os vivos)

postais da ria (13)


 

os cisnes ainda vogavam em bando

os cisnes ainda vogavam em bando

 

da beleza

 

pesquisar qual a utilidade da beleza
é procura inútil

a beleza acontece
sem motivo outro
que beleza ser

a bica da proa e a decoração
dos moliceiros
são disso evidência
aconteceram para serem

aconteceram
cada vez mais
para terem sido

sento-me à mesa da ria
cravo nela os cotovelos
à sua roda os meus e todos
os que nela foram um dia

todos
estão aqui agora
mais que nunca

vogando dentro
do mais belo
barco do mundo

 
(ria de aveiro; canal de ovar; 2010)