um país faremos


ser e expandir-se

é possível
sonhar
outro país

um país de gestos limpos
e olhos claros
o país de sophia

ombro a ombro
solidário
um país
sem fome de justiça
nem janelas com grades
nas bocas famintas

um país
onde amanhã apeteça
onde ser
não seja a dolorosa caminhada
dos dias
mas o prazer renovado de dizer:
aqui sou

um país
aberto ao mar do sonho
seja o país de todos
e não apenas de alguns

é necessário
querer esse país
a partir de hoje
a partir de ti
a partir de nós

o país que queremos
é o país que faremos

sou


mais que uma flor, uma rosa

 

sou

tudo o que fui

 

sou

todos os que antes de mim

fizeram com que fosse

 

sou

a continuação, nada mais

da memória dos meus

ainda aqui, porque eu também

 

serei

quando deixar de ter sido

nos que em mim encontraram

raízes para o serem

e me amarem

 

somos

todos os que antes de nós

cansados de existir

subiram à terra

descansam no mar

ou simplesmente são

esta necessidade permanente

de os continuar a amar

 

todos os dias

sou

todos

agora josé? lê drummond


tinha uma pedra

tinha uma pedra
no meio do caminho
o tempo passou
a chuva caiu
a ribeira encheu
o caminho
onde tinha uma pedra

o tempo não passou
o carlos também não
só passa com o tempo
quem não foi no seu tempo
drummond foi imenso
mais que uma pedra
drummond foi um rochedo
uma selva, um mar

drummond deixou-nos
mas nós não deixamos drummond
até nos deixarmos também

salvé drummond
que me deixas interrogando-me:
e agora josé?
que me deixas por te ter lido
vivido, sentido

agora josé?
continua a ler drummond

os pescadores e o vinho


pedro

um dos principais flagelos e causa de morte entre os pescadores artesanais é o consumo de vinho. alguns vão-se libertando das suas garras, pelos sustos que apanham ou pura e simplesmente porque decidem.

o pedro está limpo de vinho e é, ele também, um homem novo.

parabéns pedro.

é neste contexto de luta contra o consumo abusivo de vinho, o alcoolismo, que se insere a política do actual governo, quando aplica a taxa de iva de 23% à água e mantém os 6% para o vinho.

se não fosse grave até seria para rir, o vinho é bem essencial e a água um bem de luxo…

recordo, a contragosto, a célebre frase de salazar: “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, certamente é esta a bíblia segundo s. gaspar.

(companha do murta, torreira, 2006)

apenas rosas


o fim e o início

ofereço-te

o pouco que tenho

palavras limpas

sonhos claros

amor muito

 

nada mais tenho

que nada  mais sou

um seixo rolado

um quase não tempo

um livro por abrir

e tão gasto de ser lido

 

ofereço-te

o pouco tenho

antes que

já nada

 

sei do fim

não sei do início

nem creio que volte

 

estas dúvidas

estas inquietudes

estas angústias

guardo-as para mim

 

a ti

ofereço-te apenas rosas

tempo de ser pescador


barca s. josé_praia de mira_2009

é tempo de mar
será tempo de peixe
se peixe houver

é tempo de homens
tempo de ser
mesmo que peixe
não venha
mesmo que o saco
nada tenha

têm os homens
o saber que vão
sem saberem o quanto são
pois é deles natural
serem-no assim

é tempo de mar
é tempo de ser
pescador

(praia de mira; companha do zé monteiro)

ti antónio


ti antónio acabou

se tivesse que dizer dele

diria: o silêncio

 

parco de palavras

silencioso e metódico no gesto

homem de terra que de mar

já foi

 

o ti antónio

sempre me olhou assim

desconfiado

perguntando-se

(penso eu)

que fará este homem

com máquina fotográfica

aqui onde o que é preciso

são braços de trabalho?

 

tenho-o visto ultimamente

já um pouco acabado

não vai trabalhar na companha

mas não resiste ao “chamado do mar”

todos os dias caminha até ele

até onde as forças o deixam

para saber dos lanços

da faina

 

o ti antónio será acabou

de apelido

mas continua

pescador da torreira

no silêncio que sempre foi o seu

(torreira; 2006)