com o sol nas mãos
vou
desvairado
em busca do amanhecer
acordo as noites
as mãos
poisadas no corpo
fremente
atordoam-no
acordo as noites
sonho muito
sonho tudo
e não sou
nada
com o sol nas mãos
vou
só
a ternura
o abraço
a dádiva
uma gota de água
desliza no vidro
da janela
a ternura
é um substantivo
comum a dois
uma gota de água
suspensa
treme
o abraço
é um substantivo
incomensurável
uma gota de água
teimosa
cresce
a dádiva
é um substantivo
incomum a muitos
numa gota de água
quantos somos?
à espera do “liso” o arrais zé murta, segura o reçoeiro, enquanto a muleta “ampara” a bica da ré.
quando estiver de feição a largar, o arrais dará ordem ao tractor para empurrar a muleta e irá deixando correr o reçoeiro, que faz também fixe em terra.
chama-se “liso” ao intervalo entre sequências de ondas, estas sucedem-se com frequências que são lidas pelo arrais ( 3, 5, 7….).
ler o mar é arte de arrais
(torreira; companha do murta; 2006)
vai pela beira da ria
caminha sem pressas de cidade
o tempo parou por momentos
para seres e estares
escuta as cores
sente como a música se desprende delas
e se faz em ti
a sinfonia que nunca sonhaste poder ser
não interrogues a ria
deixa que ela te fale e te encontre
ali onde os olhos mergulham
na superfície das coisas
para lhes encontrar a raiz
és
o encontro de ti
contigo
aqui onde as cores
são música
e a água é luz
(marina dos pescadores; torreira)
a fé dos pescadores revela-se nos mais pequenos detalhes, mas há um, nas companhas de xávega, que é emblemático: a imagem do santo padroeiro (mais vulgar a nossa senhora de fátima) na bica da proa rodeado por um ramo de flores.
serão de plástico as flores, que impensável seria naturais, mas mesmo assim vão-se degradando com a fúria dos elementos, por isso, de tempos a tempos, é preciso renovar o ramo e, quiçá a imagem – embora isto seja muito raro, só em caso de acidente e destruição da imagem.
é o momento em que os homens do mar acarinham a sua protecção como se de uma mãe.
(torreira; companha do murta 2006)
como eu vos amo
homem da rua
mulher sem leite
criança sem pão
como eu vos amo
velhos sem casa
doentes, sós
sem remédios
porque sem nada
como eu vos amo
vós que só jantais
uma malga se sopa
água onde não sei
o quê ferveu
como eu vos amo
espoliados de tudo
escravos do mísero
ordenado,
quase mendigado
mas
como eu gostava
de não ser preciso
este amor
como eu gostava