só


o sol nas mãos

 

com o sol nas mãos
vou
desvairado
em busca do amanhecer

acordo as noites

as mãos
poisadas no corpo
fremente
atordoam-no

acordo as noites

sonho muito
sonho tudo
e não sou
nada

com o sol nas mãos
vou
só

o caminho das ondas


maria de fátima
 
curva-se o mar
à bravura dos homens
quebram-se sobre
o barco as ondas
e passam
 
seguem os homens
o seu destino
indiferentes
sabem que ainda não
 
um dia
cheios de tanto terem sido
será o último
ficará o vazio de não ser
alojado no não ir
 
o homem é
onde o mar também
 
(torreira; companha do marco; 2010)

xávega_do largar (I)


olá sampaio com o arrais zé murta na ré
 
neste registo estão perfeitamente visíveis os três “fixes” que seguram o barco de mar na preparação para o largar:
 
– a regeira: amarrada ao golfião de estibordo da bica da proa
– a muleta apoiada na peça metálica fixa no exterior da bica da ré
– o reçoeiro, enrolado na bica da ré e que o arrais vai soltando ou apertando consoante a intenção.
 
note-se que ambas as cordas estão direccionadas para norte, de onde vêm as correntes dominantes, por forma a manter o barco perpendicular à costa e às vagas. caso o barco se atravessasse poderia virar de bordo, o que é um dos acidentes mais frequentes.
 
(torreira; companha do murta; 2006)
 
 

uma gota de água


tantas gotas de água

 

a ternura
o abraço
a dádiva

uma gota de água
desliza no vidro
da janela

a ternura
é um substantivo
comum a dois

uma gota de água
suspensa
treme

o abraço
é um substantivo
incomensurável

uma gota de água
teimosa
cresce

a dádiva
é um substantivo
incomum a muitos

numa gota de água

quantos somos?


			

xávega_do largar


arrais zé murta (falecido)

à espera do “liso” o arrais zé murta, segura o reçoeiro, enquanto a muleta “ampara” a bica da ré.

quando estiver de feição a largar, o arrais dará ordem ao tractor para empurrar a muleta e irá deixando correr o reçoeiro, que faz também fixe em terra.

chama-se “liso” ao intervalo entre sequências de ondas, estas sucedem-se com frequências que são lidas pelo arrais ( 3, 5, 7….).

ler o mar é arte de arrais

(torreira; companha do murta; 2006)

onde a água é luz


água luminosa esta

vai pela beira da ria
caminha sem pressas de cidade
o tempo parou por momentos
para seres e estares

escuta as cores
sente como a música se desprende delas
e se faz em ti
a sinfonia que nunca sonhaste poder ser

não interrogues a ria
deixa que ela te fale e te encontre
ali onde os olhos mergulham
na superfície das coisas
para lhes encontrar a raiz

és
o encontro de ti
contigo
aqui onde as cores
são música
e a água é luz

(marina dos pescadores; torreira)

as flores da virgem


a virgem na bica da proa_renovação do ramo

a fé dos pescadores revela-se nos mais pequenos detalhes, mas há um, nas companhas de xávega, que é emblemático: a imagem do santo padroeiro (mais vulgar a nossa senhora de fátima) na bica da proa rodeado por um ramo de flores.

serão de plástico as flores, que impensável seria naturais, mas mesmo assim vão-se degradando com a fúria dos elementos, por isso, de tempos a tempos, é preciso renovar o ramo e, quiçá a imagem – embora isto seja muito raro, só em caso de acidente e destruição da imagem.

é  o momento em que os homens do mar acarinham a sua protecção como se de uma mãe.

(torreira; companha do murta 2006)

o sabor do amor


ruínas

 

como eu vos amo

homem da rua
mulher sem leite
criança sem pão

como eu vos amo

velhos sem casa
doentes, sós
sem remédios
porque sem nada

como eu vos amo

vós que só jantais
uma malga se sopa
água onde não sei
o quê ferveu

como eu vos amo

espoliados de tudo
escravos do mísero
ordenado,
quase mendigado

mas
como eu gostava
de não ser preciso
este amor
como eu gostava