os moliceiros têm vela (44)


renasço quando sonho

navegam ainda em mim

navegam ainda em mim

vieram por todos os caminhos
líquidos da memória
voavam no amanhecer do tempo
no mais fundo da memória

abracei-os como se irmãos
perdidos há muito
em terra minha deixada

renasço quando os sonho

o sonho não morreu

o sonho não morreu

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (43)


traquinas

um sorriso de criança

um sorriso de criança

trago nos olhos
um sorriso de criança

uma fisga na mão
um papagaio de papel

uma bola de sabão
um carrinho de madeira

umas caricas oferecidas
um jogo por acabar

dentro de mim
nasce uma pergunta
traquina

nunca mais cresces?

um jogo por acabar

um jogo por acabar

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (41)


fruto e semente

o tempo

o tempo

como tudo é frágil
e se quebra
por entre o fragor
dos dias

de água a memória
escorre
de pedra fora e não

dou-vos palavras
palavras palavras
e não digo nada
sinto tudo como se

somos
fruto e semente

toda a beleza é o instante em que

toda a beleza é o instante em que

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (40)


de bico amarelo

cá te espero

cá te espero

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

o silêncio
quando necessários
os braços

ai senhores que tanto
prometeis
para nos enganardes

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

de bico amarelo
na armadilha
os embaraços

pássaros muitos

que ria sem eles?

que ria sem eles?

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (39)


dos mandantes

do mesmo tamanho, só a distância ilude

do mesmo tamanho, só a distância ilude

terão no cemitério da terra
uma lápide diferente
porque não as há iguais
se diversos os nomes

são enormes se vivos
tão grandes que não os agouchamos
usando verbo da terra
iludem-se no serem hoje
heróis de um amanhã
que não verão

são apenas
mandantes por mandato
mandatados

velas ao vento e todos pelo mesmo

velas ao vento e todos pelo mesmo

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (38)


da arte de navegar

não é para todos, o norte

não é para todos, o norte

escolher o vento
traçar a rota

persigo os dias
rasgo as noites
descubro
o nada que sou
o tão pouco

escolher o vento
é segredo
de marinharia
arte secreta

do navegar

é de norte e é forte

é de norte e é forte

(torreira; regata do s. paio; 2013)

os moliceiros têm vela (37)


coisas da terra

há-de ser .... há-de ser

era bom que fosse …..  virá o vento e ….

sou da terra
logo posso

(e não há regras
princípios termos)

sou da terra
logo dono
senhor de tudo
tudo me deve
ser permitido

(e não há regras
princípios termos)

vinde vós
que tiráveis o chapéu
e saudáveis todos
com a palavra certa
o coração aberto
chamo-vos porque
sois a memória
os valores sobre que
tudo se ergueu

estranharíeis esta gente
estranharíeis este povo

por isso
ser daqui é por vezes
ser do contra

por ser da terra
e nela ter aprendido
a sê-lo de facto

fico como vou

mesmo assim, sempre belo

mesmo assim, sempre belo

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (35)


abraço, ti zé rebeço

e à vara o moliceiro vai varar na praia

e à vara que o vento ……

conversa a dois

– tá descalço, ti zé?

– não, cravo, trago os sapatos que a minha mãe me deu quando nasci

um homem grande, um homem bom, um homem com coração de oiro, um amigo

filho da terra, irmão da ria, puro e simples como poucos

abraço, ti zé

parados num tempo sem vento

parados num tempo sem vento

(murtosa; regata do bico; 2010)