os moliceiros têm vela (51)


do ouvir

como se planassem

é esta a luz, é este o cantar

uma voz antiga
debruçada na janela
dos meus olhos
canta

canta como se
ouvisse outras vozes
mais antigas
cantar

cantar palavras de luz
é destino
de quem nasceu para
ouvir

ouve-as comigo

foi para ti que cantei esta canção

foi para ti que cantei esta canção

(torreira; regata do s.paio; 2010)

o ciclomoliceiro


o cartaz do encontro

o cartaz do encontro

de 6 a 12 de julho, de 2014, decorreu, na murtosa a “X Semana  Europeia do Cicloturismo”.

segundo os dados fornecidos pelo município estiveram presentes 1300 cicloturistas de 12 países, instalados em tendas e roulotes num “mega centro logístico, na Torreira, com mais de 65.000 metros quadrados, que englobou o parque de campismo da Torreira e a área localizada a poente deste.“

todos os dias os cicloturistas saíam da torreira, pela rotunda norte, quem vem do mar, para efectuarem o programado para esse dia. houve somente um dia livre.

como se pode ver no cartaz do evento, mesmo ao cimo, um moliceiro. Importante notar que foi o único que os cicloturistas viram durante a sua estadia.

todas as manhãs passei na rotunda, olhei para a ria e …. não havia um moliceiro sequer, varado ou a navegar, para “cicloturista ver”.  nem no dia livre, em que muitos vi a passearem de bicicleta na torreira e em torno da ria, houve qualquer evento com moliceiros.

penso que não foi por não ter havido intenção, mas sim por falta de verbas, outra justificação não encontro, mas mesmo essa difícil de compreender.

é assim na pátria do moliceiro.

ainda hei-de ver um moliceiro com duas rodas e pedais a circular no alcatrão e, então sim, veremos o ciclomoliceiro, inventado na murtosa, a espreitar para a ria com saudades do tempo em que tinha vela e navegava.

os moliceiros têm vela (49)


da praça

a luta é dura

a luta é dura

no centro da praça
não navegam barcos
correm papéis por sobre
secretárias modernas
onde escribas ocupam cadeiras
e fabricam o tempo à medida
dos senhores da terra

do centro da praça
partem emissários e ordens
encomendas e despachos
fabricam-se realidades
emitem-se pagamentos
decide-se o quê
quando como para quem

ao centro da praça
exactamente ao centro
uma coroa de flores
espera os fiéis

defuntos

mais dura é a razão

mais dura é a razão

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (46)


contigo quantos?

mais que barcos são homens e a sua história

mais que barcos são homens e a sua história

jamais negarei
o silêncio
as vozes por dentro
o clamor

não sei se algures
um homem poderá ainda
afastar as nuvens
num grito de sol ardente

as palavras que não digo
serão poucas
não procuro a perfeição
o meu tempo é hoje
o meu lugar aqui

sou mais um
mais um
um

contigo quantos?

se quisermos ser mais que silêncio e consentimento, seremos povo

se quisermos ser mais que silêncio e consentimento, seremos povo

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (45)


ora batatas

vai haver vento

vai haver vento

cultivam as palavras
como se agricultura diversa
no engano de ser verde
a esperança gerada

falam bem dizem muito
calam quase tudo
vencem pelo que não dizem
não prometem
logo não é cumprir é normal

servem-se do medo como arma
do hábito
nascem vitórias como repolhos

ora batatas para tais palavras

houvesse vento em terra ...

houvesse vento em terra …

(murtosa; regata do bico; 2010)

modernices murtoseiras e coincidências


da esq. para a direita: manue silva; manuel vieira e zé rito

da esq. para a direita: manuel silva; manuel vieira e zé rito

depois de ter escrito, ontem dia 20 de janeiro de 2015, que na murtosa se deixavam morrer moliceiros – https://ahcravo.wordpress.com/2015/01/20/modernices-murtoseiras/ – e de sobre esta afirmação ter havido, no facebook, quem ironizasse; numa conversa com o Zé Pedro, em torno de comentários a uma foto da regata da ria de 2014, o zé diz-me que os moliceiros do ti manuel vieira (manel valas) estavam vendidos para o turismo de aveiro.

os moliceiros “manuel silva” e “manuel vieira” são mais dois que deixam a vela e vão passar a amputados nos canais de aveiro.

ao longo dos últimos anos têm vindo a ser vendidos moliceiros para o turismo de aveiro, porque os donos não têm capacidade financeira para os manter, nem quem na terra na manda lhes dá qualquer apoio, para além dos prémios das regatas, que não chegam para os custos de manutenção.

já uma vez citei almada negreiros, quando escreve que esta é  “A pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões! “ . se substituirmos “Camões” por “ moliceiros”,  fica um retrato perfeito da região de aveiro “A pátria onde os moliceiros morreram de fome e onde todos enchem a barriga de moliceiros“

o tempo passa, mudam os regimes e os mandantes, mas as mentalidades e a mediocridade mantêm-se.

já vi queimar e morrer muito barco nesta terra que se publicita como sendo a “ ria de aveiro um mar experiências” . como diziam os mais antigos, com que aprendi a ser homem, “haja decência senhores, haja decência”

de cabeça e alguns apontamentos aqui ficam alguns dados sobre moliceiros, provavelmente incompletos, a aguardar mais contributos e eventuais correcções de quem tenha mais informação.

Moliceiros tradicionais existentes em 2014

Murtosa

A. Rendeiro
Dos Netos
CM Murtosa
Sermar
Eco Moliceiro

Torreira

Manuel Silva
Zé Rito
Manuel Vieira
Cristina e Sara

Pardilhó

O Amador

Ovar

Pequenito (o único que tem apoio anula da autarquia)

Costa Nova

Pardilhoense (não participa activamente nas regatas, mas acompanha-as)
Marnoto
Inobador

Ílhavo

S. Salvador (não saiu do cais por falta de verba)
Moliceiros vendidos para turismo nos últimos 5 anos

Murtosa

Doroteia Verónica
José António
José Miguel
Reinaldo Belo

Torreira

Ricardo e Sérgio

Ovar

Lameirense
a realidade é esta, o mais podem ser sorrisos irónicos, silêncios cúmplices ou lágrimas de crocodilo, mas são só isso.

para certa gente, o futuro é o esquecimento do passado, infelizes, não sabem que assim se negam a si mesmos e ao próprio futuro.

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(torreira; estaleiro do mestre zé rito)