os moliceiros têm vela (8)


a mensagem de protesto de 2012, ainda perdurava na regata de 2013

a mensagem de protesto de 2012, ainda perdurava na regata de 2013

pior que não se lembrar do passado

é não ter passado para lembrar

não matem os moliceiros

o  moliceiro "dos netos", do ti abílio carteirista, ainda com a faixa do protesto de 2012

o moliceiro “dos netos”, do ti abílio carteirista, ainda com a faixa do protesto de 2012

(ria de aveiro; regata 2013)

murtoseiros


o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada

filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar

foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos

regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida

são murtoseiros

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(torreira; regata da ria, junho, 2014)

os moliceiros têm vela (7) – mudam-se os tempos ……


moliceiros no s. paio, anos 90

moliceiros no s. paio, anos 90

farão para aí uns dois anos, pelo verão, fazia eu o meu passeio pela beira ria quando, no areal em frente ao estaleiro do mestre zé rito, dou pelo domingos da grila a fazer uma caldeirada de enguias.

ele e um grupo de amigos tinham ido fazer uns lanços de chincha, para fazer uma caldeirada que, agora ao lume, perfumava aquele pedaço de praia remoçada.

de repente vieram-me à memória os tempos em que ia com a família, para a ilha do amoroso, fazíamos uns lanços de chincha e havia sempre enguias para saborear numa caldeirada à maneira.

levávamos as batatas, os temperos, talheres, toalhas, bebidas e pão. as enguias eram apanhadas na hora, lavadas e amanhadas à beira ria. havia areia na ilha e era com ela que se agarravam as enguias para serem amanhadas.

um brasido, uma panela, os saberes culinários dos meus tios césar e arcênsio, e a caldeirada era saboreada por uma família que a ria juntava.

foi essa memória que o domingos reavivou com a sua caldeirada. perguntou-me se queria almoçar com eles, mas eu já tinha almoçado, não recusei foi a prova do molho: estava boa. claro que a receita do domingos, era a receita do domingos, tinha-lhe até permitido ganhar um primeiro prémio num concurso de caldeiradas de enguias – palavras dele.

ora bem, eu tinha na minha posse a receita da caldeirada de enguias à murtoseira, deixada pelos meus tios avós e que o meu pai passou a escrito e eu guardei. para a publicar faltava-me apenas uma foto para a ilustrar. claro que aproveitei.

único problema, a receita do domingos leva pimentos e a tradicional, que eu transcrevi, não, mas a ideia estava lá. além disso os pimentos passavam meio desapercebidos na imagem.

no dia 25 de fevereiro, de 2013 publiquei no meu blog ahcravo.com um artigo intitulado “caldeirada de enguias à murtoseira”, ilustrado com a foto da caldeirada do domingos.

houve então quem pegasse no facto de a foto ter os pimentos para se indignar, porque a receita tradicional não os tinha.

interessante que os puristas, que então reclamaram pelo facto de verem, lá perdidos, uns pedaços de pimento, gostem agora da nova imagem de marca do município, tão fiel que é à traça de um moliceiro.

mudam-se os tempos …… ou será que mudou mais alguma coisa

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(torreira, s.paio)

o novo logotipo do município da murtosa: um segundo tempo


na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

na placidez da ria voga um moliceiro, enquanto uma bateira de bicas descansa

para deixar descansar os designers da murtosa, que ao longo destes dias tenho vindo a conhecer – e são muitos, e respeitam-se mutuamente, o que é bonito -, iria agora analisar o procedimento administrativo e não só, que, tudo indica, conduziu à “Criação da Marca Institucional do Concelho da Murtosa”.

1 – dia 6 de novembro, de 2014 na página do facebook da empresa Artifex:

pub artifex

2 – dias depois reparei que a página do município da murtosa no facebook já apresentava a “ nova marca”, aliás a primeira publicação, na cronologia, com essa identificação era de dia 5 de novembro, data portanto anterior à da divulgação da Artifex, o que só abonava em favor da empresa.

3 – não haverá 2 dias e a publicação (um cartaz) ainda estava na cronologia, mas dia 11 já lá não estava. acontece, as redes sociais têm falhas que não são da culpa dos utilizadores, há publicações que inexplicavelmente desaparecem. pesquisando, no entanto, no álbum de fotos verifiquei que não estava de todo errado, quando encontrei, entre outras, a seguinte publicação de dia 5 de novembro:

pub logo cmm

ou seja, efectivamente no dia 5 de novembro, a “nova marca” já era divulgada na página do município.

4) 20 de novembro – reunião do executivo em que é apresentada uma informação do “Sr. Presidente da Câmara, datada de 17 de novembro de 2014, através da qual propõe que, no cumprimento do preceituado na Lei do Orçamento de Estado para 2014 (Lei n.º 83-C/2013, de 31 de dezembro), a Câmara Municipal emita parecer prévio vinculativo favorável ao procedimento que se pretende iniciar para a Aquisição de Serviços de “Criação da Marca Institucional do Município da Murtosa”, que é aprovada com um único voto contra: o do vereador da oposição, Jorge Bacelar.

(a declaração de voto está anexa à acta nº23/2014, e é uma declaração amiga do executivo: alerta-o para uma situação de eventual “irregularidade”)

face ao exposto, ficam-me algumas dúvidas:

é impressão minha ou, legalmente, só depois de o executivo camarário ter aprovado, em 20 de novembro o parecer prévio favorável ao procedimento, é que o mesmo se podia ter iniciado?

será que não tem de haver uma aprovação da marca por parte do executivo? é que ainda não há nenhuma acta que o expresse

não será de questionar a regularidade de todo o procedimento que levou à concepção e utilização da “nova marca”?

aos atentos juristas e dirigentes políticos da terra fica a questão.

as aparências iludem

as aparências iludem

os moliceiros têm vela (6)


isto é um moliceiro a todo o vapor

isto é um moliceiro a todo o vapor

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (conclusão)

………..

A nosso pedido, os frisos marítimos e florais são dos mais singelos e tradicionais, o espaço cénico é completamente preenchido e pormenorizado, mantendo-se à proa, a BB, uma legenda identificativa do construtor, bem como a localidade, com o mestre a cavalo, lembrando a figura equestre de antanho.

«MESTRE ANTÓNIO ESTEVES – PARDILHÓ – »

Na proa de estibordo, uma legenda tipo apelativo, em que o  narrador presente exprime o desejo de que Deus ampare os nossos pescadores que saem para a pesca do bacalhau, coaduna-se com o desenho brochado.

«DEUS VOS GUIE PESCADORES»

Na ré, a BB, uma cena campestre, vulgar e antiga, serve de suporte à frase interrogativa, maliciosa e brejeira, que joga com um duplo sentido, no discurso do interlocutor masculino.

«ONDE QUERES QUE TE CARREGUE?»

Na ré, a EB, como era hábito, mais uma garotice, em que o narrador não participante joga com o duplo sentido da palavra «passarinha», numa frase exclamativa. Uma bela e rechonchuda moçoila, de mini-saia, apanha um passarinho, lá no alto de uma árvore, encarrapitada num escadote.

«QUE RICA PASSARINHA!»

As outras zonas decoradas desta embarcação enaltecem o conjunto: o barrote do castelo da proa, a antepara da proa, os dois golfiões, a base da bica, a parte fontal da tampa móvel da entremesa, as extremidades dos forcados biqueiros e a divisa do construtor que o pujante leme negro ostenta.

O pintor revela um cuidado especial com o grafismo do registo-A – 1937 – M, em que o número escolhido pelos órgãos directivos do museu pretende lembrar o ano da sua fundação oficial – 8 de Agosto de 1937.

Ana Maria Lopes
Vice-presidente da Direcção dos Amigos do Museu de Ílhavo

ao vivo e a cores

ao vivo e a cores

(muito obrigado dra ana maria, pela cedência do texto para pulicação)

os moliceiros têm vela (5)


em 2007 era assim, no bico

em 2007 era assim, no bico

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes
A galeria de tipos é quase infinita.

O rapaz e a rapariga em situação de trabalho e/ ou em relação amorosa plena de malícia contrastam com o galã e vampe enamorados.
Com maior ou menor grau de flexibilidade, mais ou menos de acordo com «a escola» do pintor e o seu grau de sensibilidade, todos os painéis sobrantes estão dentro dos cânones da pintura de moliceiros: motivo central, sublinhado por uma legenda e emoldurado por frisos geometrizados.

Na retina, ficam as cores puras e luminosas: o amarelo, o verde, o azul, o vermelho, o branco e o preto; as gamas intermédias aparecem só num ou noutro pormenor. Tem-se evoluído muito, neste aspecto, como já referimos.

Este conjunto de cores é igualmente usado noutros artefactos locais – as cangas vareiras.

Foi a decoração do moliceiro que influenciou a da canga? Ou, pelo contrário, a da canga que influenciou o moliceiro?

Segundo nosso entender e o de outros – 6 – estudiosos, ambos reflectem a opulência económica da classe dos lavradores muito ligada ao poder político local, nos séculos XVIII e XIX.

Pela vibração cromática, pelos contornos bem marcados, por um figurativismo de planos frontais, pela ingenuidade, pela adaptação do desenho à superfície, pelo recurso a temas do quotidiano, os painéis dos moliceiros constituem exemplos belíssimos de pintura «naïf» concordantes com as quatro legendas sistemáticas plenas de graça -7-.

Normalmente, estas são
inscritas numa estreita faixa branca ou rósea, situada na parte inferior do painel entre o friso e o motivo principal.

Os grafismos usados foram mudando desde a letra minúscula à maiúscula, alternando-a ou misturando-a, manuscrita ou tipográfica.

Tendo acompanhado a construção desta embarcação junto do Mestre Esteves, no seu estaleiro, sempre tivemos a preocupação de que os métodos construtivos e os materiais utilizados fossem o mais tradicionais possível. E com a decoração, aconteceu o mesmo junto do pintor, o José Manuel Oliveira, respeitando o seu estilo. Defende e pratica a mesma linha pictórica com que debutou desde o final dos anos 80, vai acompanhando nos seus painéis os eventos que se vão sucedendo, usando igualmente a diversidade de temas a que estávamos habituados. Não põe completamente de lado o tradicionalismo do painel da proa a BB, reinventando-o. O Zé Manel impôs-se como o mais famoso, produtivo e inovador pintor de painéis de moliceiro.

(a continuar)

-6- Senos da Fonseca, obra já citada, p. 164, Porto, 2011.

-7- Ana Maria Lopes, Moliceiros – A Memória da Ria, 2ª edição. Âncora Editora, Lisboa, 2012.

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(murtosa; bico; regata moliceiros; 2007)

a murtosa não é a pátria do moliceiro?


o "António Garete" a navegar, na regata do bico de 2007

o “António Garete” a navegar, na regata do bico de 2007

– a propósito de uma publicação do rui cruz, na sua página do facebook – 

(Kiss – keep it simple stupid ou kill it simply stupid

tradução: faz simples estúpido, ou, mata-o simplesmente estúpido)

as siglas dão para muita coisa, haja imaginação e, sem ela, não há técnica, nem design, que resista.

vem isto a propósito de uma a análise técnica de “design” de rui cruz sobre o “novo” logotipo do Município da Murtosa. há argumentos técnicos para tudo, mas os melhores são os que são tão técnicos, tão técnicos, que parecem só isso. ora a técnica não é algo de intocável, está na moda recorrer a “independentes” na política e à “técnica”, para que tudo pareça limpo de influências de quem manda, melhor ou pior.

mas será só a técnica de design que justifica o logotipo? em termos de design seguiu as regras, logo está bem. é um raciocínio simples e redutor, um raciocínio kiss. mas, digo eu, no caso da marca/logotipo de um município, ser só um designer a decidir é muito pouco ou quase nada, dada a importância que a imagem carrega em si mesma. será que não deveriam ser ouvidos pareceres de outras áreas? se a murtosa á pátria do moliceiro o logotipo pode ser um barco qualquer? veja-se o logotipo do município de aveiro, simples, sim, mas vê-se que é um moliceiro.

LogoAveiro

um argumento técnico, de um técnico da área em causa, e …. lá se vão os argumentos dos não especializados. quantos crimes se cometem em nome da técnica? a começar no ambiente por exemplo, sempre muito sustentados por argumentos técnicos. não é verdade rui cruz?

mas, continuemos, para ilustrar a sua teoria, o rui cruz diz que há barcos moliceiros a navegar sem vela e mostra o moliceiro “António Garete”, varado num ancoradouro. bom, se isto é navegar…. entendo. navega, sim, como na foto, que aqui insiro, na regata do bico em 2007. infelizmente o “António Garete”, se ainda não foi destruído, navegará agora, provavelmente, no canal de aveiro, com outros amputados, sem mastro nem vela.

em resumo, e sem abordar ainda as questões metodológicas e legais subjacentes a todo o procedimento, queria deixar aqui uma palavras de um designer da murtosa :

“ ….talvez fosse de interesse da comunidade marinhoa, a edilidade lançar um repto a todos aqueles que ligados ou não ao design cá na nossa Santa Terrinha pudessem colaborar, apresentando um esboço do que poderia vir a ser a nova “marca” do município da Murtosa. Após selecção e escolha do melhor trabalho, feita pela assembleia municipal, o departamento competente na câmara deveria abrir concurso para as empresas de design interessadas desenvolverem o trabalho pretendido baseadas no referido esboço. Essa nova “marca” teria certamente um cunho mais comunitário, mais democrático, “mais nosso”.Para terminar seria injusto não referir que a empresa referida como estando a trabalhar no projecto, é competente e tem capacidade para desenvolver um trabalho criterioso. “

é um parecer técnico, e não só, de um designer. talvez assim seja mais fácil de entender que a técnica só por si não justifica tudo.

lutar hoje contra a extinção dos moliceiros, é de facto o mais importante, temos visto o que as autoridades locais e regionais têm feito, e o que têm feito os que isto afirmam. este é também um tipo de argumento muito utilizado para desviar as atenções da discussão de um caso particular: falar no geral. parece que estamos a perder tempo nestas discussões de pormenor, que não o são, enquanto deixamos passar o fundamental. é assim que nada se faz, dizendo que há coisas mais importantes a fazer.

não há polémicas em vão, há é silêncios convenientes.

navegar é preciso

navegar é preciso

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (4)


moliceiros, homens e barcos

o erguer dos mastros nos moliceiros do ti zé rebeço e do mestre zé rito

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes

O espaço central dos painéis é (era) sempre acabado de preencher com arabescos ou com um motivo floral: flor, vaso geometrizado ou ramo mais ou menos esguio. À medida que se aproximam da periferia, as decorações tornam-se mais geometrizadas, terminando por três tipos de frisos estilizados. Estes conseguem-se através de uma combinação diferente de traços sobre um padrão comum, formado por círculos de dois tamanhos, desenhados sobre uma linha recta.

Dois deles lembram o roliço das conchas, o terceiro, talvez inspirado pelo movimento das águas intercalado com fragmentos de moliço, é normalmente preferido para a zona que vai dos golfiões à bica da proa, esta, sempre de cor vermelha.

Feita a homenagem aos elementos marítimos, o elemento rural não podia faltar – são as flores campestres, simples e estilizadas, repetidas ou alternadas, que servem de motivo inspirador. A ornamentação marítima, geometrizada, tem sido muito mais conservadora. A campestre, fruto de uma busca de perfeccionismo e originalidade de alguns pintores, foi evoluindo e assim acontece até aos dias de hoje.

O espaço central do painel ocupa lugar privilegiado, pois é aí que os artistas têm expressado ao longo dos tempos um vasto repertório de imagens e acontecimentos.

A decoração do barco também tem evoluído. E, de figuras simples enquadradas por contornos, o motivo passou a ocupar toda a área, tendo vindo a pormenorizar-se o cenário.

As temáticas, variadíssimas (amorosas, religiosas, patrióticas, históricas, desportivas, ecológicas, festivas, folclóricas, sociais, campestres, marítimas, heráldicas, brejeiras), não são estanques e a brejeirice é quase sempre transversal a todos os painéis. Excepto nos mais respeitadores.

A imagística do moliceiro tem acompanhado a evolução dos tempos: a presença da televisão, da mini-saia, da integração da C.E.E., do euro, o apelo à limpeza e defesa da ria, a saudade dos tempos antigos, a problemática da arte xávega, do alcoolismo na condução, a doença das vacas loucas, a crise, a austeridade, a corrupção, a tróica, concursos televisivos, comprovam-no. Inclusivamente, um ou outro acontecimento mais relevante em determinado ano permite datar a decoração do barco: a Expo 98, o V Centenário da Descoberta do Brasil (2000), os Campeonatos Europeu e Mundial de Futebol (2004 e 2006), a selecção das Sete Maravilhas do Mundo (2007) e outros

(a continuar)

(os moliceiros do mestre zé rito e do ti zé rebeço)

os moliceiros têm vela (3)


o barco da frente, do mestre zé rito, a cambar

o barco da frente, do mestre zé rito, a cambar

O barco moliceiro, ex-libris lagunar

(continuação)
Relativamente à pintura do barco, temos a referir que, inicialmente, o costado era amarelado, devido ao uso do pez louro, mas nas amanhações (reparações para manutenção) anuais, passava a ser embreado (coberto de breu), o que melhorava a sua resistência. Os que ainda restam são pintados a tintas de cor forte, a gosto do dono.

«Nenhum dos barcos da larga família etnográfica e longa ascendência tem a graça e o valor pictórico do moliceiro da ria de Aveiro». – 4 –

À proa e a ré, a bombordo e a estibordo, apresenta quatro painéis, com espantosas cercaduras policromas, flores e ramalhetes pintados em cores berrantes e estilizações bizarras, cheias de ingenuidade ou ingénuas de malícia. Para além da harmonia de linhas que fazem do moliceiro uma embarcação muito «sui generis», o seu grande encanto reside na decoração que ostenta. É o barco mais ricamente decorado e mais decorativo. – 5-

Citando, de novo, Luís Chaves – «Os barcos vestem-se como se vestiram os corpos. E se enfeitaram, guarneceram (…) nos barcos, como nos vestidos, há faixas coloridas, paralelas ou não, grades ou xadrezes, barras, flores estilizadas ou realistas, emblemas, etc. O princípio do revestimento é o mesmo.»

Barcos havia ao longo do nosso litoral que ostentavam ou por embelezamento ou superstição alguns signos pictóricos interessantes: pinturas de olhos, cruzes, emblemas, pequenas figuras, etc. Aqueles cuja decoração atingiu uma maior superfície e grande beleza foram os varinos do Tejo, seguidos dos botes e das canoas.

Mas, os moliceiros com as suas quatro iluminuras de uma diversificação estonteante fizeram da ria de Aveiro uma galeria de arte fluida, em que todos estes elementos estéticos foram mergulhando.

Há quem considere a proa, pelo seu formato, a parte monumental do barco, já que a diferença da construção limita, na ré, o espaço para decorações. No entanto, é na ré que por vezes surgem os mais sugestivos desenhos e legendas mais espirituosas, talvez para compensar em expressão o que reduz em espaço. Hoje, não é bem, bem, assim, porque o espaço decorativo da ré tem aumentado.

Normalmente, o olhar do observador é levado para o centro do painel onde o motivo central aparece livremente ou limitado por um círculo, uma fechadura, por uma «casa» ou ainda por cortinados encimados pela coroa real. Utilizavam-se mais os círculos e cortinados à proa e as fechaduras e «casas» a ré.

-4- Luís Chaves, Os Transportes Populares em Portugal – carros e barcos. FNAT. Gabinete de Etnografia, Lisboa, 1958.

-5-  Nem sempre assim foi. Há provas imagéticas de que as primeiras decorações, mais incipientes, terão aparecido apenas em finais do século XIX.

(a continuar)

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torreira; regata do s.paio; setembro, 2014

os moliceiros têm vela (2)


um moliceiro a velejar  para o futuro

um moliceiro a velejar para o futuro

O barco moliceiro, ex-libris lagunar

(continuação do artigo da dra ana maria lopes)
Um dos assuntos que tem sido polémico, em que os investigadores estão longe de concordar, é a origem do moliceiro. O facto de haver semelhanças entre ele e outras embarcações bastante mais remotas não quer dizer que delas provenha. Ultimamente, em estudos que dedicou às Embarcações Lagunares que Tiveram Berço na Laguna – 2 -, o autor admite como muito sensato ter esta embarcação nascido, fruto das necessidades dos proprietários, das hábeis mãos dos nossos construtores navais lagunares, porventura, tendo reflectido uma evolução da própria bateira ílhava, ao adquirir a forma que hoje lhe conhecemos, pelos finais do século XVIII, inícios de XIX.

Os meios de propulsão do barco moliceiro são (eram) a vela, a vara ou a sirga, que os ocupantes traduzem por meio de expressões popularizadas como «andar à vela», «andar à vara» ou «andar à sirga».

A vela, de formato trapezoidal, normalmente de lona, com a superfície média de 24 metros quadrados, desliza ao longo de um mastro com cerca de 8 metros, de pinho, desmontável, suspensa de uma vara, a verga, de pinho ou de eucalipto com cerca de 4 m. Quando o barco bolina, utiliza-se a pá de borda ou toste, que faz as vezes de quilha.

O segundo meio de propulsão – a vara – era utilizado nos dias de calmaria ou em manobras junto aos cais, motas, malhadas (terrenos situados à borda d’água, com ligeira inclinação, para a descarga do moliço). A sirga, actualmente, caiu completamente em desuso.

Entre os apetrechos do barco, há a distinguir os que são fornecidos pelo estaleiro (falcas, falquins, tostes, escoadoiro e leme) e os que eram preparados pelo próprio dono: varas, ancinhos, tamancas, forcadas, lambaz, padiola, cabos, engaços, pranchas e alguns utensílios de uso doméstico.

2- Senos da Fonseca, Embarcações que Tiveram Berço na Laguna. Papiro Editora. Porto, 2011, p. 99.

o futuro tem as cores que quiseres

o futuro tem as cores que quiseres

(moliceiro na ria)