os moliceiros têm vela (4)


moliceiros, homens e barcos

o erguer dos mastros nos moliceiros do ti zé rebeço e do mestre zé rito

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes

O espaço central dos painéis é (era) sempre acabado de preencher com arabescos ou com um motivo floral: flor, vaso geometrizado ou ramo mais ou menos esguio. À medida que se aproximam da periferia, as decorações tornam-se mais geometrizadas, terminando por três tipos de frisos estilizados. Estes conseguem-se através de uma combinação diferente de traços sobre um padrão comum, formado por círculos de dois tamanhos, desenhados sobre uma linha recta.

Dois deles lembram o roliço das conchas, o terceiro, talvez inspirado pelo movimento das águas intercalado com fragmentos de moliço, é normalmente preferido para a zona que vai dos golfiões à bica da proa, esta, sempre de cor vermelha.

Feita a homenagem aos elementos marítimos, o elemento rural não podia faltar – são as flores campestres, simples e estilizadas, repetidas ou alternadas, que servem de motivo inspirador. A ornamentação marítima, geometrizada, tem sido muito mais conservadora. A campestre, fruto de uma busca de perfeccionismo e originalidade de alguns pintores, foi evoluindo e assim acontece até aos dias de hoje.

O espaço central do painel ocupa lugar privilegiado, pois é aí que os artistas têm expressado ao longo dos tempos um vasto repertório de imagens e acontecimentos.

A decoração do barco também tem evoluído. E, de figuras simples enquadradas por contornos, o motivo passou a ocupar toda a área, tendo vindo a pormenorizar-se o cenário.

As temáticas, variadíssimas (amorosas, religiosas, patrióticas, históricas, desportivas, ecológicas, festivas, folclóricas, sociais, campestres, marítimas, heráldicas, brejeiras), não são estanques e a brejeirice é quase sempre transversal a todos os painéis. Excepto nos mais respeitadores.

A imagística do moliceiro tem acompanhado a evolução dos tempos: a presença da televisão, da mini-saia, da integração da C.E.E., do euro, o apelo à limpeza e defesa da ria, a saudade dos tempos antigos, a problemática da arte xávega, do alcoolismo na condução, a doença das vacas loucas, a crise, a austeridade, a corrupção, a tróica, concursos televisivos, comprovam-no. Inclusivamente, um ou outro acontecimento mais relevante em determinado ano permite datar a decoração do barco: a Expo 98, o V Centenário da Descoberta do Brasil (2000), os Campeonatos Europeu e Mundial de Futebol (2004 e 2006), a selecção das Sete Maravilhas do Mundo (2007) e outros

(a continuar)

(os moliceiros do mestre zé rito e do ti zé rebeço)

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