postais da ria (53)


aos meus amigos josé gomes ferreira e joaquim namorado

afundam-nos

afundam-nos

a ignorância povoa este tempo
mão dada com a incompetência
a arrogância dos velhos tempos

não
amigos meus de sempre
não tenho saudades do futuro

o futuro virá carregado de um passado
que nunca o foi
e isso não é futuro para ninguém
como ter saudades de tal coisa?

o passado que matam sem dó
era o presente que eu gostava de deixar
embrulhado em amor aos vindouros
cuidado por nós todos os de agora
juntos pela memória do onde fomos
morre antes mim o que queria por herança deixar

um dia dir-lhes-ão o nome e escurecerão
mas perder-se-á também a memória
do que destruíram quando foram

fraca gente esta que hoje

afundam-nos e nós deixamos?

afundam-nos e nós deixamos?

(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (15)


a palavra e o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

um homem calado
é uma estátua fúnebre
plantada numa praça

as pombas agradecem
mais um poiso
e de branco a vestem

amanhã dirão de ti
o teu silêncio de hoje

herança amarga
a tua

a palavra enche o tempo e o espaço

a palavra enche o tempo e o espaço

(ria de aveiro; torreira; s. paio, setembro, 2014)