a carta


do ricardo para o josé

a protecção do cordão dunar

a protecção do cordão dunar

como está josé? não lhe escrevo por ser seu amigo, mas porque, de certo modo, somos parecidos: eu preparei o meu futuro – desculpe usar o inglês, mas a educação não se esquece e há apalavras que não consigo traduzir – offshore  e você o seu, indoor. já reparou que você inaugurou as obras que agora o acolhem? somos homens de fazer, gostem ou não gostem. você não tem é, desculpe que lhe diga, uma família antiga atrás de si, além de se ter metido em coisa que nós, os que já cá andamos há muito, não metemos as mãos porque pagamos para que o façam: a política. porque é que você não foi para as finanças e quis ser engenheiro, político e depois filósofo e profeta (lembro-lhe que escreveu um livro sobre o que lhe está a acontecer), arranjou, como diz a gentinha, “lenha para se queimar”. tivesse vindo para as finanças e era rico, feliz e livre. olhe para nós, olhe para nós! ainda perguntei aos meus primos se conheciam a sua família ou o seu nome de algum lado, sabe qual foi a resposta que recebi de todos? só sei que nada sei. só uma nota,  nós usamos os motoristas para distribuir bombons, o dinheiro é coisa demasiado perigosa para pôr nas mãos do povo, pelo menos em grandes quantidades. queria desejar-lhe um bom ano e pedir-lhe, por favor, quando sair, tenha ou não tenha razão, nisso não me meto, que atenda o meu telefonema, não se preocupe em saber como sei o número que vai ter, nós financeiros sabemos sempre tudo antes de acontecer. aproveite o tempo em que estiver à sombra para ler alguns manuais sobre funcionamento de mercados e bolsa e deixe-se de filosofias. já viu no que dá? até breve, por aí.

o mar ao fundo à esquerda

o mar ao fundo à esquerda

(praia da torreira; protecção da dunas)

os moliceiros têm vela (24)


MOLICEIROS SEMPRE!

a caminho do novo ano

a caminho do novo ano

quando a pedra floriu
o chão sorriu
de ter enganado o semeador

sabedoria antiga
não bebe vinho a martelo

nas águas plácidas da ria
outra pedra caiu
em círculos riscados à tona
por instantes
a sua memória espelhada

nada mais
nada

um ano novo a colorir de moliceiros

um ano novo a colorir de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

FELIZ ANO NOVO