postais da ria (35) – carta aos patrões da pátria


postais da ria (35)

um moliceiros no cais do bico, murtosa, em 2009

um moliceiros no cais do bico, murtosa, em 2009

“A pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões! (José de Almada Negreiros) “

pergunto-vos onde estou
e sei que sabeis que não sabeis
ou se o sabeis não o lamentais

não sei sequer se ainda sou
porque se o for já nada é como vedes
neste fragmento de tempo parado
diante dos olhos de quem para mim
ao ver-me se lembra de o ter sido

se em vida me não destes a mão
ao menos agora quando as forças me faltam
deixai que me recordem como fui

não há muito tempo um cartaz pedia
“não matem os moliceiros”
hoje agora aqui
apenas vos pedimos
“não matem a nossa memória”

(assinado: um moliceiro)

como eu era belo há tão pouco tempo

como eu era belo há tão pouco tempo

(murtosa; bico; 2009)

uma imagem tem sempre, pelo menos, uma mensagem


(trabalho da Artifex Design)

(trabalho da Artifex Design)

 

quem não conhece o moliceiro – o barco – é com esta imagem que fica a identificá-lo. uma bela imagem, bem concebida, com cores vivas, apelativa.

mas ….

e o mas é que me perturba e poderá perturbar alguns: o moliceiro é um barco com vela. faz-se excepção aos “amputados” que estacionam no canal de aveiro e fazem “passeios” turísticos em pista fechada. não são só moliceiros, são mercantéis (saleiros, em aveiro) e barcos que misturam tudo e nada são.

se a “pátria do Moliceiro” assume este símbolo como imagem de marca, é o assumir de que o futuro do moliceiro é deixar de o ser. que nome dar a uma pátria que “mutila” o filho e ainda por cima o exibe mutilado?

não penso que a empresa autora da nova imagem do município tenha qualquer intenção de transmitir a mensagem da morte dos moliceiros. mas quem a avaliza e aprova deve ter consciência do que está a aprovar e a fazer.

se já é difícil manter viva a tradição com os parcos apoios das entidades responsáveis, aos donos dos moliceiros que ainda concorrem nas regatas à vela, o que dirão quando virem este símbolo?

assim vamos por cá

postais da ria (33)


o fim está tão próximo quanto a vitória

o fim está tão próximo quanto a vitória

nada dizer

nem todos os dias são
muitos haverá em que
tu sabes
não pode ser
sempre nem nunca

sê no dia em que não
o mesmo que noutro dia qualquer
a razão encontra-la-ás se
razão houver mas
não será por isso

pelo que és
pelo que sonhas
pelo que queres que seja
vai

porque nada é o que

a vitória está tão próxima como o fim

a vitória está tão próxima como o fim

(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

postais da ria (30) – um dia falarei das pedras


ainda os cisnes voam

ainda os cisnes voam

faço-me no caminho
que faço
cúmplices efémeros
neste fazer-mo-nos

escuto o vento por
vício
abro-lhe os braços
o corpo
vou por onde

em tudo somos
o início
a recusa de ficar
ser lago

somos os dias
e os dias são imensos
porque nós neles
desencaminha-mo-los

um dia falarei das pedras

ahcravo_DSC_1223_bando dos 4

(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

postais da ria (28)


necas lameirão e a pintura de um moliceiro

necas lameirão e a pintura de um moliceiro

(a propósito de “galveias”, o último do josé luis peixoto)

apetece-me não dizer nada
não juntar palavras
na tentativa de ao fazê-lo
dar algum sentido
a coisa nenhuma

não escrevo para
escrevo porque

estendo os braços sobre o tempo
abraço um nome
tantos nomes
um corpo
tantos corpos
a memória dos outros inscrita em mim

apetece-me não dizer nada
a leitura das grandes obras
deixa-me sempre um vazio
uma noção da pouca valia do que
por aqui vou deixando
sem pretensões
mas vou deixando

vou deixando

ahcravo_DSC_0485_necas lameirão bw
(torreira, 2014)

postais da ria (26)


ria de aveiro; regata da ria, 2014

ria de aveiro; regata da ria, 2014

a propósito o moliço

chamam-se moliceiros
porque à apanha de moliço
homens e barcos corriam a ria
que as terras férteis consumiam

colhiam-no do fundo
e era mais caro na venda
se à superfície dele se dizia
arrolado
misturado com lodo secava
nos cais
e era vendido a preço mais baixo

no mesmo catálogo
digo hoje dos amigos
dos do fundo
dos que ainda do fundo
me fertilizo e ganho os dias

aos arrolados
estou velho demais
para com eles
ahcravo_DSC_1273_manuel vieira+felisberto bw

o princípio da incerteza


por momentos os cisnes de novo

por momentos os cisnes de novo

éramos jovens e voávamos
pelos dias
sem sobressaltos de amanhã
éramos um bando
voávamos assim

que ontem dentro do hoje?

o voo é agora incerto
as asas foram perdendo penas
a pena que eu tenho
de não as ter
é saber que as tivemos

rasamos os dias
sem saber onde e quando
poisaremos

o agridoce dos dias

(ria de aveiro; torreira; s. paio; 2014)

regata de moliceiros, bico, 2014


à frente o A Rendeiro, seguido do Zé Rito, fazem bordos que o vento é quem manda, as marés quem ordena e os edis quem decide

à frente o A Rendeiro, seguido do Zé Rito, fazem bordos que o vento é quem manda, as marés quem ordena e os edis quem decide

 

(isto não é um poema. quem dera fosse)

 

procurei e não vi
como eu muitos
perguntando por

onde o cartaz
a imagem
as letras gordas
a  divulgação
o barco ainda vivo
a regata
o moliceiro?

onde?

procurei e encontrei
mas era diverso
o que os meus olhos
as gentes marinhoas
uma junta de bois
outra freguesia
isso sim
mas não devia ser só

por vezes os discursos finais
só servem para mascarar
falsas partidas

assim vamos por cá

 
(ria de aveiro; murtosa; bico; agosto, 2014)

 

regata de moliceiros, bico, 2014


 

o A Rendeiro segue em primeiro em direcção à meta

o A Rendeiro segue em primeiro em direcção à meta

na regata deste ano participaram 11 barcos, que a seguir se listam, por categorias e com a classificação final:

Categoria A (barcos grandes)

1º A. Rendeiro
2º Zé Rito
3º Dos Netos
4º Manuel Silva
5º Câmara Municipal Murtosa
6º O Amador
Desistência : Inobador

Categoria B (barcos pequenos)

1º Cristina e Sara
2º Pequenito
3º Eco Moliceiro
4º Sermar

 

Notas

 

1 – Faltaram à chamada na categoria A :

– Marnoto
– Pardilhoense
– S. Salvador
– Manuel Vieira

2 – Parabéns ao Zé Rebelo (Papa Lamas) pela compra do Sermar, ao mestre Felisberto. É sangue novo que chega aos moliceiros.

3 – Parabéns aos jovens que ficaram em 4º lugar ( Zé Pedro; Rui Rodrigues e João Rodrigues), são uma promessa que espero não morra.

4 – Parabéns à tripulação do A Rendeiro (José Rebeço; Manuel Antão e Marco Silva) pela sua segunda vitória deste ano

 

 

(ria de aveiro; murtosa; bico; 2014)

postais da ria (23)


abílio carapelho (ti abílio carteirista)

abílio carapelho (ti abílio carteirista)

 

aos moliceiros resistentes

 
que fique destes homens
a memória de serem enormes
maiores que os barcos onde teimam
reviver um tempo onde jovens
noivos de uma ria que bela era

mais mereciam que as mansas falas
da pequena gente
que migalhas tardias distribui
apressada no aperto de mão
no sorriso fácil
no jeito de boiar na lama

as velas enfunar-se-ão uma vez mais
os moliceiros voarão por sobre as águas
a ria rejuvenescerá
tudo parecerá ser o que já não é
sem saber até quando será

até amanhã amigos

 
amanhã, dia 3 de agosto, há regata no bico. o vento parece que vai ajudar…

 

http://www.windguru.cz/pt/index.php?sc=48947