da vida
tempo algum é tempo
que baste para
ser inteiro no instante
é ser o tempo todo
dar é receber-se
(murtosa; regata do bico; 2012)
deste estar aqui longe
por entre os dedos
voam palavras
rios pedras sentires
eu em tudo
eu em nada
eu por aí
por entre os dedos
tudo me escapa
tudo escorre
nada fica
uma imagem sorri
pede mais que silêncio
pede pede pede
e eu ….
(murtosa; regata do bico; 2007)
lembrando drummond
que coisa é o homem
carlos?
mercadoria
se calado pouco vale
se trabalha dá lucro
se doente prejuízo
se morre despesa
que coisa é o homem
carlos?
à mesa do orçamento
discute-se o seu valor
que não vale tudo
o valor do homem
tem limite na despesa
no controle do défice
a vida não tem preço
quem foi que disse isso
carlos?
à mesa da negociação
a vida é lucro anormal
o mercado contabiliza
o preço do homem
em dólares em euros
carlos
lembrei-me de ti hoje
por causa de ontem
“a si apanho-o !”
“não quero morrer !”
entrando pelas casas
gritado no rosto de quem
que coisa é o homem
carlos?
a força de querer ser
ou nada
(murtosa; regata do bico; 2010)
das palavras
gastar as palavras
como se coisas de uso
gastá-las de tanto
gastar-me com elas
ser palavra
sem palavras para
ser o espaço em branco
ou as reticências
seria o destino perfeito
ponto final parágrafo
(murtosa; regata do bico; 2007)
na página da internet da câmara municipal de murtosa encontrei, há dias, esta notícia:
“Moliceiro em reparação no Museu – Estaleiro da Praia do Monte Branco na Torreira
Quem, por estes dias, visitar o Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, na Torreira, Murtosa, terá a oportunidade de apreciar o trabalho minucioso de reparação de um barco moliceiro, pelas mãos hábeis do Mestre José Rito. Para além deste trabalho, o Mestre José Rito encontra-se, igualmente, a construir duas novas bateiras.
O Museu-Estaleiro da Praia do Monte Branco, propriedade da Câmara Municipal da Murtosa, é um espaço peculiar de conhecimento e valorização das artes de construção de embarcações tradicionais, assumindo-se como um verdadeiro museu vivo do património marinhão.
No âmbito do protocolo, formalizado em 2009, com a Câmara Municipal, o Mestre José Rito – o único que, actualmente, exerce de forma permanente a arte da construção de moliceiros e bateiras, na área do Concelho da Murtosa – ocupa o espaço do estaleiro, onde executa o trabalho de construção e reparação de barcos, e, mediante a solicitação de escolas e grupos organizados, dá a conhecer os vários aspectos associados à arte que exerce. O Museu-Estaleiro está, de igual modo, aberto a todos aqueles que queiram observar os processos de construção e reparação das embarcações.”
fim de citação ver em:
http://www.cm-murtosa.pt/Templates/GenericDetails.aspx?id_object=7515&divName=116s154s4&id_class=4
ora cá está uma boa notícia que eu divulgo com todo o gosto – não estranhem por favor.
convido, todos os que puderem, a fazerem uma visita ao estaleiro e verem o mestre zé rito a trabalhar, nunca é tempo perdido, fazem-se boas fotografias e aprende-se com quem sabe.
agora só algumas notas – para não estranharem
não pensem que vão ver o mestre a fazer a recuperação do moliceiro dentro do estaleiro – aliás a foto não engana a esse respeito. e não vão ver por uma razão muito simples: não pode.
vão vê-lo a trabalhar no exterior, porque o estaleiro não tem dimensões suficientes para que nele caiba um moliceiro, só dá para bateiras. é um estaleiro virado para o futuro, fala-se de moliceiros mas não se constroem.
registem, dentro do estaleiro, a forma como foi aproveitada a luz natural e nunca mais se esquecerão daquilo de que é capaz a inteligência humana, quando posta ao serviço da ecologia na arquitectura….
quanto ao moliceiro que vão ver em reparação, desenganem-se se pensam que é um barco para navegar na ria, em substituição dos dois que foram vendidos para o turismo de amputados em aveiro. não, é um amputado do turismo de aveiro que veio para ser reparado.
esperanças?
assim se preserva o moliceiro naquela que é a sua pátria, depois queixem-se
do silêncio

“NÃO MATEM OS MOLICEIROS”, no moliceiro “dos netos”, do ti abílio, usada no protesto contra o cancelamento da regata da ria, no mês de julho
escrevo silêncio
para que não o seja
mesmo que não ouças
não as leias
as palavras ouvem-se
há nãos a mais
nestas linhas poucas
onde nada
absolutamente nada
acontece para além
de silêncio escrito
não o sentes?
(murtosa; regata do bico; 2012)