uma imagem, um sentir
murtosa
os moliceiros têm vela (16)
da fotografia
onde andam agora os que
da terra a memória serão
de tantos olhares gravados
máquinas muitas prontas
a registar a festa da ria
o bailado dos moliceiros
voando como nunca
porque sem carga
onde andam agora as imagens
roubadas ao tempo
para nos serem ofertadas um dia?
fotografar não é
procurar a beleza e guardá-la
para concursos negócio ou
gozo próprio narcísico
fotografar é um comprometimento
com o sentir de um tempo
com as gentes que nos olharam e pensaram
amanhã vou lembrar-me de hoje
(murtosa;regata do bico; 2012)
postais da ria (53)
aos meus amigos josé gomes ferreira e joaquim namorado
a ignorância povoa este tempo
mão dada com a incompetência
a arrogância dos velhos tempos
não
amigos meus de sempre
não tenho saudades do futuro
o futuro virá carregado de um passado
que nunca o foi
e isso não é futuro para ninguém
como ter saudades de tal coisa?
o passado que matam sem dó
era o presente que eu gostava de deixar
embrulhado em amor aos vindouros
cuidado por nós todos os de agora
juntos pela memória do onde fomos
morre antes mim o que queria por herança deixar
um dia dir-lhes-ão o nome e escurecerão
mas perder-se-á também a memória
do que destruíram quando foram
fraca gente esta que hoje
(murtosa; cais do bico)
os moliceiros têm vela (10) – de mim
“Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão”
antónio aleixo
há muito que soltei amarras
de cais seguros
o meu andar é o meu caminho
sempre o meu
venham os que assim quiserem
deixem-me os que não
aceito dos amigos a palavra
o abraço não o silêncio
mesmo se
serei barco até um dia
o dia em que
serei mar por já não ser
até lá serei sempre eu
os moliceiros têm vela (9)
murtosa, novo logo do município: o tempo de pensar
primeiro momento, pensemos em termos gerais sobre o regime em que vivemos, a democracia.
em democracia, através do voto, escolhe-se quem governa, mas quem governa, não escolhe sem se manter alheio aos governados, tenham ou não votado nele. governar, hoje, é tornar-se transparente nas decisões e cumprir a lei – dar o exemplo. é impensável, nos dias de hoje, uma gestão da coisa pública longe dos olhares dos cidadãos – dos jornais, à net, ninguém escapa, muito menos os que mais visibilidade social têm.
não há, por isso mesmo, após o acto eleitoral, uma maioria silenciosa, porque ganhou, e uma minoria calada, porque perdeu. é isto a democracia. as manifestações públicas de apoio e/ou de crítica são a demonstração da vitalidade de uma sociedade democrática, os que pensam que não é assim, vão outros caminhos.
segundo momento, o como da tomada de decisão. observadas que sejam as disposições legais que balizam o acto em causa, haverá que ter em conta, aquilo. a que se chamam “as boas práticas”. ser legal não basta, convém que seja o melhor – para isso foram eleitos: para fazer o melhor dentro da legalidade.
um exemplo, muito simples, e que é aplicado nos concursos de painéis de moliceiros. com que critérios é formado o júri? quem são os seus membros? um júri que tenha na sua constituição pessoas com conhecimentos adequados a uma análise estética, por exemplo
terceiro momento, o caso concreto do novo logo do município da murtosa. volto a perguntar: todo o procedimento foi regular? houve a preocupação, tratando-se da imagem do município, de constituir um júri com competências consideradas necessárias para a sua aprovação? já foi aprovado?
quarto momento, do virtual ao real. tinha dito que já não me pronunciaria mais sobre ao assunto, mas entretanto, como não vivo na murtosa, fizeram-me chegar a foto, que anexo, da exibição do logo numa carrinha da câmara municipal. interessante seria saber desde quando? volto à acta de 20 novembro.
onde tudo se sabe, nada se pode esconder.
(ria de aveiro; regata da ria)
murtoseiros
cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada
filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar
foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos
regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida
são murtoseiros
os moliceiros têm vela (6)
O barco moliceiro, ex-libris lagunar (conclusão)
………..
A nosso pedido, os frisos marítimos e florais são dos mais singelos e tradicionais, o espaço cénico é completamente preenchido e pormenorizado, mantendo-se à proa, a BB, uma legenda identificativa do construtor, bem como a localidade, com o mestre a cavalo, lembrando a figura equestre de antanho.
«MESTRE ANTÓNIO ESTEVES – PARDILHÓ – »
Na proa de estibordo, uma legenda tipo apelativo, em que o narrador presente exprime o desejo de que Deus ampare os nossos pescadores que saem para a pesca do bacalhau, coaduna-se com o desenho brochado.
«DEUS VOS GUIE PESCADORES»
Na ré, a BB, uma cena campestre, vulgar e antiga, serve de suporte à frase interrogativa, maliciosa e brejeira, que joga com um duplo sentido, no discurso do interlocutor masculino.
«ONDE QUERES QUE TE CARREGUE?»
Na ré, a EB, como era hábito, mais uma garotice, em que o narrador não participante joga com o duplo sentido da palavra «passarinha», numa frase exclamativa. Uma bela e rechonchuda moçoila, de mini-saia, apanha um passarinho, lá no alto de uma árvore, encarrapitada num escadote.
«QUE RICA PASSARINHA!»
As outras zonas decoradas desta embarcação enaltecem o conjunto: o barrote do castelo da proa, a antepara da proa, os dois golfiões, a base da bica, a parte fontal da tampa móvel da entremesa, as extremidades dos forcados biqueiros e a divisa do construtor que o pujante leme negro ostenta.
O pintor revela um cuidado especial com o grafismo do registo-A – 1937 – M, em que o número escolhido pelos órgãos directivos do museu pretende lembrar o ano da sua fundação oficial – 8 de Agosto de 1937.
Ana Maria Lopes
Vice-presidente da Direcção dos Amigos do Museu de Ílhavo
(muito obrigado dra ana maria, pela cedência do texto para pulicação)
postais da ria (48)
aos senhores da terra
de longe vem a umbilical corda
de muito longe
no dizer da terra onde vós
“não agouchais”
o tão que é
erguer-se-iam do chão as vozes
dos mais antigos
desconhecendo ser esta a terra sua
por vós marcada
se possível fosse coisa tal
ilusão vossa a de serdes mais do que
debaixo vos olham e enormes
ínfimos se de mais alto
vêde-vos tão pouco
quem disse que podieis?
(murtosa; cais do bico)
os moliceiros têm vela (5)
O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)
Dra Ana Maria Lopes
A galeria de tipos é quase infinita.
O rapaz e a rapariga em situação de trabalho e/ ou em relação amorosa plena de malícia contrastam com o galã e vampe enamorados.
Com maior ou menor grau de flexibilidade, mais ou menos de acordo com «a escola» do pintor e o seu grau de sensibilidade, todos os painéis sobrantes estão dentro dos cânones da pintura de moliceiros: motivo central, sublinhado por uma legenda e emoldurado por frisos geometrizados.
Na retina, ficam as cores puras e luminosas: o amarelo, o verde, o azul, o vermelho, o branco e o preto; as gamas intermédias aparecem só num ou noutro pormenor. Tem-se evoluído muito, neste aspecto, como já referimos.
Este conjunto de cores é igualmente usado noutros artefactos locais – as cangas vareiras.
Foi a decoração do moliceiro que influenciou a da canga? Ou, pelo contrário, a da canga que influenciou o moliceiro?
Segundo nosso entender e o de outros – 6 – estudiosos, ambos reflectem a opulência económica da classe dos lavradores muito ligada ao poder político local, nos séculos XVIII e XIX.
Pela vibração cromática, pelos contornos bem marcados, por um figurativismo de planos frontais, pela ingenuidade, pela adaptação do desenho à superfície, pelo recurso a temas do quotidiano, os painéis dos moliceiros constituem exemplos belíssimos de pintura «naïf» concordantes com as quatro legendas sistemáticas plenas de graça -7-.
Normalmente, estas são
inscritas numa estreita faixa branca ou rósea, situada na parte inferior do painel entre o friso e o motivo principal.
Os grafismos usados foram mudando desde a letra minúscula à maiúscula, alternando-a ou misturando-a, manuscrita ou tipográfica.
Tendo acompanhado a construção desta embarcação junto do Mestre Esteves, no seu estaleiro, sempre tivemos a preocupação de que os métodos construtivos e os materiais utilizados fossem o mais tradicionais possível. E com a decoração, aconteceu o mesmo junto do pintor, o José Manuel Oliveira, respeitando o seu estilo. Defende e pratica a mesma linha pictórica com que debutou desde o final dos anos 80, vai acompanhando nos seus painéis os eventos que se vão sucedendo, usando igualmente a diversidade de temas a que estávamos habituados. Não põe completamente de lado o tradicionalismo do painel da proa a BB, reinventando-o. O Zé Manel impôs-se como o mais famoso, produtivo e inovador pintor de painéis de moliceiro.
(a continuar)
-6- Senos da Fonseca, obra já citada, p. 164, Porto, 2011.
-7- Ana Maria Lopes, Moliceiros – A Memória da Ria, 2ª edição. Âncora Editora, Lisboa, 2012.
(murtosa; bico; regata moliceiros; 2007)
a murtosa não é a pátria do moliceiro?
– a propósito de uma publicação do rui cruz, na sua página do facebook –
(Kiss – keep it simple stupid ou kill it simply stupid
tradução: faz simples estúpido, ou, mata-o simplesmente estúpido)
as siglas dão para muita coisa, haja imaginação e, sem ela, não há técnica, nem design, que resista.
vem isto a propósito de uma a análise técnica de “design” de rui cruz sobre o “novo” logotipo do Município da Murtosa. há argumentos técnicos para tudo, mas os melhores são os que são tão técnicos, tão técnicos, que parecem só isso. ora a técnica não é algo de intocável, está na moda recorrer a “independentes” na política e à “técnica”, para que tudo pareça limpo de influências de quem manda, melhor ou pior.
mas será só a técnica de design que justifica o logotipo? em termos de design seguiu as regras, logo está bem. é um raciocínio simples e redutor, um raciocínio kiss. mas, digo eu, no caso da marca/logotipo de um município, ser só um designer a decidir é muito pouco ou quase nada, dada a importância que a imagem carrega em si mesma. será que não deveriam ser ouvidos pareceres de outras áreas? se a murtosa á pátria do moliceiro o logotipo pode ser um barco qualquer? veja-se o logotipo do município de aveiro, simples, sim, mas vê-se que é um moliceiro.
um argumento técnico, de um técnico da área em causa, e …. lá se vão os argumentos dos não especializados. quantos crimes se cometem em nome da técnica? a começar no ambiente por exemplo, sempre muito sustentados por argumentos técnicos. não é verdade rui cruz?
mas, continuemos, para ilustrar a sua teoria, o rui cruz diz que há barcos moliceiros a navegar sem vela e mostra o moliceiro “António Garete”, varado num ancoradouro. bom, se isto é navegar…. entendo. navega, sim, como na foto, que aqui insiro, na regata do bico em 2007. infelizmente o “António Garete”, se ainda não foi destruído, navegará agora, provavelmente, no canal de aveiro, com outros amputados, sem mastro nem vela.
em resumo, e sem abordar ainda as questões metodológicas e legais subjacentes a todo o procedimento, queria deixar aqui uma palavras de um designer da murtosa :
“ ….talvez fosse de interesse da comunidade marinhoa, a edilidade lançar um repto a todos aqueles que ligados ou não ao design cá na nossa Santa Terrinha pudessem colaborar, apresentando um esboço do que poderia vir a ser a nova “marca” do município da Murtosa. Após selecção e escolha do melhor trabalho, feita pela assembleia municipal, o departamento competente na câmara deveria abrir concurso para as empresas de design interessadas desenvolverem o trabalho pretendido baseadas no referido esboço. Essa nova “marca” teria certamente um cunho mais comunitário, mais democrático, “mais nosso”.Para terminar seria injusto não referir que a empresa referida como estando a trabalhar no projecto, é competente e tem capacidade para desenvolver um trabalho criterioso. “
é um parecer técnico, e não só, de um designer. talvez assim seja mais fácil de entender que a técnica só por si não justifica tudo.
lutar hoje contra a extinção dos moliceiros, é de facto o mais importante, temos visto o que as autoridades locais e regionais têm feito, e o que têm feito os que isto afirmam. este é também um tipo de argumento muito utilizado para desviar as atenções da discussão de um caso particular: falar no geral. parece que estamos a perder tempo nestas discussões de pormenor, que não o são, enquanto deixamos passar o fundamental. é assim que nada se faz, dizendo que há coisas mais importantes a fazer.
não há polémicas em vão, há é silêncios convenientes.
(murtosa; regata do bico; 2007)





















