vou pela esquerda
na vida
irei sempre pela esquerda
por ela vim por ela vou
seguro por segundos sou
que pela esquerda
na vida vou
(xávega; pancada de mar no cabeço; torreira; 2013)
mais um ou menos um
esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação
sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas
a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra
são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam
faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais
por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir
não esqueças
a desumanidade não pára
(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)
recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música
recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo
recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores
recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco
(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)