retrato do circo
morre-se antes de nascer
ouro luxo ostentação
o palhaço rico usa boné
(xávega; pancada de mar; praia de mira; 2010)
mais um ou menos um
esquece o tempo dividido
nada é novo
tudo é continuação
sim é fácil desejar
difícil é fazer acontecer
por isso desejas
a guerra a fome a miséria
o sangue o terror
que ensopam a terra
são há muito desejo
de que acabem
e continuam continuam
faz da palavra acto
o pouco que vales
valerá mais
por isso não desejes
sê sujeito activo
nos dias a vir
não esqueças
a desumanidade não pára
(xávega; pancada de mar; torreira; 2016)
recuso o silêncio cúmplice
os acomodados dias
sofá lareira
livro música
recuso não ser aqui
no meu
tempo o grito a revolta
o nojo
recuso o jardim o quintal
mesmo se num qualquer andar
a cadeira de braços a sombra
o perfume das flores
recuso a clandestinidade
do que penso
sou e digo-me
não vou a chás das cinco
(xávega; ir ao mar; torreira; 2013)