crónicas da xávega (49)


o meu amigo nicole

o nicole, a albina e o marco

o nicole, a albina e o marco

como grãos de areia
os dias e os amigos
vão-nos deixando perdidos
nas praias da memória
sem redes nem peixe

eu sei que estás aqui
nicole
porque te vejo e te sinto
no olhar-te

há dias para fazer
e outros para lembrar
há uma imagem
o teu rosto nela e a mão
as mãos falam-me

e tu
tu partiste para ….
não sei quando
para regressares agora

nada é
mas tudo pode ser

somos, dos que partiram, uma eternidade breve

somos, dos que partiram, uma eternidade breve

(torreira; companha do marco; 2010)

os moliceiros têm vela (60)


deste estar aqui longe

quem espera ......

quem espera ……

por entre os dedos
voam palavras
rios pedras sentires

eu em tudo
eu em nada
eu por aí

por entre os dedos
tudo me escapa
tudo escorre
nada fica

uma imagem sorri
pede mais que silêncio
pede pede pede

e eu ….

a cor é acção.... como fazer?

a cor é acção…. como fazer?

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (58)


lembrando drummond

não se veleja sem vento

não se veleja sem vento

que coisa é o homem
carlos?

mercadoria
se calado pouco vale
se trabalha dá lucro
se doente prejuízo
se morre despesa

que coisa é o homem
carlos?

à mesa do orçamento
discute-se o seu valor
que não vale tudo

o valor do homem
tem limite na despesa
no controle do défice

a vida não tem preço
quem foi que disse isso
carlos?

à mesa da negociação
a vida é lucro anormal
o mercado contabiliza
o preço do homem
em dólares em euros
carlos

lembrei-me de ti hoje
por causa de ontem
“a si apanho-o !”
“não quero morrer !”
entrando pelas casas
gritado no rosto de quem

que coisa é o homem
carlos?

a força de querer ser
ou nada

de camões "engano ledo e quedo"

de camões “engano ledo e quedo”

(murtosa; regata do bico; 2010)