pescadores
como se num abraço
a rede amante
amado berço do pão
por vir do mar
como se num instante
todo o suor
a vida no mar jogada
os dias todos
sem saber se
(torreira; companha do marco; 2013)
o meu amigo nicole
como grãos de areia
os dias e os amigos
vão-nos deixando perdidos
nas praias da memória
sem redes nem peixe
eu sei que estás aqui
nicole
porque te vejo e te sinto
no olhar-te
há dias para fazer
e outros para lembrar
há uma imagem
o teu rosto nela e a mão
as mãos falam-me
e tu
tu partiste para ….
não sei quando
para regressares agora
nada é
mas tudo pode ser
(torreira; companha do marco; 2010)
deste estar aqui longe
por entre os dedos
voam palavras
rios pedras sentires
eu em tudo
eu em nada
eu por aí
por entre os dedos
tudo me escapa
tudo escorre
nada fica
uma imagem sorri
pede mais que silêncio
pede pede pede
e eu ….
(murtosa; regata do bico; 2007)
lembrando drummond
que coisa é o homem
carlos?
mercadoria
se calado pouco vale
se trabalha dá lucro
se doente prejuízo
se morre despesa
que coisa é o homem
carlos?
à mesa do orçamento
discute-se o seu valor
que não vale tudo
o valor do homem
tem limite na despesa
no controle do défice
a vida não tem preço
quem foi que disse isso
carlos?
à mesa da negociação
a vida é lucro anormal
o mercado contabiliza
o preço do homem
em dólares em euros
carlos
lembrei-me de ti hoje
por causa de ontem
“a si apanho-o !”
“não quero morrer !”
entrando pelas casas
gritado no rosto de quem
que coisa é o homem
carlos?
a força de querer ser
ou nada
(murtosa; regata do bico; 2010)