a fala da terra


o insuportável peso da palha

o insuportável peso da palha

estão no início e no fim

que à terra volta o que da terra veio

com ela se confundem desde sempre

são o seu rosto o seu corpo vivo

 

o tempo rasgou-lhes na face

os sulcos onde semeou ternura

e amor

pelas coisas simples

água terra fogo

 

amam tudo

que natural é assim ser

o milho os animais o chão

amam-se

 

entre luz e sombra

repartem o dia

porém

tudo iluminam

quando sorriem

 

são ainda a fala da terra

 

(condeixa; eira pedrinha)

sigam-nos


 

ahcravo_DSC_0307_cigano norton de matos

 

deles direi à margem

 

inventaram os centros comerciais

a céu aberto

são senhores do marketing

reinam onde o dinheiro escassa

 

sabem onde e vão

pais do povo a quem estendem

a mão

 

contrafeito

numa terra onde a marca

marca quem a tem

o prazer de enganar a imagem

de desconstruir os símbolos

não enganam é mesmo feito em portugal

aqui onde quase tudo é feito na china

com marca

 

sorriem sempre

sorriem muito

 

de onde vêm para onde vão

é coisa sua

agora

estão aqui e inventam o sonho

a quem só isso resta

 

sigam-nos

 

 

(coimbra; bairro norton de matos)

beco com saída


 

r. visconde da luz, coimbra

r. visconde da luz, coimbra

 

fui muito mais do que serei

o tempo é-me agora adverso

o tempo e os homens que nele

consomem o pouco que de mim

resta

 

as glórias de ter sido

os feitos secretos de um quotidiano digno

os beijos dados e pedidos

os filhos os amigos os amores

as memórias as lutas

sou cada dia mais cada dia menos

 

esperava mais

esperava o que sempre esperei

como eu tantos

o respeito a dignidade a consideração

um fim de acordo comigo

com o que fui

o que fiz

o que sou

o que merecemos

 

agora

olho tudo com medo de que mais um

me diga não és

porque não pode dizer não foste

amargam-me o futuro escasso

porque não me podem roubar a vida vivida

 

tenho-os em pouca conta

que pouco valem no serem assim abjectos

não deixarei porém que me calem

mesmo que agora já não tenha as forças que tive

os meus murmúrios serão o grito da revolta

CANALHAS

 

estou num beco

com saída

quisera


sérgio silva

sérgio silva

começam cedo
o sal corre-lhes nas veias
como se leite bebido
em berço de areia
à beira mar embalados

correm miúdos trôpegos
pelo areal
escutam no mar a voz
que os chama
são
árvores plantadas à beira mar
pelas mãos dos que seus pais

conheço-os vejo-os crescer
enquanto sou

quem sabe
um dia
falarão de mim

quisera vê-los
arrais

(torreira; companha do marco; 2010)

das palavras escritas


 

rede de lampreia

rede de lampreia

 

caneta diversa de uma outra

escrita espera

mestre destas artes

 

assim queria as palavras

límpidas simples

puras

água que te saciasse

mães dos sons que da tua boca

por elas

 

fosse eu dessa outra arte

mestre também

 

das palavras digo:

se não ditas

melhor fora

que não escritas

 

(figueira da foz; gala)