não desgastes as palavras
aprende a ouvir o silêncio
a estares por dentro dele
a seres silêncio também
para que a voz te saia límpida
e o grito
o teu grande grito
seja claramente escutado
não desgastes as palavras
estão no início e no fim
que à terra volta o que da terra veio
com ela se confundem desde sempre
são o seu rosto o seu corpo vivo
o tempo rasgou-lhes na face
os sulcos onde semeou ternura
e amor
pelas coisas simples
água terra fogo
amam tudo
que natural é assim ser
o milho os animais o chão
amam-se
entre luz e sombra
repartem o dia
porém
tudo iluminam
quando sorriem
são ainda a fala da terra
(condeixa; eira pedrinha)
deles direi à margem
inventaram os centros comerciais
a céu aberto
são senhores do marketing
reinam onde o dinheiro escassa
sabem onde e vão
pais do povo a quem estendem
a mão
contrafeito
numa terra onde a marca
marca quem a tem
o prazer de enganar a imagem
de desconstruir os símbolos
não enganam é mesmo feito em portugal
aqui onde quase tudo é feito na china
com marca
sorriem sempre
sorriem muito
de onde vêm para onde vão
é coisa sua
agora
estão aqui e inventam o sonho
a quem só isso resta
sigam-nos
(coimbra; bairro norton de matos)
fui muito mais do que serei
o tempo é-me agora adverso
o tempo e os homens que nele
consomem o pouco que de mim
resta
as glórias de ter sido
os feitos secretos de um quotidiano digno
os beijos dados e pedidos
os filhos os amigos os amores
as memórias as lutas
sou cada dia mais cada dia menos
esperava mais
esperava o que sempre esperei
como eu tantos
o respeito a dignidade a consideração
um fim de acordo comigo
com o que fui
o que fiz
o que sou
o que merecemos
agora
olho tudo com medo de que mais um
me diga não és
porque não pode dizer não foste
amargam-me o futuro escasso
porque não me podem roubar a vida vivida
tenho-os em pouca conta
que pouco valem no serem assim abjectos
não deixarei porém que me calem
mesmo que agora já não tenha as forças que tive
os meus murmúrios serão o grito da revolta
CANALHAS
estou num beco
com saída
começam cedo
o sal corre-lhes nas veias
como se leite bebido
em berço de areia
à beira mar embalados
correm miúdos trôpegos
pelo areal
escutam no mar a voz
que os chama
são
árvores plantadas à beira mar
pelas mãos dos que seus pais
conheço-os vejo-os crescer
enquanto sou
quem sabe
um dia
falarão de mim
quisera vê-los
arrais
(torreira; companha do marco; 2010)
caneta diversa de uma outra
escrita espera
mestre destas artes
assim queria as palavras
límpidas simples
puras
água que te saciasse
mães dos sons que da tua boca
por elas
fosse eu dessa outra arte
mestre também
das palavras digo:
se não ditas
melhor fora
que não escritas
(figueira da foz; gala)