porque ficaste na margem


joão manuel dias

joão manuel dias

o esgar vincado

na beleza deste rosto

fala de uma outra ria

da do sangue

que corre sobre as águas

e mergulha fundo

em busca do pão

 

o pão enterrado na lama

o pão que poucos amassam

que é dura

muita dura a faina

 

sempre que vires o nascer do sol

uma névoa a cobrir tudo

e tudo te surja carregado de beleza

postálica vendável em quiosques

popularizada em páginas de fotografia

lembra-te

 

lembra-te deste rosto

que não viste

porque ficaste na margem

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)

chegar


 

arribar, barco de mar s. josé

arribar, barco de mar s. josé

 

(tenho tanto para te dizer

e tão pouco o tempo)

 

ninguém regressa a lado algum

chega-se sempre

não há regresso ao que era

porque já foi

a isso o tempo nos condenou

o tempo os homens a natureza

nós

 

chega

chegarás sempre

admira-te ou desilude-te

o teres chegado

é sempre espanto

 

( o barco aproxima-se da areia

os homens crescem para a terra

chegam)

 

(praia de mira; companha do zé monteiro; 2009)