não te ver
ouvir-te quando
saber-te sempre
sentir-te
que fazer deste ser assim
para além de mim?
(torreira; marina dos pescadores)
aqui onde o mar é tudo
que eu em terra
este varado
sequer poiso de gaivotas
nada
nada: é ser isto
um barco
é coisa feita para mar e ondas
gritos e sobressaltos
viagens mesmo se quase ali
não
não esta coisa deitada à espera
do sol
dos homens
à espera de ser
(praia de mira; companha do zé monteiro; barco de mar s. josé)
canhoto de alcunha
não é parco nas mãos ambas
ele é redes
ele é remos
ele é tudo o que o arrais pedir
ele é o sorriso
frente às vagas
o abraço que abraça todos
à tona do rosto
o mar salga-nos os olhos
só de o ver
ele é o rosto de todos os rostos
da gente de mar
ele é o rosto
dos pescadores portugueses
agostinho
vamos?
onde queiras cravo
é assim sempre
(torreira; companha do marco; 2010)
saber que
tão breve
tão coisa pouca
tão aqui
sem
fazedor de coisas várias
não me fiz nunca
fui vindo
ajuntador de letras
de imagens
do que posso
em nada sendo algo
mas apenas
isto
um mais
ou menos
sei lá
o vento sopra
lá fora
há um poeta
por dentro dele
a falar-me do binómio de newton
talvez volte
e o encontre ou não
é tudo assim
(ria de aveiro; torreira)
como são cinzentos
estes dias sem sol
húmidos de tantas lágrimas
de olhos nenhuns
caídas
é inverno
nenhum inverno
é eterno
tempo virá de haver
sol sobre os corpos
e não haverá coelhos
por mais brancos
que escapem vivos
falo de estações
e de apeadeiros
(torreira; marina dos pescadores)
estão no início e no fim
que à terra volta o que da terra veio
com ela se confundem desde sempre
são o seu rosto o seu corpo vivo
o tempo rasgou-lhes na face
os sulcos onde semeou ternura
e amor
pelas coisas simples
água terra fogo
amam tudo
que natural é assim ser
o milho os animais o chão
amam-se
entre luz e sombra
repartem o dia
porém
tudo iluminam
quando sorriem
são ainda a fala da terra
(condeixa; eira pedrinha)
deles direi à margem
inventaram os centros comerciais
a céu aberto
são senhores do marketing
reinam onde o dinheiro escassa
sabem onde e vão
pais do povo a quem estendem
a mão
contrafeito
numa terra onde a marca
marca quem a tem
o prazer de enganar a imagem
de desconstruir os símbolos
não enganam é mesmo feito em portugal
aqui onde quase tudo é feito na china
com marca
sorriem sempre
sorriem muito
de onde vêm para onde vão
é coisa sua
agora
estão aqui e inventam o sonho
a quem só isso resta
sigam-nos
(coimbra; bairro norton de matos)