lavrar o mar


praia de mira_companha do zé monteiro

praia de mira_companha do zé monteiro

 

já foi tempo de serem os homens, vieram mais tarde os bois

agora é tempo de tractores, a agricultura essa, é a mesma que o francês, ferdinand dennis, tão bem descreveu e que raul brandão citou no livro “os pescadores”

“– Que estranho país é este onde os bois vão lavrar o próprio oceano?”

(praia de mira; companha do zé monteiro”

espera


 

s. josé

s. josé

 

 

aqui onde o mar é tudo

que eu em terra

este varado

sequer poiso de gaivotas

nada

nada: é ser isto

 

um barco

é coisa feita para mar e ondas

gritos e sobressaltos

viagens mesmo se quase ali

 

não

não esta coisa deitada à espera

do sol

dos homens

 

à espera de ser

 

(praia de mira; companha do zé monteiro; barco de mar s. josé)

até quando?


companha do ti manel fatoco

 

que dizer-vos

destes tempos em que assisto

a tentativas sucessivas

de assassinato

da memória?

 

que dizer-vos

da raiva angústia

desespero

destas gentes

que são as as minhas

que são as nossas

que somos nós?

 

quem seremos

amanhã

se nos querem roubar

o hoje

o ontem?

 

quem seremos

amanhã

se nos querem roubar

o sermos?

 

o povo será sereno

mas até a serenidade

tem limites

 

até quando?