a liquidez do tempo
geme nos dedos
de onde música
escuta o vento
soprar nas árvores
mais altas
curvam-se os arbustos
tu não
a liquidez do tempo
geme nos dedos
de onde música
escuta o vento
soprar nas árvores
mais altas
curvam-se os arbustos
tu não
deixar por momentos
o vento pelo cabelo
ser água fresca
onde o sonho
floresce
no embalo
andaremos
se quisermos
que é de guerra
este tempo
soem os tambores
depois das guitarras
lembro-me de ser assim…
“cumpria-se a terra
depois de agosto
nas eiras plenas de oiro
as desfolhadas
gentes de casa
em casa
o ritual da partilha
dos braços
em coro e ao desafio
a festa
em cantares de antes do milho
mãos
ágeis e sábias desfolhavam maçarocas
vermelha a maçaroca sorria
milho rei
o beijo pedido
celebrava ele também
o reiniciar da vida”
algures
entre quatro
ou mais
paredes forradas
um grupo
de eleitos
discute a forma
que vai revestir
o assalto
que país
vais sobrar?
só sei de uma palavra:
resistir
inventemos o como
não inventes o poema ele está aí anda pelas ruas desesperado sem abrigo com fome em busca de emprego a idade do aquário e tu peixe borbulhando palavras gastas cansadas de tão não é deste tempo querem-se palavras deste estar aqui agora quando o lado negro da luz é mais visível tresanda
correm regatos
por entre seixos
dedos
saltitantes peixes
brilham
sol lá si fá
pianamente
perdi algures
as palavras
no teclado de um piano
escuto-as em silêncio
a música
é infinita
o vazio
flutuar
nada é
tudo pode
sonho
flutuo
sorvo
momentos
de
respirar
recuso cantar o desejo
sublimado em palavras
no inventar de um corpo
sonho a percorrer
não é este o tempo de
quando tudo escasseia
até o pão da palavra
é ázimo
as ruas estão cheias
de bocas vazias
e tu cantas o corpo
o corpo que, sei lá,
não sabes se terias
trago as pedras da calçada
para o teclado
atiro com elas ao monitor
onde um homem se diz ser de raça
sem que se saiba de que raça é
o raça do homem
que muitas somos
nenhuma a dele porém
o lado negro da luz
é cada vez mais visível:
cortante
duvida
é natural que o sintas
o real começa a deixar de o ser
a beleza é sublime demais
estranho
muito estranho
estranhamento belo
tão estranho
quanto real
tão belo
quanto duro
tão feérico
como viver da ria
é uma existência não existente
uma estranha forma de ser
ave e lavrar a lama
nisto se fazendo gente
pairar sobre as águas
será sonho
mas quem pode evitar
o sonho de voar?
fica na dúvida
guarda-me a teu lado
um lugar
fiquemos assim ambos
sentados sem saber se
é o real que estamos a olhar