gente somos
neste país ainda
pagantes seres
de vacas sagradas
por alguns subidas
a altares impróprios
gente somos
neste país ainda
sobre quem caem
enormes
pedras da tosse
dos mandatários do longe/perto
ergamo-nos então
sejamos de facto
vem
vamos por aí
voando leves
nas notas
que os dedos
tecem com cordas
floriu música
um tapete voador de
de areia fina
límpidas as águas
onde peixes
moliço
jardins
mesmo no lodoso
fundo de hoje
há ainda espécies
que se recriam
e são alimento
ria de aveiro
mesa posta
a quem
fosse tão bela
a música que nos dão
em que nos perdemos
árida
de espinhos cheia
já não é música sequer
é agressão
por cá
sofrem os do costume
ao rés da água
a beleza sorri
líquida
os homens são ainda
a continuação de
o regresso ao terem sido
velas erguidas desafiam
o vento e a sabedoria de quem
vêm de todos os cais do concelho
onde bateiras ainda
a festa renova-se
nos boleares desafiantes
a ria abre-se de plena
subterrâneas vozes
intensas sonoridades
despertam
caminho
não sei se encontrarei a luz
sei que não estou só
isso basta
em verdade
em verdade te digo:
é tudo mentira
e é preciso muita lata
saberás de quem falo
que todos falam dessa gente
em verdade
em verdade te digo:
barrigas cheias
belos carros
grandes arrotos
chorudos ordenados
gandas bacanais
um ar de superioridade
bem cultivado
gravata a condizer
com o perímetro do pescoço
(o que até dá jeito)
pensam-se em roma
e gaspar o ser perfeito
(mais um excelente trabalho de Jorge Bacelar)
se histórias contara
quase de fadas seria
epopeias de homens
nascimento e morte
de tantos barcos
contemplação de si
no contemplar de nós
ter a ria no sangue
é ter saudade de não estar
é vontade irrequieta de voltar
tecidos os rostos
em cores muitas
conforme e disformes
com a realidade
esperança
de quantas formas
o homem te vestirá?
pablo mestre
pinta-te melhor que ninguém