a escolha


a escolha

é tempo agora
de escolher o peixe
separá-lo por tamanho
espécie
valor de mercado

toda a companha
se reúne em torno do estrado
do reboque do tractor

em tempos era na areia
mais tarde em cima de um oleado
hoje é mais frequente assim

depois há que lavar o peixe
colocá-lo nas caixas e levá-lo à lota
ou vendê-lo a algum veraneante
farto da carne urbana

assim se vive do mar
e se dá vida a quem o visita

(torreira_companha do marco)

lá fora a chuva


e eu?

um dia

sabes?

falaram-me da chuva

das poças de água

de molhar os pés

de brincar

 

mas a chuva é fria

os dias são escuros

os meninos à chuva

choram sem saber

porquê

e sequer são salgadas as lágrimas

escorrendo pelas faces

 

transidos os dedos

pedem carícias

de outras mãos mais

quentes

 

deixas-me aquecê-los?

 

foto de sofia carvalho:

http://www.facebook.com/album.php?aid=2065907&id=1340696876

 

o massa e o pedro


 

massa e pedro

 

e já não basta o massa
o pedro veio dar uma mão
e não são dois são três
que o massa
para quem o conhece não é um
são dois
a matemática do olhar
não é a matemática do ser

o carapau deu à costa
é de bom tamanho
urge regressar ao mar
nova colheita
a prometer e a não desleixar

ao massa e ao pedro
as costas rebrilham de sal
suor e escamas
assim se ganha o pão
que sai do mar

(torreira_companha do marco)

chamem o massa


 

massa

responde pelo alcunha de

massa

responde pela força dos

braços

responde pela entrega

ao mar

responde pelas nassas

de peixe cheias

que mais ninguém

não é um

são muitos nele

 

responde no recato

dos amigos

em momentos de alegria

tão natural como o mar que

o embala

cantando o fado

que fado carregou

e soube vencer

(torreira_companha do marco)

é carapau


o esventrar do seco

 

lentamente vai-se o saco esventrando.

o adivinhado brilho do peixe salta agora aos olhos ridentes

é carapau, é farto e de bom tamanho

a navalha corta o fio

o peixe estrebucha ainda

o sorriso espalha-se na companha

o peixe se fará pão

e o suor sentar-se-á à mesa

na partilha

( torreira_companha do marco)

59


o mar a meus pés

chamaram-me antónio josé e….

 

aqui estou

59 anos depois

com os olhos dependurados sobre o mar

(eterno poiso de sonho e amor)

 

aqui estou

59 anos depois

tantas caminhos mais tarde

o coração dividido entre as três terras-mães que me aconchegam

(setúbal memória de lá ter nascido

murtosa memória dos que antes de mim fizeram que eu seja

figueira o aconchego da cidade-aldeia onde as memórias se juntam)

 

aqui estou

59 anos depois

eu

pai-avô

de filhos e netas também repartidos por terras

perto e longe

(espalhados na geografia mas juntos onde só um pai os pode ter sempre)

 

aqui estou

59 anos depois

com um sorriso nos lábios

aqui onde

os amigos me saúdam

e me fazem sentir menos só

 

aqui estou

59 anos depois

povoado de memórias e cheio de mim

que em mim tudo é

 

(por tudo isto estou de parabéns, hoje, aqui)

 

 

sorriso


era uma vez

como se bebesse

o momento

o efémero

eternamente retido

numa chávena

onde o douro corre

ao encontro do mar

sorrindo como ela

por enfim se encontrar

 

a felicidade

carece de tão pouco

porque lhe pedem tanto?

 

(foto de sofia carvalho : http://www.facebook.com/scarvalho2