mulher em terra, homem no mar


linda tareca


sou a que fica em terra
à espera dele
que trabalha desde que as pernas
suportam o corpo
até que o corpo as não sinta

sou eu que grito
quando o mar está bravo
e o barco sobe na crista da onda
quando o arrais grita

VAI! VAI! VAI!

sou a que se faz ouvir no nevoeiro
dizendo que a terra é aqui

 

o recreio lá fora


o recreio lá fora

 

espero-te

eu sei que vens

elas brincam

eu esqueci-me

de como

 

deixei

as brincadeiras

penduradas dos teus

braços

 

vejo-te

ainda a sorrir

só eu te vejo

sou só eu a sentir

 

a boneca que me deste

era de trapos

mas tinha dentro

o teu coração

 

fico assim como se a olhar

para nada

e tu

tu estás lá dentro

aqui

 

foto de sofia carvalho (blandisca)

http://www.facebook.com/scarvalho2

chuva na janela


foto de sofia carvalho -http://www.facebook.com/scarvalho2

deixa-me ficar assim

como se o tempo

não

como se tu

sempre

como se eu

ainda

 

o sorriso

o sorriso,

guardo-o para

a primavera

quando trouxeres o

malmequer no cabelo

as searas nos olhos

a maçaroca nos dedos

 

deixa-me estar assim

deixarei que me olhes

e sejas tu também

por momentos

o eu que vê

 

marlene murta …. lembras-te?


marlene murta.

 

como são férteis estes dias
repartidos entre mar e areia
faina e repouso

apetece-me cantar
e lançar ao mar
as mágoas que as arcas
no inverno guardaram

venham barcos
homens redes bois
venham ondas vento
venha, se o houver, peixe

hoje estou feliz
e vou correr na areia
encharcar-me de mar

estou de novo
pronta a não partir
para vê-los voltar

verão


sobre o mar o dia cai

o verão lateja-me nas veias

o corpo reverbera em vermelho e azul

sinto um aconchego de conchas junto ao pescoço

e apetece-me morrer aqui em pleno agosto

 

estou cheio de vida

ofereço-te tudo o que o mar pode dar

porque já não sei distinguir entre mim e o mar

são peixes dourados estas mãos que te acariciam o rosto

e de água este corpo que te aguarda em ondas sucessivas

 

o verão lateja-me nas veias

em cada jarro de vinho bebo

o ritmo pontuado por violas e flautas

 

madrugada dentro o orvalho humedece o desejo

e caminho ao encontro do sol que me espera sobre a areia

 

o verão lateja-me nas veias

e agora já posso morrer porque estou cheio de vida