ti miguel bitaolra


abraço ti miguel

o bordão
agora apoio
do corpo cansado

o saco de plástico
os cigarros e o isqueiro
resguardados

o homem do mar
o ti miguel bitaolra
amigo de muitos anos
senta-se agora
na cadeira
da ti rosa
onde o mar escorre
e a companha se junta
para falar da safra
do futuro
do passado
beber um copo
jogar dominó
uma sueca

continuar viva

do vazio


 

era inverno em mim

incomensuráveis espaços diminutos

vazias casas inóspitas prisões inescapáveis

pesadelos diurnos de percursos circulares

acesas noites gélidas de sonos episódicos

invertebrado tempo de inumeráveis dias

antiquíssimo bater de horas

ressoando em torres ancestrais

palidez lunar de fantasmas seculares

meticulosamente se constrói

o vazio

 

memórias de amor


 

um silêncio azul povoado de bruma e mãos

os rios inventam o leito

e morrem ao longo das margens

 

não há destino avesso a naus e marinheiros

 

o mar soa por entre os pinheiros

num marulhar de caruma

 

um sabor a sg ventil nos lábios

 

sabes

o desejo nunca cabe num só corpo

e depois

para tanto ser uma pequena tenda basta

 

zé trabalhito: presente!


 

os pescadores não morrem, partem para outros mares (dilvandro)

do mar vim

ao mar regresso

a vida é sal que trago em mim

mar feito corpo

o mar nasce-me nos olhos

onde morrem as lágrimas

 

secas de o não ter

salgadas mulheres em terra

homens no mar

 

é no desespero que se salgam os olhos

 

mar

sal

suor

rede

sal

peixe

raiva

sal

e o mar de novo

 

 

…. do mar !

tenho medo

é de andar de carro

o bordão da regeira da ré


(torreira; companha do murta; 2009)

as mulheres da torreira
sabem do bordão
o peso
carregam-no às costas

como carregam
a lida da casa
as contas da mercearia
o pão para os filhos
o peixe para a janta

a sardinha
arde na brasa
a cavala na panela
as batatas

mais um dia
menos um dia
quem sou eu
para lhes falar do tempo
se só sei ouvir o mar

nem o golpe de asa


outono pessimista, não me lembro quando

“ o golpe de asa “

não me faltou

sequer o tentei

e foi na sombra de mim

que desde sempre habitei

 

serei sempre

o que se perdeu

julgando encontrar-se

o sonho encalhado na berma

o quase…

 

tudo aconteceu ao contrário

de mim

e por aqui fiquei

amparado nos muros toscos

de sobreviver assim

até que…

 

depois

esquecer-se-ão do que fui

e talvez inventem

no eu não ter sido

o que talvez não tenha vivido