ana brandão – década de 90


(torreira; ana brandão; anos 90)

                                                                    (torreira; ana brandão; anos 90)

 

aqui nasci

por entre redes
caixas de peixe
sorvendo maresia

para o mar
o meu primeiro olhar
das ondas
o meu primeiro embalo

na areia caminho
como se terra
na companha trabalho
como igual

aqui me farei mulher
terei meu homem e filhos
salgados
todos
de tanto mar

à memória do ti domingos guerra


ti domingos guerra (falecido)

                                                ti domingos guerra (falecido)

 

sou o que andou no bacalhau
conheceu terras de mais peixe
e arriscou a vida no mar
na fuga de a perder em terra

com mulheres crianças
bois
reparto do corpo o esforço
o suor

e o mar cresce dentro
de mim

* a participação dos pescadores em campanhas de pesca de bacalhau livrava-os do serviço militar, ou seja, da ida para a guerra colonial

o barco vai de partida


 

furando o ritmo das ondas
o barco entra no mar
num orgasmo de espuma

ficam na areia
os gritos

sempre o mesmo
nem sempre os mesmos

sempre diferente
cada vez menos

até quando ?

 

furando o ritmo das ondas
o barco entra no mar
num orgasmo de espuma

ficam na areia
os gritos

sempre o mesmo
nem sempre os mesmos

sempre diferente
cada vez menos

até quando ?

era o tempo dos bois


manel franciscão e a sua junta

sem medo
pela mão do homem
entramos pelas salgadas águas

senhores da força
vergados tensos suados
cascos fundo na areia
impomos ao mar
a nossa vontade

num último esforço
o barco avança
galgará ondas e correntes

lento
no seu partir
levará no bojo as redes
esperança prenhe de tanto esforço

no regresso
de novo nos pedirão tudo o que temos
para dar

entre o ir e vir
a pausa
e à beira mar seremos
veraneantes diferentes