há uma voz que me chama
um som cavo
que rebenta na areia e ali
morre
quem és ?
estoiram-me nos ouvidos
ondas de palavras
espraiando letras
na areia da praia
e a espuma
de ser eu aqui
é peixe à babugem da vida
aqui todos ajudam
a faina é dura
os amigos muitos
não há tempo para mudas
o mar chama urgente
o barco já largou
é preciso começar a lide
em terra
aqui todos somos um
os braços juntam-se no puxar das cordas
no empurrar dos barcos
aconchegar das redes
irmãos somos
da terra viemos
para aqui sermos todos um
sou mulher que baste
neste mar de homens
rainha dos ventos e das areias
senhora de muitos saberes
e sofreres
sou mulher que baste
para dizer o que sinto
gritar com a canalha
homens e mulheres
que vêem não o trabalho mas a festa
de estarem de férias
terem espectáculo grátis
arrancam das redes
o peixe miúdo
a sardinha que salta
o jaquinzinho que morre sufocado
deixai o peixe a quem por ele lutou
trago no rosto
as memórias que o mar rasgou
fundas de haver história
linhas escritas com tinta de vento
e palavras de raiva
trago no rosto
a minha alma cansada de viver
estes olhos comidos pelo tempo
de tantas lágrimas sofridas
de tantas vidas vividas
trago no rosto
uma máscara que não podem
arrancar
trago no rosto
o mar

manuel vieira água a lua
é de mar que falo
quando digo
o sal queima
e deixa em mim este sabor amargo
de ser salgada também a água
que me corre nas veias
quando à noite na tasca
as espadas são trunfo
e o copo de tinto
o ás sobre a mesa
é ainda o mar que dita a sorte
(despeço-me do óscar miguel)
óscar miguel
era assim
qual gaivota prestes a levantar voo
preparadas as cordas
as redes a caminho
que
de asas abertas o óscar
iniciava os seus voos
era este o seu mar
o leito por onde corria
o sangue de ser barco
a xávega
perdeu um filho
o mar um amigo
e todos ficámos mais pobres
o óscar miguel
era barco
mas é com um abraço
que lhe digo
até às ondas irmão