teresa trabalhito


 

teresa trabalhito

nada tenho

e tudo possuo

é esta a minha riqueza

sou feliz aqui

onde mar me faz sentir

gente

me chama pelo nome

enche de sal e areia

cobre de escamas oiro prata

atiro-me à água

vestida se preciso for

se a rede o pedir

se o barco quiser

se me apetecer

sou feliz aqui

à beira mar nada

e criada

mulher feita de sal e mar

é este o sorriso

que tenho para vos ofertar

 

assim se vêem os heróis do mar


o barco de mar óscar miguel – torreira anos 90

 

é este o momento

do início

(e quantos tempos nele cabem …)

o arrais lê o mar

estuda a matemática das ondas

calcula-lhes o ritmo

as correntes e os seus caminhos

tensos

homens e animais

aguardam a ordem

o grito claro forte

sem dúvidas de espuma nos lábios

VAI ! VAI ! VAI !

e o barco pula salta

galga mais uma onda

avança

e pára de novo

a cena repete-se

tantas vezes quantas o arrais

achar

é dele o mando

até que

num arranco último

o barco

vence a rebentação

e parte

por sobre o mar

é este o momento

do início

em que tudo pode acabar

homens do mar da torreira


augusto vieira água a a lua; anos 90

o desafio

mora nos teus braços

que ninguém vê

(quem imagina que o mar os tem)

 

mas eu vejo-os verdes

brilhando revoltos

cobertos de espuma

 

encontro-te

ali onde ninguém

o olhar a perder-se

no infinitamente azul

 

aqui nasci e me fiz homem

não é agora que me assustarás

 

o barco

aguarda a voz do arrais

eu

não sou dos que esperam na areia

falecido ti alfedo neto


ti alfredo neto; anos 90

 

adormeço
no embalo do tinto
aquecido ao rubro do mar

feito desta massa de mar e areia
onde as ondas quebram o sonho
de partir
para voltar
e não precisar de ir

por mais que olhe o horizonte
nada mais vejo que o meu rosto

preso nas redes
agarrado aos remos
a largar a corda

o meu presente
será o meu futuro
o passado neles reflectido

ti alfredo neto; anos 90