carlos aldeia


carlos aldeia; anos 90

 

amanhã outro dia
será

é assim no mar
vive-se cada dia como se
o primeiro
o último

amanhã outro copo
virá

é assim na tasca
um copo de ressaca
uma onda varre o corpo
uma carta sai do baralho
uma noite passa no tempo

amanhã outra faina
será

vida de pescador
é percorrer em terra
caminhos que no mar rasgou

e eu sou

na praia de mira, década de 70


peixeiras da praia de mira

sentadas
aguardam a separação do peixe

descansam os pés
para caminhos longos
corridas e gritos
no cantar

“é peixe do maaaar !”

sentadas
rezam para que a pesca
dê para o pão

eram estas as peixeiras

eram elas que nos traziam
peixe do mar
sardinha fresca
gordura a pingar

 

arrais manuel firmino


arrais manuel firmino

levanto-me
abro a porta
o mar entra-me pela casa

tenho ondas no quarto
e há nortada
a chamar-me

navego ainda noutras águas
mais tintas que claras
a noite foi longa
o nevoeiro caiu pela madrugada

começo a acordar
há um grito que me chama

é o arrais
a voz ecoa no ar
trazida pelo vento norte

o mar está de feição
resta-nos tentar a sorte

 

o calinas


 

calinas (há quantos anos?)

olho-te nos olhos
e é como se perguntasse:
que fiz eu ?

aqui
onde a vida começa
com o nascer do sol
o queimar do sal

aqui
envelhece-se mais cedo

nas mãos sulcos rasgados
pelas cordas
que puxam as redes e os barcos

escamas de peixe
salpicam-me o rosto
brincar é escolher sardinha
aguentar a picada do peixe aranha
e não chorar

aqui
cresce-se depressa
a trabalhar o mar

(torreira)

infantário da xávega


filhos da xávega

 

é este o meu infantário

sou só olhos
pernas não sei
palavras não tenho

sou só olhos
à minha frente o mar
o meu pai no barco
o barco no mar
a minha mãe nas redes
as redes em terra
todos no peixe

tudo isto vejo
em tudo me perco e não entendo

amanhã
ali estarei sem o saber agora

começo a aprender
que ser criança aqui
é espuma
que o mar deixa na areia
e secará com o sol e o sal

é este o meu infantário …

 

(torreira)

mulher em terra, homem no mar


linda tareca


sou a que fica em terra
à espera dele
que trabalha desde que as pernas
suportam o corpo
até que o corpo as não sinta

sou eu que grito
quando o mar está bravo
e o barco sobe na crista da onda
quando o arrais grita

VAI! VAI! VAI!

sou a que se faz ouvir no nevoeiro
dizendo que a terra é aqui

 

marlene murta …. lembras-te?


marlene murta.

 

como são férteis estes dias
repartidos entre mar e areia
faina e repouso

apetece-me cantar
e lançar ao mar
as mágoas que as arcas
no inverno guardaram

venham barcos
homens redes bois
venham ondas vento
venha, se o houver, peixe

hoje estou feliz
e vou correr na areia
encharcar-me de mar

estou de novo
pronta a não partir
para vê-los voltar