quando o mar trabalha na torreira_carlos aldeia


para que me servem
os olhos
senão para te ver

quando aperta o norte
vagas são muralhas
a arte não vai ao mar

fico-me então na areia
de pé a olhar-te
no pulsar das ondas
coração teu

para que me servem
os olhos
senão para ver

de quantas cores
te fazes
sempre o mesmo
nunca igual

para que me servem
os olhos
senão para te falar

contar-te isto de ser aqui
pescador da xávega
histórias tantas
a partilhar

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_antonio murta


antónio murta

 
(fala a um amigo que …. )
 

recordo-te

a alar cordas e redes
nas vozes de mando
que ao arrais cabem
nas conversas que tínhamos à beira mar
por entre o rebentar das ondas
e os gritos das gaivotas

recordo o mar

o teu mar
que vi crescer nos olhos
dos pescadores
quando te disseram adeus
regueiras
que lhes rasgavam o rosto
e caíam na terra seca
feitas pedras

recordo-te

há um mar que teima em crescer
dentro de mim
as ondas rebentam-me no peito
gritam-me aos ouvidos o teu nome
não há noite em que te não veja

recordo-te

no silêncio da tua ausência
continuo a ouvir a tua voz

(torreira)

quando o mar trabalha na torreira_david carinha


david carinha

 

dias há
em que o vento leste
amansa as águas
enquanto a nortada descansa

então
os barcos deslizam cisnes
fazem-se ao mar

como crianças
ao colo materno

dias há
de bonançosas ondas
que afagam os cascos
os recebem com braços
de amante

dias há …
mas quantos ?

são tão escassos

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_massa


massa
 

além onde
as cores se confundem
mar e céu se unem
mora o meu sonho
o meu desejo

um barco parte
nele somos mais que nós
levamos connosco
raça que herdámos
de um tempo
antes do tempo

sobre o mar caminhamos
sem medos de vagas
correntes ventos
de onde viemos
para onde vamos
é um caminho que fazemos
de espuma a ferver

além
para além ainda
da linha do horizonte
morarei sempre
onde o sol nascer

(torreira, século XX)

 

quando o mar trabalha na torreira_maria brandão


maria brandão

nestes dias de sal
a queimar a pele
seca
sou mais que eu
sou “a mulher”

na areia quente
da praia
camarada da companha
sou
nas fainas de terra
ombreio com todos
por igual

mas

serei mais mulher ainda
quando o sol se puser
e vieres ter comigo
falando com voz de pão
sopa um copo
o corpo

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_armando bastos (palito)


armando bastos (palito)

 

o mar sorri-me em segredo
só eu entendo a sua linguagem
feita de ondas e espuma

conversas longas
temos
as mãos dão-se húmidas
onde sal sela
amizades

areia
onde nossos corpos
encontram descanso

os pés rompem a toalha
poisam na areia
para levantar voo
encontrar outro chão
de madeira feito

parto
ao teu encontro

no silêncio das ondas
são mais límpidas as cores

os nossos olhares cruzam-se
dizem-se coisas
falam de amores

 (torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_luciano amaral


luciano amaral

 

eu sei

o mar
conheço-lhe as manhas
promessas e traições
nevoeiros ondas correntes

eu sei

o vento
norte forte furioso
correndo na areia
erguendo ondas vagas
onde planícies

eu sei

disso depende a minha vida
nesta arte sofrida
sal sol suor mar vento areia
carne curtida
tempo outro mais veloz

eu sei

mas não é por saber
que resisto ao mar
ao seu apelo
à voz

 

(torreira; século XX)