quando o mar trabalha na torreira_alfredo afonso (cricas)


alfredo afonso (cricas) _ falecido

 

resta-me o futuro
a esperança de haver
mais mar

aqui moram
as minhas memórias
pegadas
coladas
à areia de ser eu aqui
um grão
no vento voado
do tempo

resta-me o futuro
espuma das ondas
a rebentar nas proas
barcos
peixe pouco
deixando em terra
escamas de mar

aqui moram os meus
sonhos
mesmo os que não tive

 

(torreita, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_olívia borras


olívia borras

 

“é peixe do maaaaar!!!!”

e o mar corria
pelos caminhos
entrava nas casas
matava outras fomes

uma sardinha
para quantos ?
quantas sardinhas
para um ?

e de novo o mar pingava
da broa para o prato
era bebido
lambido
sorvido

mesmo que agora
já não corras
nem uses canastra
tens da xávega
uma alcunha marcante
olívia borras

(torreira, século XX)

Nota: o avô da olívia, o ti manel borras, falecido em 1947, é uma figura típica e controversa na torreira. foi pescador, sofreu naufrágios, mas terminou a vida alcoolizado, sendo sua a célebre frase ” se o mar fosse de vinho ia a pé até à américa”. 

fiz alguma investigação sobre a vida do ti manel e muito haveria para contar, desde o papel do vinho nas companhas, aos interesses dos arrais, dos vendedores de vinho “salroeiros” – de salreu -, à participação do ti manel nas festas da “gente fina” da terra” e ao apoio da família pinto ( fundadora do banco pinto & sotto mayor), que lhe pagou o funeral na condição de que este passasse à porta de sua casa.

história para outra altura

quando o mar trabalha na torreira_celestino


celestino

 

a vida fez de mim o que sou
o mar afeiçoou-me os traços
queimou-me o rosto
rasgou-me as mãos
ensinou-me a ser paciente
a só ter medo do medo

espero pelos dias de sol
pescando noutras águas

o mar é ainda o desafio
casa grande o barco alberga-me
o corpo da fúria das vagas
leva-me onde talvez peixe

deixo o meu nome escrito
na areia
junto ao de todos os meus camaradas
que o tempo levou
e o vento apagou

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_ti henrique gamelas


ti henrique gamelas

 
na areia o fruto do lanço
o suor feito peixe

aos gritos das gentes
sucede agora o silêncio
morte lenta
na rede

peixe do mar
que a terra chegou

tudo isto me encontra
num mundo só meu
feito de mar e areia
castelos de que sou rei
senhor e plebeu

na areia
lentamente o movimento
desaparece
o brilho das escamas voadas
pousou e morreu

 
(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_antónio serra


antónio serra

 

o tempo passou
como o norte pela areia
deixou-me aqui
seguiu viagem para outros destinos

plantado neste areal
sou mais uma árvore
raízes fundas cravadas no mar
arrancando cada dia
o alimento que me mantém vivo

o tempo passou
com ele passarei também
serei memória se o for
poeira no vento
que voará para mais além

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_ana amaral


ana amaral (mãe do alfredo)

 

são estes os dias
de sol farto que me fazem sorrir
os bois de mansos que são
sem medo acaricio
desta arte irmãos

é verão
estou viva o mar é meu
são minhas areias ondas água
barcos irão ao mar
haverá peixe na praia
comida em casa

todos os recantos das dunas
me contam histórias que só eu
ondas quebram na areia
lançando no vento nomes
que não esquecerão

são estes os dias
em que estou viva
é verão

 

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_antónio vasques


antónio vasques (falecido)

 

por mais que não queira
é para o mar que os meus olhos
correm

o fascínio das ondas
rebentando da areia
em gritos de agonia
sofrida de tanto mar andado

um barco que parte
outro que chega
as gentes
redes caixas cordas juntas
tudo isso se projecta
na tela imensa azul e verde

é este o meu mundo
feito de sol e vento
areia e mar

redes que remendo
sacos que fecho
à espera de os rasgar

 

(torreira, século XX)

 

quando o mar trabalha na torreira_esmeraldina vasca


esmeraldina vasca (falecida)

 

vejo o peixe
faço contas

quantas canastras dará?
na lota quanto poderá valer?
quando fizerem o leilão até onde posso ir?

pisco o olho ?
baixo a cabeça ?
levanto o dedo ?

tantas maneiras de dizer o meu preço:
não dou mais
compro
não quero
sem dar a saber aos outros

é esta a minha arte
saber comprar
para poder vender

também eu vivo do mar
do mar e do que ele der

vendo peixe
é esse o meu viver

quando o mar trabalha na torreira_homenagem aos bois


o homem ao centro é o manel franciscão

 

história já somos
desta arte

máquinas de músculos
feitas
aqui fizemos diferentes
lavrares

barcos e redes
foram nossos arados
alfaias outras
destes lugares

corremos na areia
entrámos pelo mar
senhores nunca fomos
que doutros era o poder
o mandar

éramos da arte
o diverso
que na memória ficou

 

(torreira; século XX)