quando o mar trabalha na torreira_sónia da fátima da joana


sonia da fatima da joana

 

da xávega filha
irmã do mar
sou na areia
mulher que se faz
cabeça erguida ao vento

as minhas férias de verão
são feitas de castelos de sonho
erguidos sobre cordas e redes
barcos e ondas

abro destinos na areia
pelos caminhos de ir e vir
corro mundo voos infinitos
só o corpo o sente
porque a trabalhar

vou com o vento
visitar as minhas amigas gaivotas
poisadas nas ondas
deixo por momentos os pés voarem
e sou ave

sonhar não mata

 

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_david carriço


david carriço

a rede chegou
o saco aberto a golpes de navalha
esventrado na areia
pelo volume adivinhava-se
quanto peixe

faltava saber a valia

o caranguejo
encheu o saco
de onde em onde uma sardinha
carapau lula

tudo junto não chega a nada
uma caixa de lulas miúdas
duas de sardinha
uma de carapau
quantas de suor ?

por vezes penso
que só mesmo por teimosia
ou por amor

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_fina murta


delfina (fina) murta

 

será carapau….

o mar dá
o que as traineiras deixam
o arrasto não estraga

trabalhar aqui
é ser mais um braço
laço
que une terra e mar
fome e desejo

será sardinha ….

dias passam
barcos partem e regressam
sempre com a esperança
poisada na proa

vivemos de promessas de mar
cantos de sereia
em dias que urge
a pesca ser boa

(torreira, século XX)

 

quando o mar trabalha na torreira_manuel neto


manuel neto

 

seria nevoeiro
não fosse do cigarro
o fumo

aqui tudo é condicional

contam-se histórias
espera-se melhor
vive-se do que o mar dá

tudo no seu tempo
foi é será condicional

até a areia
é outra
quando surge de verão
com o novo vestido
que a invernia moldou

é de mar o tempo
em que o verbo ficou

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_luisa da calada


 luísa da calada

(irmã do arrais joão da calada e viúva de tiago branco)

sei das letras os desenhos
pelas crianças feitos
na areia da praia

no alfabeto da minha vida
cada dia é uma letra
umas mais cheias
outras mais finas
escritas pelo mar
dia a dia marcadas
no corpo que no meu rosto
se espelha

dos números
as contas
somar peixe
dividir sardinha pão
subtrair dias de norte

multiplicar
nunca houve o quê
neste viver feito do mar
azar e sorte

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_ arrais zé murta


arrais zé murta (falecido)

 

olhos fixos no mar
não perco de vista os arinques
procuro a calime

vejo como se deslocam

pelos desvios
da perpendicular à areia
descubro as correntes

entretanto vou enrolando as cordas
preparando tudo para nova partida
que o tempo é pouco
e é preciso aproveitar
estes dias de sol e calmaria

pescador
em terra sou
o que as redes ao mar deitou

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_mulher do torrão do lameiro


 

 

mulher do torrão do lameiro (?)

 

quanto tempo mais
andarei por aqui
a escrever no livro da xávega
as linhas poucas
da minha vida

os anos passaram
no correr da areia pelo vento
levantada

a noite aproxima-se

tudo olho com amor
porque tudo sou eu
em tudo estou ou estive

a minha assinatura
deixada nas cordas redes
peixe que escolhi e carreguei
é só mais uma
como eu

quanto tempo mais
andarei por aqui ?

quando o mar trabalha na torreira_ti alfredo fareja (falecido)


ti alfredo fareja (falecido)

 

pende-me da boca o cigarro

assim os dias
escorregam pelo tempo

olho o peixe
ainda a saltar
é pouco não basta
faço as contas
a este viver
cansado
mais que o cigarro

outro lanço se seguirá

talvez
um sorriso na face vá nascer
com sabor a esforço compensado
peixe que seja pão
para todos

um cigarro pende-me da boca

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_preciosa


preciosa

 

pelo mar entro
como se em casa
meigas as ondas
afagam-me as pernas
mãos de mãe
beijos de amante

irmã mais nova
de quantas por aqui andaram
trago no corpo a alegria
de estar viva

mulher menina
nada e criada
entre mar e areia

correm-me barcos nas veias
e são peixes estes braços
que te apertam
nas malhas de amar

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira


humana a força toda - que os bois já acabaram e os tractores ainda não

 

à força de braços e arte
deslizando sobre varas
caminhada lenta pausada
o barco chega ao mar

assim o início

provocadoras
ondas chamam
amor seu
vida nossa

homens sobem
inundam o barco de força
aos remos
serão poucos
bastantes porém

lanço
que começa
esperança
no que o mar
para dar tem

 

(torreira; século XX)