quando o mar trabalha na torreira_os bois


junta de bois com canga vareira

 

esplêndidos
possantes
dorsos rebrilhando ao sol
somos da arte a força

irmãos das ondas
a nossa energia esgota-se
na praia

tensas cordas
esforço nosso

curvados
ao peso do mar
na areia mergulhamos
duros cascos fendidos

descansamos quando
redes
homens
barco
cordas

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_ cipriano brandão


 

cipriano brandão

 

 

é este o meu mar
de ondas revoltas
desafiando homens e barcos

por mais que o contemple
nunca o conhecerei
saberei dele apenas
o suficiente para tentar voltar

é este o meu mar
nele encontro meu outro ser
pés fincados na areia
olhos perdidos no horizonte

em dias de paz
recebe-me em sua casa
e serve-me do que pode
irmão pai amigo mãe

é este o meu mar
da terra meu único bem

(torreira; século XX)

 

 

quando o mar trabalha na torreira_como se a morte


quando dia acaba

como se a morte

regaço aberto o barco
aguarda o momento
o exacto instante
do adormecimento

atentas nuvens
velam

o dia cansado de tanto ser
recolhe-se nas tascas
bebe uma cerveja
um copo de três
joga cartas damas dominó
pela noite vagueia
triste e só

como se a morte

e a vida fervilha por toda
a praia
que não na areia

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_ti antónio neto (falecido)


ti antónio neto

conheço uma a uma
as dunas
cada grão de areia
é um irmão a brilhar ao sol

do mar
sei de cor todas as cores
são elas o meu abc
com as ondas
falo
em conversas amenas de verão
e peixe

trato por tu
barcos bois redes cordas bóias

sou mais um braço
um par de pernas
um pescador
que na praia ou no mar
só tem um desejo
voltar

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_patricia carinha


patrícia carinha

patrícia carinha

 

aroma de mar

doce intenso

essências de sal e sol

refrescam o corpo

 

é esse o meu perfume

desde pequena que o uso

encontrei-o no meu deambular

de criança pela areia da praia

quando uma onda mais atrevida

me molhou toda

 

tenho o perfume entranhado na pele

por isso é de mar o meu rasto

rainha desta praia

também eu sou a xávega

 

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_ana e alfredo amaral


ana amaral e o filho alfredo

espectadores momentâneos
da arte

aguardamos
a chamada o grito
as palavras por sobre a areia voadas

seremos então
mais dois na faina
mãe e filho
mulher e homem
na labuta que o sol permite
o mar aceita
a vida exige

entretanto
na areia quente
a ternura
persiste

(hoje o alfredo é homem feito e braço de trabalho ao lado mãe – torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_o arribar


arribar

o barco está a arribar

todos seremos poucos
para o trazer a terra

é preciso que não vire

cordas correm na areia
ganchos que urge
engatar
ir pelo mar até onde o corpo
permita

ensinar-lhe o caminho
mantê-lo direito apontado a terra
conforme o arrais

os gritos
correm pela areia
e todos
nunca somos demais

(torreira, século XX)