os moliceiros têm vela (67)


do resistir

o ti abílio é timoneiro

o ti abílio é timoneiro

espectador de mim
desreconheço-me

haver um corpo
é haver eu
cada vez menos

são a descer os dias
naufrago neles
uma agonia sabida
não aceite

resisto

um dizer da murtosa: "a viola está nas mãos do zé ruivo"

um dizer da murtosa: “a viola está nas mãos do zé ruivo”

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

ao leme o ti abílio

os moliceiros têm vela (66)


da terra e das gentes

nem para mortalha, que tal não merecem

nem para mortalha, que tal não merecem

amortalhados serão os sonhos
na brancura de nada mais haver
que a memória

falarão dos dias havidos como se
tivesse de ser assim destino
fado português

ficam vozes perdidas no azul
aves de asas cortadas
um canto triste

tudo o que foi não será mais
não haver gente nesta terra
é ter ela o tamanho do seu
cemitério

que não descansem em paz

toda a beleza e é só pano

toda a beleza e é só pano

(torreira; regata da ria; 2014)

os moliceiros têm vela (63)


o meu lado

que se passará sob a superfície das  aguas?

que se passará sob a superfície das
aguas?

escrevo de um país ao lado
de um povo sem casa
nem abrigo desempregado
ou mal pago doente
de não haver orçamento
e não saber o que isso é

escrevo de um país ao lado
de meninos mascarados de homem
mamando no biberão do tacho
cuspindo insultos sem pudor
sobre quem nada pode

escrevo de um país ao lado
marginalizado por ter sido sempre
o motor do barco e ser lançado
borda fora pelos passeantes de serviço
como se lastro a mais depois de usado

cansa-me esta gentinha de gravata
fato pendurado no corpo
passeando o arroto em alta cilindrada
pelas avenidas da minha vergonha
escrevo de um país ao lado

e sei qual é o meu lado

é preciso encher os olhos para tapar a boca

é preciso encher os olhos para tapar a boca

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (60)


deste estar aqui longe

quem espera ......

quem espera ……

por entre os dedos
voam palavras
rios pedras sentires

eu em tudo
eu em nada
eu por aí

por entre os dedos
tudo me escapa
tudo escorre
nada fica

uma imagem sorri
pede mais que silêncio
pede pede pede

e eu ….

a cor é acção.... como fazer?

a cor é acção…. como fazer?

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (56)


para o arrais marco

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

ricardo e sérgio, um barco, 2 filhos, um sonho que foi para aveiro

como as árvores
os amigos

como os diamantes
raros são

um barco voga lento
um amigo dentro

quando o homem é barco só lhe resta navegar

quando o homem é barco só lhe resta navegar

(torreira; regata do s.paio; 2010)

os moliceiros têm vela (54)


o fio do tempo

enrolada a vela no mastro, o zé rito espera

enrolada a vela no mastro, o zé rito espera

fazer do hoje
um ontem
de que o amanhã
se orgulhe

pesado fardo este
de tão fino fio
ser tecido o pano
que o corpo cobre

de frio tremerá
quem mal o tecer

o bonito vende bem,  a  beleza não tem preço

o bonito vende bem, a beleza não tem preço

(torreira; regata da ria; 2011)