do resistir
espectador de mim
desreconheço-me
haver um corpo
é haver eu
cada vez menos
são a descer os dias
naufrago neles
uma agonia sabida
não aceite
resisto
(ria de aveiro; regata da ria; 2013)
ao leme o ti abílio
da terra e das gentes
amortalhados serão os sonhos
na brancura de nada mais haver
que a memória
falarão dos dias havidos como se
tivesse de ser assim destino
fado português
ficam vozes perdidas no azul
aves de asas cortadas
um canto triste
tudo o que foi não será mais
não haver gente nesta terra
é ter ela o tamanho do seu
cemitério
que não descansem em paz
(torreira; regata da ria; 2014)
o meu lado
escrevo de um país ao lado
de um povo sem casa
nem abrigo desempregado
ou mal pago doente
de não haver orçamento
e não saber o que isso é
escrevo de um país ao lado
de meninos mascarados de homem
mamando no biberão do tacho
cuspindo insultos sem pudor
sobre quem nada pode
escrevo de um país ao lado
marginalizado por ter sido sempre
o motor do barco e ser lançado
borda fora pelos passeantes de serviço
como se lastro a mais depois de usado
cansa-me esta gentinha de gravata
fato pendurado no corpo
passeando o arroto em alta cilindrada
pelas avenidas da minha vergonha
escrevo de um país ao lado
e sei qual é o meu lado
(ria de aveiro; regata da ria; 2010)
deste estar aqui longe
por entre os dedos
voam palavras
rios pedras sentires
eu em tudo
eu em nada
eu por aí
por entre os dedos
tudo me escapa
tudo escorre
nada fica
uma imagem sorri
pede mais que silêncio
pede pede pede
e eu ….
(murtosa; regata do bico; 2007)