os moliceiros têm vela (40)


de bico amarelo

cá te espero

cá te espero

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

o silêncio
quando necessários
os braços

ai senhores que tanto
prometeis
para nos enganardes

belas palavras
finos discursos
atentos abraços

de bico amarelo
na armadilha
os embaraços

pássaros muitos

que ria sem eles?

que ria sem eles?

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (39)


dos mandantes

do mesmo tamanho, só a distância ilude

do mesmo tamanho, só a distância ilude

terão no cemitério da terra
uma lápide diferente
porque não as há iguais
se diversos os nomes

são enormes se vivos
tão grandes que não os agouchamos
usando verbo da terra
iludem-se no serem hoje
heróis de um amanhã
que não verão

são apenas
mandantes por mandato
mandatados

velas ao vento e todos pelo mesmo

velas ao vento e todos pelo mesmo

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (38)


da arte de navegar

não é para todos, o norte

não é para todos, o norte

escolher o vento
traçar a rota

persigo os dias
rasgo as noites
descubro
o nada que sou
o tão pouco

escolher o vento
é segredo
de marinharia
arte secreta

do navegar

é de norte e é forte

é de norte e é forte

(torreira; regata do s. paio; 2013)

os moliceiros têm vela (37)


coisas da terra

há-de ser .... há-de ser

era bom que fosse …..  virá o vento e ….

sou da terra
logo posso

(e não há regras
princípios termos)

sou da terra
logo dono
senhor de tudo
tudo me deve
ser permitido

(e não há regras
princípios termos)

vinde vós
que tiráveis o chapéu
e saudáveis todos
com a palavra certa
o coração aberto
chamo-vos porque
sois a memória
os valores sobre que
tudo se ergueu

estranharíeis esta gente
estranharíeis este povo

por isso
ser daqui é por vezes
ser do contra

por ser da terra
e nela ter aprendido
a sê-lo de facto

fico como vou

mesmo assim, sempre belo

mesmo assim, sempre belo

(murtosa; regata do bico; 2012)

os moliceiros têm vela (35)


abraço, ti zé rebeço

e à vara o moliceiro vai varar na praia

e à vara que o vento ……

conversa a dois

– tá descalço, ti zé?

– não, cravo, trago os sapatos que a minha mãe me deu quando nasci

um homem grande, um homem bom, um homem com coração de oiro, um amigo

filho da terra, irmão da ria, puro e simples como poucos

abraço, ti zé

parados num tempo sem vento

parados num tempo sem vento

(murtosa; regata do bico; 2010)

os moliceiros têm vela (34)


do medo

são moliceiros

são moliceiros

o medo é grande nas terras
piquenas
nas terras do tamanho das
gentes delas

o medo senta-se à mesa
do café
pede uma bica um copo
de água
o jornal da mesa do lado
se vago

o medo fuma um cigarro

o medo invadiu as casas
cegou muitos
paralisou alguns
calou quase todos
uns porque sim
outros porque também

o medo detém meios
oferece lugares
distribui subsídios
piquenos trabalhos
alguns favores
o medo é bom senhor

o medo passeia a gravata
pelas ruas no carro de serviço
o medo sorri pela janela
acena a quem passa
o medo é educado

o medo tem a sua corte
e o silêncio dos restantes

o medo inundou as ruas
transbordou para as praças

o medo
parou à porta do cemitério
porque depressa concluiu

que chegara tarde

os cisnes da ria num céu de sonho

os cisnes da ria num céu de sonho

(torreira; regata do s. paio; setembro, 2014)

postais da ria (63)


do sonho

o povoamento da ria

o povoamento da ria

afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas

sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra

sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei

isso me basta

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

(ria de aveiro; mariscar)