é urgente


torreira, porto de abrigo

torreira, porto de abrigo

 

inventar um país

para este povo

o que ergue a bandeira

mesmo se longe

o que deu o sangue

mesmo se errado

o que se deu todo

e se sente enganado

 

inventar um país

não é

destruir um povo

 

inventar um país

é ter de

se necessário

recomeçar de novo

 

é urgente

 

(torreira; porto de abrigo)

a lama


antónio trabalhito e zé henrique

zé henrique e antónio trabalhito

 

a lama chegava onde

a maré de ir

atolei-me

e também fui

a lama chegou-me onde

 

são muitos

mais que todos os outros

menos que os outros todos

ouviram as promessas

acreditaram

quiseram

 

esperarão

e terão

um dia

não o que querem

não o que merecem

o que lhes derem

será o que

quiserem

 

quem pesca na ria

não pesca no prato

 

a lama chegará ainda

 

(torrreira; porto de abrigo)

tu no centro


 

 

como se formigas

como se formigas

uma frágil linha
ténue
brevíssima
separa o real do real

(confunde-te o que digo
mas escuta)

se longe ou de perto
o mesmo
é muito diferente
como o vires
assim o darás

a beleza longe
é dor se perto
ambas reais
que tu recrias
em coisa única
sem o saberes

não sejas apenas
os teus olhos
(torreira; cabrita de pé)


 

a senhora

a senhora

 

os saberes são os de sempre

como os barcos e os aparelhos

receberam e dão

pais de filhos

memória são

 

homens e mulheres

jovens e menos jovens

todos

procuram no debaixo das águas

o pão que noutro sítio não sabem

 

porquê agora?

porquê aqui?

porquê?

 

chamam-lhe fé

 

(torreira; porto de abrigo)

os cisnes da ria


regata de moliceiros no bico, murtosa

regata de moliceiros no bico, murtosa

pisam um palco
que sempre foi seu
jardineiros de um jardim
ora submerso
ora flutuante

são os mais belos
barcos do mundo
as mulheres dos barcos
machos do mar

esbeltos oferecem-se
ao casamento manso com
as águas virginais
(em tempo diria)
da ria

são tão belos
quanto usados
e desprezados
pelos que os usam
como emblema
orgulho e amor de quem os tem
por filhos e amantes

os cisnes da ria
já são poucos
precisa-se de homens
com h

(bico; murtosa; regata de moliceiros)

porque ficaste na margem


joão manuel dias

joão manuel dias

o esgar vincado

na beleza deste rosto

fala de uma outra ria

da do sangue

que corre sobre as águas

e mergulha fundo

em busca do pão

 

o pão enterrado na lama

o pão que poucos amassam

que é dura

muita dura a faina

 

sempre que vires o nascer do sol

uma névoa a cobrir tudo

e tudo te surja carregado de beleza

postálica vendável em quiosques

popularizada em páginas de fotografia

lembra-te

 

lembra-te deste rosto

que não viste

porque ficaste na margem

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)