não te ver
ouvir-te quando
saber-te sempre
sentir-te
que fazer deste ser assim
para além de mim?
(torreira; marina dos pescadores)
saber que
tão breve
tão coisa pouca
tão aqui
sem
fazedor de coisas várias
não me fiz nunca
fui vindo
ajuntador de letras
de imagens
do que posso
em nada sendo algo
mas apenas
isto
um mais
ou menos
sei lá
o vento sopra
lá fora
há um poeta
por dentro dele
a falar-me do binómio de newton
talvez volte
e o encontre ou não
é tudo assim
(ria de aveiro; torreira)
como são cinzentos
estes dias sem sol
húmidos de tantas lágrimas
de olhos nenhuns
caídas
é inverno
nenhum inverno
é eterno
tempo virá de haver
sol sobre os corpos
e não haverá coelhos
por mais brancos
que escapem vivos
falo de estações
e de apeadeiros
(torreira; marina dos pescadores)
ao rés da água
a beleza sorri líquida
os homens são ainda
a continuação de
o regresso ao ter sido
velas erguidas desafiam o vento
e a sabedoria de quem
de todos os cantos do concelho
onde bateiras ainda
a festa renova-se no bolinar
desafiante
a ria sorri de plena
mãe renovada
de filhos sempre moços
para ler com o filme de Jorge Bacelar