um urso de peluche
na bica da proa da bateira
a coluna sofrida de tanto
um sorriso e um abraço
enormes
pescará ainda
enquanto o corpo
que outra arte não sabe
reparte o amor entre os seus
e a ria
por vezes queixa-se
mas de dores
reclama da balança
do intermediário
do roubo descarado do pão
transformado em carros de luxo
a democracia
ainda não chegou
à ria
aqui a dita dura
é ela que decide o quê
quando e por quanto
são estes os homens livres
aos olhos de quem chega
admira a beleza da paisagem
regista-a e divulga
mas é de lama
que se trata aqui
anda
vem aprender a ria
” Há mais de vinte anos que o meu marido (Gonçalo Rito de 69 anos) anda ao caranguejo. No tempo do escudo o caranguejo era a 60 escudos o kg a partir de outubro, em junho, que é quando ele falha, porque é o tempo dos chocos, então aí começavam a pagar 90 e 100 escudos. Agora quando veio o euro o caranguejo passou para 25 cêntimos, mas sai a 20 ao pescador porque cinco ficam na lota. De maneira que niguém quer trabalhar nisto agora.
O caranguejo é embalado em sacos de 15 kg, às vezes de 10 kg, porque são muitos sacos e isto é um bocado trabalhoso e é muito pesado. Agora ninguém quer, vai o meu marido e o marido da Maria Eneida, o Manuel Mole, não vai mais ninguém.
Até outubro o caranguejo é pequenino e está enterrado por causa do choco e das águas quentes, só se levanta quando a maré alta lhe chega. Ontem o meu marido foi à ria e trouxe 12 sacos, são 150 kg, a 20 cêntimos veja quanto é que dá, hoje saiu para a ria às 4 da manhã e só para as 4 da tarde é que deve estar por aí. Depois é preciso arrumar e arranjar os sacos para a encomenda e ficamos até noite, 6 horas, sete horas da tarde ainda estamos aqui.
Isto é uma vida que já ninguém quer, nós já não temos idade para mudar de vida mas isto é muito mal pago.”
o caranguejo é adquirido por um comprador espanhol, que vem duas ou três vezes por semana e que o leva para a galiza, onde é usado para fazer pasta de caranguejo e como isco para a dourada e para o polvo.
em tempos esta arte deu de comer a muitos pescadores, hoje, na murtosa só estas duas bateiras restam, entende-se pela diferença dos preços de compra no tempo do escudo e na era do euro, o porquê do desaparecimento de quem se dedique a esta arte.
a arte de manuel mole
manuel mole arma 34 bolsas, que são largadas individualmente nos canais da ria, cada bolsa assenta no fundo e é identificada pela bóia que lhe está amarrada.
as bolsas ficam cerca de 1h30m na água, dependendo da força das marés — quando a água começa a para de fim de maré até ao momento em que começa a correr mais na seguinte -, e são levantadas a cada quarto de hora para retirar o caranguejo apanhado.
as bolsas são largadas quando as águas não correm muito, ou seja, próximo do final ou de início de cada maré. A pesca é muito variável como toda a pesca artesanal, à abundância no tempo frio sucede a escassez nos meses mais quentes — de junho a outubro.
de qualquer modo os custos fixos são sempre de 20 euros para o isco e um mínimo de 15 euros para gasolina.
o tempo de trabalho, entre a partida e a chegada da ria é de 12 horas.
o poema
nasce devagar
sem pressas
de ser
paciente
vai juntando palavras
dando colorido
aos dias que habita
o poema
é uma criança ainda
quando brinca na brancura
do papel
e faz sorrir quem o lê
escuta
fala-se
entrega-se
procura-se em
isso lhe basta
e já foi
vejo-me ainda no olhar
o outro
nas palavras
nos silêncios
descubro-me e descubro
escuto-me
ouvindo
eu sou já o
cresci em mim
ao sê-lo também
nos que me rodeiam
sou
com o prazer
de me ser
não sei de solidão
somos muitos em mim
seremos ainda
quando um não for
assim a memória de um tempo
para além de
recuso outro tempo
que não o meu
sou o agora e o aqui
na inquietação de
querer melhor
sou
a pedra
no vidro
o prego
no sapato
não mudo de passeio
mudam
não ponho máscaras
sou-me
irritantemente
por vezes sei e nunca
é demais
não procuro
encontro
reencontro
vomito
quisera ser
o grito
O Pardilhoense é um barco moliceiro construído no ano de 1996, em Pardilhó, em casa do anterior proprietário, Sr. Carlos Vilar. Tem um comprimento de 14,70 metros e uma boca de 2,54 metros. Foi adquirido em 22 Dezembro de 2010 pelo Moliceiro da Costa Nova. Reconstruido pelo mestre Zé Rito em 2011, com madeira de pinheiro bravo para o tabuado e madeira de pinheiro manso para as cavernas. Foi lançado na água nos finais de Junho desse mesmo ano. A madeira de pinheiro bravo veio dos pinhais de São Vicente Pereira, e o pinheiro manso do pinhal de Leiria. Foram respeitadas as medidas do barco anterior e algumas cavernas: o restante foi totalmente feito de novo. Está registado no turismo de Portugal para passeios turísticos, tendo licença para transportar 21 pessoas, incluindo os 2 tripulantes. É o moliceiro mais moderno a operar na ria e um dos poucos a navegar à vela nos passeios turísticos. A sua vela maior tem cerca 80m2. Também já participou em inúmeras regatas. Foi recentemente pintado pelo artista Zé Manel. Os painéis são alterados regularmente com temas novos, para poder participar nos concursos de painéis que ocorrem em Aveiro e na Murtosa (Festa do São Paio). Tenta-se ser o mais criativo e original possível.
(texto de jorge bacelar)
mesmo ao lado um moliceiro em terra:
moliceiro do manuel valas
enquanto um é pintado para navegar outro procura novo dono!
é assim na terra que se diz “pátria do moliceiro”.
afinal, património é investimento na memória ou propaganda balofa?
para os edis da murtosa é propaganda: por todo o lado se pode ler a frase emblemática, mas nada se faz para que os moliceiros continuem a navegar na ria. que apoios dá a câmara municipal aos donos dos últimos moliceiros, para os manterem a navegar? é verdade que a câmara tem um moliceiro, mas que faz com ele?
desditosos filhos que tal pátria tendes!
todos os anos moliceiros são vendidos para fora do concelho, por falta de capacidade financeira dos resistentes para suportar os encargos com a sua manutenção. todos os anos os responsáveis pelo município a isto assistem e continuam a usar, sem qualquer vergonha, a frase ” murtosa pátria dos moliceiros”.
e é verdade, a murtosa é de facto a pátria, os donos da casa é que puseram um letreiro à porta a dizer vende-se.
o peso das raízes
prende a nuvem ao sonho
gota a gota
sobre os dias cai o ser aqui
de novo
reencontro nas redes
as mãos
safando limos caranguejos bastos
a vida
depois do grito negro
do choco
na face
os homens são-me agora
mais próximos
deito-me ao comprido da ria
braços abertos
num abraço retido no fundo de mim
ergo-me por dentro
cresço árvore onde água
é esta a minha ria
a da sobrevivência
das artes
aqui
homem e mulher
são camaradas
em tudo
iguais
o pão que comem
colheram-no
ambos
da mesma fonte
é esta a minha ria
a da resistência
da solidariedade
a que nem todos vêem
a que alguns mataram conscientemente
mas que é
a mais bela ria
do mundo
falo agora de outra escrita
de outras letras
de outras linhas
de outro poema
da vida
ainda e sempre
as mãos
serão destino dos olhos
construtoras de caminhos
e carícias
fábricas de pão
fêmeas
rudes e ásperas
ternas e solidárias
as mãos
rasgadas pelos sulcos
da ria
do mar
da terra
são ainda mãos
mães de pai de mãe
de dar
as mãos
olho-as
guardo-as no fundo de mim
para tas ofertar
como se oiro
como se sol
as mãos