amor


 

 

 

pais

 

14 de fevereiro de 2013

 

não, não é um poema de amor, é do amor que falo

os meus pais têm 88 anos e 63 de casados

no passado dia 14 de fevereiro, na visita diária que lhes faço nos últimos tempos, depois de almoço, pergunto a minha mãe o que tinha feito de manhã

– fui à baixa e, como hoje é dia dos namorados, trouxe uma caixinha de bolos em forma de coração

sorri

.

a carta


 

seguro

 

 

e escreveu-lhes uma carta

 

num tempo em que alguns se queixam de já não se escreverem cartas de amor, o tó-zé, pelo seguro, resolveu escrever uma carta, não de amor, mas de “esclarecimento”.

 

é jovem, provavelmente não pensa e … coisa mais grave, escreve o que não deveria sequer deixar que da boca lhe saísse.

 

dizer à troika o que se passa em portugal…. é ingénuo? pensa-nos tolos? faz deles parvos? ou …. nem sei.

 

mais, será que o jovem não sabe que as técnicas estão ao serviço de uma política? nunca lhe falaram nisso ou, mais uma vez, é uma farsa levada à cena neste palco de pobreza muita e variegada que se chama portugal?

 

não satisfeito com o envio da missiva em causa ao destinatário, entreteve-se a tirar cópias que enviou a quem de direito (ou de direita, conforme os casos).

 

de facto dá para pensar, como muitos portugueses, que seguro é o seguro de coelho.

 

manifesto anti coelho com vénia a mestre almada negreiros


o dito

 

 

basta pum basta!

uma geração, que consente deixar-se representar por um coelho é uma geração que nunca o foi! é um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! é uma rêsma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

abaixo a geração!

morra o coelho, morra! pim!

uma geração com um coelho a cavalo é um burro impotente!

uma geração com um coelho à proa é uma canôa uni seco!

o coelho é um cigano!

o coelho é meio cigano!

o coelho pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquezas!

o coelho é um habilidoso!

o coelho veste-se mal!

o coelho usa ceroulas de malha!

o coelho especúla e inócula os concubinos!

o coelho é coelho!

o coelho é júlio!

morra o coelho, morra! pim

…….

cultura avieira_casas palafíticas_cultura dos pescadores do litoral



 

Publicamos hoje dois trabalhos em conjunto.

O primeiro, da autoria da Dra. Lurdes Véstia, aborda o tema das casas palafíticas no mundo. Trata-se de um modo de construção disseminado em algumas regiões do globo e apresenta a perspectiva global sintetizada deste modo tão peculiar de construção, em tudo semelhante à dos pescadores Avieiros.

O segundo, da autoria do Prof. Doutor Alfredo Marques, trata da cultura dos pescadores do litoral central português, também designado como região da Gândara. Este texto retoma a publicação de um significativo conjunto de artigos que o autor publicou no Jornal da Figueira, e com ele se pretende publicar o conjunto de todos os que escreveu sobre a temática cultural daqueles pescadores, nos quais se incluem os da Praia de Vieira de Leiria.

Aos autores endereçamos os nossos sinceros agradecimentos.

 

Gabinete de Coordenação,

(Candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco)

Cultura Avieira – Um património, uma identidade

 

FOLHA N-¦26-2012_Casas palafitas pelo mundo

FOLHA N-¦27-2012_Mem+¦ria da Terra e do Mar – III

o cancelamento da regata da ria e o apoio aos moliceiros


considerando os prémios de participação e de mérito, o máximo que um moliceiro pode totalizar com as regatas do bico na murtosa e a do s. paio na torreira, será de 900 euros, tendo para tal de ficar em primeiro lugar nas duas.

uma vez que os custos de manutenção e pintura dos barcos para participarem nas regatas, nunca é inferior a 1.000 euros, compreender-se-á facilmente que, este ano, foram os donos dos barcos que participaram nas regatas, quem efectivamente financiou o turismo da ria.

esperemos que para o ano tal não volte a acontecer e que estes homens vejam reconhecido o seu esforço, amor e empenho na manutenção de uma tradição que os viu nascer e que consigo levam até onde ….

para eles, mais que um aplauso, um abraço solidário e reconhecido pelo que são: PORTUGUESES

(regata do bico; 2012)

museu do território da gândara


MUSEU DO TERRITÓRIO DA GÂNDARA

Aberto ao público um novo espaço museológico em Mira

Ver para Crer….

E Ver para Querer!

Em terras devotas ao patrono São Tomé, o novo espaço museológico que interpreta, valoriza e convida a conhecer o território da Gândara manifesta-se como uma surpreendente viagem pelo Tempo e pelo património natural e cultural da região. Quem o visita será surpreendido pelas maravilhas escondidas pelos recantos da região e sairá, sem dúvida, com a vontade de palmilhar o território e as paisagens com um novo olhar e um querer bem, redobrado, ao património colectivo.

Tendo sido inaugurado no passado dia 28 de Julho, pode agora ser visitado de terça feira a domingo, no horário das 14:00 às 17:00 horas, com entrada gratuita.

Com os objectivos de valorizar todo o património cultural e ambiental da Região da Gândara, como factor de identidade e atractividade do território e de criar um novo serviço museológico na rede de equipamentos culturais da região, este espaço pretende ser uma nova abordagem museológica a estas terras e ao seu vasto património, suportado por inovadores recursos tecnológicos e multimédia, que potenciam a capacidade interpretativa e comunicacional, destacando-se numa linguagem atractiva e cientificamente validada.

Localizado na Av. 25 de Abril numa antiga escola primária, divide-se por duas áreas expositivas cujas temáticas são: o Tempo e o Homem e o Homem, a Terra e o Mar. Na primeira, o visitante pode fazer uma viagem pela História da Terra e do Homem, tendo como elementos principais o conglomerado de Mira, a evolução do Território, bem como um conjunto de achados arqueológicos que demonstram a importância destas terras. Na segunda zona expositiva podemos ver alguns dos aspectos etnográficos culturais mais emblemáticos como as Artes da Pesca de Arrasto, os Caretos da Lagoa, a Arquitectura e os materiais tradicionais (Palheiros de Mira e Casa Gandaresa com o fabrico artesanal dos adobes) ou a enorme biodiversidade deste território.

Sendo iniciativa e responsabilidade da Câmara Municipal de Mira, a obra de recuperação do edifício foi apoiada através de uma candidatura QREN e o projecto de concepção museográfica também foi financiado através de uma candidatura ao programa LEADER.

Desde já convidamos todos a visitar este belíssimo Museu!

carências


conforme combinado, a porta abriu-se e ela surgiu.

ele tremia, não estava habituado, nunca tinha.

depois de acertado tudo, ela iniciou as tarefas que constavam do contrato.

constrito ele pediu:

– já, não, preciso de festas, acaricia-me

durante algum tempo, frequentou-a, tornaram-se quase amigos e ela fez dele confidente.

depois… depois cansou-se e quando voltou a querer estar com ela, ligou-lhe, mas atendeu uma voz de homem. tinha partido e o número sido atribuído a outro consumidor.

a vida é um mundo e nem todo o mundo cabe na vida

Ricardo Araújo Pereira: “A política morreu”


ricardo araújo pereira_foto tirada da net e editada

 

Não é político. Mas tem influência política, sublinha Nuno Artur Silva. O humorista Ricardo Araújo Pereira encerrou as “Desconferências” do São Luiz. E começou assim:

A política morreu porquê?

Várias hipóteses:

1. A primeira é a de que morreu porque deixou de ser necessária. O sonho dos nossos antepassados cumpriu-se. Os portugueses vivem hoje num país nórdico: pagamos impostos como no Norte da Europa e temos a qualidade de vida do Norte de África.

Somos um País onde nem Américo Amorim se acha rico. E porquê? Porque somos dez milhões de milionários. Temos a vida que os milionários têm.

Cada um de nós tem um banco e uma ilha, é certo que é o mesmo banco e a mesma ilha, que é o BPN e a Madeira, mas todos os contribuintes são proprietários de um bocadinho.

2. A outra hipótese é: não há política porque só há economia. E enfim, a teoria medieval concebia apenas duas formas de governo: na primeira, o fluxo do poder era ascendente. O poder emanava do povo e o povo delegava nos seus representantes. Na outra forma de governo, o poder fazia o percurso inverso: emanava do príncipe e o príncipe delegava nas outras figuras do Estado. O nosso modelo é um híbrido, no sentido em que do povo emana o poder para eleger os representantes na figura de pessoas como Miguel Relvas e o seu vice-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. E há depois o príncipe, que é a troika, do qual também emana poder. E a troika delegou o poder nas mesmas pessoas. Portanto, há um engarrafamento de poder nesta gente e, como é evidente, o poder que vem de cima é mais forte do que aquele que nós mandámos para lá e é isso. O poder deles tem mais força. E o nosso… voltou para trás.

Há problemas no facto de a política ter morrido:

1. O primeiro é: a política percebe-se. Já a economia é muito mais difícil de compreender. Eles simplificam, isso é verdade. Por exemplo, primeiro os mercados começaram a dizer que nós éramos PIGS: Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha. PIGS, porcos! Depois disseram: Portugal é lixo. É uma metáfora muito repetitiva, mas é clara. Facilita a compreensão. Reparem, eu não sei ao certo o que é o “subprime”, nem o que são “hedge funds”, mas quando uma pessoa me diz: “tu és lixo”, eu percebo do que está a falar. Eu sei exactamente. Claro que é triste esta liberdade vocabular não ser permitida a quem está em baixo: a gente vê uma manchete a dizer: “mercados consideram que Portugal é lixo”, mas é impensável, na página seguinte, ter: “Portugal vai tentar renegociar a dívida com os chulos”. Isso não nos é permitido. Eles têm o capital financeiro e o capital semântico, tudo o que é capital, açambarcam, isto torna a vida difícil.

Mas também há vantagens no facto da política ter morrido:

1. Saiu agora um estudo que diz: “Portugal é uma democracia com falhas”. Em primeiro lugar, é importante elogiar um grupo de cientistas políticos que é tão eficaz que consegue olhar para Portugal e ver uma democracia com algumas falhas, e não uma falha com alguma democracia. É inquietante sermos uma democracia com falhas porque, até agora, éramos uma democracia sem falhas. Nós éramos felizes e não sabíamos.

2. Depois, levanta-se outra questão, que é saber se se pode dizer democracia com falhas. Eu estava convencido que a democracia ou é ou não é, no sentido em que também não se pode dizer “ele é ligeiramente pedófilo, ou ele estava mais ou menos morto”. Ou está morto ou não está! O facto de sermos uma democracia com falhas põe outro problema mais inquietante: a partir de quando é que uma democracia com falhas passa a ser uma ditadura com qualidades?

3. Outras vantagens: assim que Passos Coelho foi eleito, nós deparámo-nos com um problema interessante: Passos Coelho nunca fez nada na vida a não ser política, JSD, por aí fora. O homem licenciou-se com 37 anos, esteve ocupado a tratar de coisas políticas.

No entanto, não tem experiência política nenhuma, o que é difícil para um homem que só fez política na vida. Lá está, ele teve empregos, mas só em empresas administradas pelo Ângelo Correia. O primeiro emprego que teve que não foi arranjado pelo Ângelo Correia, foi este, que nós lhe arranjámos. Passos Coelho acaba por ser uma inspiração para todos os desempregados. É possível, sem grande currículo, com alguma sorte, arranjar um emprego, desde que, lá está, o outro candidato seja… o Sócrates. Para quem tem pouca experiência, governar com a troika é como andar de bicicleta com rodinhas e, portanto, tem esse lado vantajoso.

 4. Paradoxalmente, o nosso voto tornou-se mais importante. Antigamente votávamos nas eleições nacionais portuguesas, hoje votamos nas regionais alemãs.

 5. E é excelente por questões de respeito. Por causa da senhora Merkel. E digo senhora Merkel com propriedade. Não dizemos o senhor Sarkozy ou o senhor Obama. Nunca. Mas senhora Merkel dizemos. E temos em português aquela expressão, quando nos referimos ao passado: “o tempo da outra senhora”. Este é o tempo desta senhora. Saiu uma senhora e entrou outra senhora.

 Queria acabar dizendo que há esperança para nós. Porque a política parece ter morrido, mas ainda há réstias de política. Vou dar dois casos:

 1. O assassinato político voltou e isso significa que há política. Em 1908 mataram D. Carlos. Em 2011 foi abatido a tiro, também por razões políticas, o pórtico da A22. Há qualquer coisa no início dos séculos que excita o gatilho dos conspiradores. E alguém leva um tiro. Enfim, podiam ter morto o rei, mas entre D. Duarte e o pórtico, os atiradores optaram, e bem a meu ver, pelo que politicamente era mais relevante. E deram uma chumbada na portagem.

 2. A segunda razão pela qual devemos ter esperança é este incentivo à emigração constante, que é de facto uma medida política. Geralmente, o programa xenófobo, que é vasto e risco, consubstancia-se na frase “vai para a tua terra”, dita aos imigrantes. O nosso Governo tem este programa ligeiramente diferente que é: “sai da tua terra!”, dito aos nativos. Fica difícil saber para quem é esta terra afinal. Eu quero sugerir o Brasil como um destino interessante para nós. O Brasil é uma terra de oportunidades e possibilidades de riqueza, como demonstra o caso inspirador do Duarte Lima.

um país de novo adiado


onde vais coelho? para a construção?

Carta Aberta Ao Primeiro-Ministro – Myriam Zaluar
Recolhida no Facebook:

Exmo. Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome “de guerra”. Basílio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais difícil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos.

Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.
Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. “És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro.” – disseram-me – “Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção”. Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. “Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom currículo, arranjarei trabalho num instante”. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade.

Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira ‘congelada’. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como “nativa”. Tinha como ordenado ‘fixo’ 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro-ministro, só tinha 24 horas…

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci – felizmente! – também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro-ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu Renault Clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar…

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros – valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo.

Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.
Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus
Myriam Zaluar, 19/12/2011